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segunda-feira, maio 31, 2010

Peking Opera Blues/Do ma daan – 刀馬旦 (1986)

Capa

Origem: Hong Kong

Duração aproximada: 104 minutos

Realizador: Tsui Hark

Com: Brigitte Lin, Cherie Chung, Sally Yeh, Kenneth Tsang, Wu Ma, Paul Chun, Mark Cheng

Ling e Cao Wan

“Ling e Cao Yan”

Sinopse

Em 1913, o general Yuan Shikai tomou o poder após a queda da monarquia ilustrada na dinastia Qin. Yuan precisa de uma grande quantidade de dinheiro proveniente dos governos europeus para se manter no poder, e o general “Cao” (Kenneth Tsang) ajuda-o a tomar providências para segurar os empréstimos. Contudo, a filha de “Cao”, “Cao Yan” (Brigitte Lin) está aliada aos rebeldes que se opõem à ditadura militar, e conspira para furtar ao pai os documentos que comprovam o negócio com as potências ocidentais.

Sheung Hung

“Bai Niu”

Durante o seu plano para sonegar ao pai os acordos que titulam os empréstimos, “Cao” inesperadamente conhece duas mulheres. Uma é “Bai Niu” (Sally Yeh), a filha de “Wong” (Wu Ma), que dirige uma companhia de ópera chinesa, onde só são admitidos homens em respeito pela tradição. “Bai” não se conforma com este costume, pois ela adora representar e adoraria ser uma actriz profissional. A outra companheira que não estava nos planos é “Hong” (Cherie Chung), uma fura-vidas que se embrenha na companhia de ópera, de maneira a recuperar uma caixa cheia de jóias de grande valor. As três mulheres envolvem-se ainda mais na intriga política, quando travam conhecimento com o espião “Ling” (Mark Cheng), e todos juntos travam uma luta para evitar que o regime corrupto que domina a China leve a sua avante.

Hong

Hong”

Review”

Quando existem referências às grandes obras produzidas pelo cinema de Hong Kong, e foram muitas, em quase todas aparecerá inapelavelmente “Peking Opera Blues”, considerado um dos expoentes máximos do conhecidíssimo Tsui Hark. Efectivamente, um dos pontos fortes desta película passa pela grande e feliz mistura de géneros, que o realizador de origem vietnamita conseguiu urdir. O filme encontra-se imbuído de referências históricas de um período importante e delicado da história chinesa, assim como passeia pelos caminhos da intriga política, do drama, do romance, deambulando ainda pela comédia e uma dose apreciável de acção.

Efectivamente, o período onde decorre a trama de “Peking Opera Blues” é deveras interessante para aqueles que se interessam e apreciam a componente da ciência histórica na sétima arte. Como já foi aflorado na sinopse, a China vivia uma altura onde a monarquia milenar tinha tombado há poucos anos, e o general Yuan Shikai tinha tomado o poder, governando como o primeiro Presidente da República. A questão é que Shikai enveredou por uma orientação autocrática, tendo a certa altura tentado reviver o império chinês, onde chegou a declarar-se imperador. Esta atitude revelou ser potenciadora de rebeliões, um pouco por todo o Império do Meio, onde se revelou nesta altura o conhecido Sun Yat Sen. É pois nesta época conturbada, retratada por Tsui Hark com algum rigor e espectacularidade, que decorre a acção desta longa-metragem.

As 3 amigas

As 3 aventureiras”

Feito o pequeno enquadramento histórico, o pano de fundo da trama decorre essencialmente na ópera chinesa, onde é denotada uma abordagem muito interessante, como momentos muito apreciáveis. Mas onde existe um “glamour” muito próprio e associado a esta arte, igualmente há lugar para a paródia. Os homens por vezes parecem muito efeminados (relembramos que às mulheres naquela altura não era permitido representar) assim como por sua vez as raparigas têm de se fazer passar por homens, de forma a que lhes seja dada a oportunidade de actuar num palco. A acção, a cargo do quase insuspeito Ching Siu Tung, tem momentos verdadeiramente espectaculares, quer a nível do domínio das artes marciais, como dos duelos com armas de fogo. O entretenimento, com margem para dúvidas mínimas está bem conseguido. Por sua vez, a caracterização da época e das personagens, constitui um dos pontos fortes de “Peking Opera Blues”. Tudo cuidado, com muito atenção aos pormenores e um guarda-roupa portentoso, em especial as vestes dos intérpretes da ópera chinesa.

Os actores exibem-se no plano que lhes é exigido e pouco mais. No entanto, e não obstante ser conhecida a minha admiração pessoal pela actriz, a verdade é que Brigitte Lin mais uma vez marca a sua presença e destaca-se dos restantes intervenientes. A versátil actriz de Hong Kong, que muitos clamam pelo seu regresso, confere uma personalidade muito própria a “Cao Yan”, a filha rebelde do general, e ainda tem tempo para dar um ar da sua graça no que mais a celebrizou nos filmes, ou seja, a exibição de artes marciais.

Apesar de não concordar com aqueles que colocam “Peking Opera Blues” como uma das melhores películas de sempre do espectro de Hong Kong, forçosamente terá de ser admitido que estamos perante uma longa-metragem com uma qualidade acima da média e que terá de constar na galeria dos filmes notáveis da região administrativa chinesa, nem que seja pela sua importância histórica. A sua miscigenação feliz de predicados assim o exige, e nós na qualidade de fãs, nada temos a opor.

A conferir!

Ópera chinesa

Fabulosa caracterização na ópera chinesa”

imdb 7.6 em 10 (969 votos) em 31/05/2010

Avaliação:

Entretenimento – 8

Interpretação – 7

Argumento – 7

Banda-sonora – 7

Guarda-roupa e adereços – 9

Emotividade – 8

Mérito artístico – 8

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 7

Classificação final: 7,63

 

quinta-feira, outubro 16, 2008

A Better Tomorrow/Ying hung boon sik - 英雄本色 (1986)

Origem: Hong Kong

Duração: 90 minutos

Realizador: John Woo

Com: Ti Lung, Chow Yun Fat, Leslie Cheung, Waise Lee, Shing Fui On, Kenneth Tsang, Emily Chu, John Woo, Tsui Hark, Shi Yangzi, Tien Feng

"Mark"

Sinopse

“Ho” (Ti Lung) e “Mark” (Chow Yun Fat) são dois conhecidos membros de uma tríade, que encontram-se envolvidos numa vasta operação ilegal de falsificação de dólares americanos. “Ho” tem um irmão que adora e protege imenso, chamado “Kit” (Leslie Cheung). Apesar de o sentimento ser mútuo, “Kit” não desconfia da vida criminosa do irmão mais velho e sonha prosseguir uma carreira completamente antagónica, ou seja, ser um inspector da polícia de Hong Kong.

"Os irmãos Ho e Kit"

A tragédia abate-se sobre os dois irmãos, quando devido a um trabalho falhado de “Ho” em Taiwan, uma tríade rival assassina o pai de ambos. “Ho” é preso, “Kit” descobre a vivência ilícita do irmão e vota-lhe ódio e desprezo, enquanto “Mark” na sua sede de vingança fica inválido e leva a partir daí uma vida miserável. Após cumprir uma pena de prisão, “Ho” está decidido a recuperar a confiança e amor do irmão, e decide abandonar o crime, arranjando um emprego honesto como motorista de táxi. No entanto, as coisas não correm pelo melhor e o antagonismo de “Kit” aumenta ainda mais quando negam-lhe uma promoção, pelo motivo de ser o irmão de “Ho”.

As coisas pioram quando “Shing” (Waise Lee), actualmente o chefe mais poderoso das tríades, começa a infernizar a vida de “Ho” por este se ter recusado a juntar novamente à organização. Pressionados pelas actuações de “Shing”, os irmãos esquecem as suas querelas e com a ajuda de “Mark”, enfrentam sozinhos e de frente a tríade que não os deixa em paz na busca de um amanhã melhor.

"Shing rodeado dos seus capangas"

"Review"

Quando nos referimos aos filmes de tríades de Hong Kong, na vertente “heroic bloodshed”, é meu costume e de tantos outros afirmar que existe um período antes de “A Better Tomorrow”, e outro posterior que nos viria a dar obras brilhantes, quase todas da autoria de John Woo, tais como “The Killer”, “Bullet in the Head” e “Hard Boiled”. O cinema de Hong Kong viria a diversificar finalmente a sua internacionalização, não vivendo quase exclusivamente dos filmes de artes marciais ou do wuxia. E por aqui desde logo se afere da incontornável importância desta película, pois foi praticamente aqui que tudo começou no que toca a destilar qualidade e um estilo incomparável relativamente ao conceito da vingança servida num avassalador prato de balas por um anti-herói! Numa lista revelada nos “Hong Kong Film Awards” de 2005, onde foi consultado um painel composto por 101 pessoas, desde realizadores de cinema, críticos e estudiosos do fenómeno da sétima arte, “A Better Tomorrow” foi eleito o segundo melhor filme de sempre do triângulo China/Hong Kong/Taiwan (consultar o resto da lista AQUI). Convenhamos que qualquer escolha tem sempre muito de discutível, e o que é bom para um muitas vezes não vale nada para outro, mas é forçosamente necessário reconhecer que “A Better Tomorrow”, pela sua importância histórica e imponência cinematográfica, é um claro candidato a figurar em qualquer “top” da sétima arte que se preze. Praticamente sem publicidade de relevo antes da sua estreia, esta longa-metragem viria a bater recordes de bilheteira em toda a Ásia, e poder-se-á afirmar que não constituiu quase nenhum risco financeiro a feitura de duas sequelas e uma prequela.

Alertando desde já que sou um admirador do actor em questão, um dos aspectos que importa antecipadamente esclarecer é a real importância de Chow Yun Fat no filme, e que imperativamente terá de ser desmistificada. Com certeza que todos os que estão familiarizados com o filme, já se aperceberam que é a sempre a figura do mencionado intérprete que aparece por todo o lado em jeito de destaque, seja nos “trailers”, nas capas das inúmeras edições de dvd ou nas fotos mais emblemáticas. Com todo o respeito, e que é imenso, a verdadeira estrela da película é o actor Ti Lung, do qual Leslie Cheung e Chow Yun Fat constituem uns espectaculares adjuvantes. O verdadeiro coração desta longa-metragem assenta na relação dos dois irmãos “Ho” e “Kit”, suportadas por duas boas interpretações do já mencionado Ti Lung e do saudoso Leslie Cheung. A Chow Yun Fat está reservado um importante papel de rebeldia, determinação e fúria, residindo neste actor a força da longa-metragem, reconheço. Mas meus amigos, a alma e o espírito ficarão a cargo de Ti Lung e um pouco de Leslie Cheung. Se não vos confessasse isto, não estaria a ser sincero e a pactuar com o politicamente correcto. Cumpre ainda referir uma curiosidade e que passa por tanto John Woo, o realizador, como Tsui Hark (produtor) terem participações no filme, e não apenas como meros figurantes!

"Mark sofre um brutal espancamento"

A fórmula de sucesso é a mesma a que estamos habituados no que toca a John Woo, embora exista um certo refinamento em “A Better Tomorrow”, em detrimento de uma aposta mais premente nos espectaculares momentos de acção. Com uma trama forte, é-nos dado a interiorizar a actuação das tríades, e a amizade de “Ho” e “Mark”, evidenciando honra no mundo do crime. Paralelamente, observamos a grande ternura que une os irmãos “Ho” e “Kit”, com o irmão mais velho a assumir uma postura protectora e de admiração que muito colhe a nossa simpatia. O negócio ilícito corre bem, a amizade dos intervenientes parece impossível de ser abalada, e o futuro de “Kit” parece ser o mais auspicioso possível. O terreno está preparado para que possamos gozar à vontade as sensações posteriores de pena, revolta e vingança quando tudo descamba e o paraíso acabou.

Outro aspecto bastante propalado acerca de “A Better Tomorrow” é o facto de a película “rebentar as costuras” de estilo, possuindo cenas emblemáticas para dar e vender. Tirando a parte final, em que já se está mesmo a ver (por isso não é nenhum spoiler!) vai haver matança e balas a rodos, normalmente faz-se a apologia de uma cena que marca imenso o filme. Falamos do tiroteio com o cunho de Chow Yun Fat, aquando da vingança que leva a cabo pela prisão de “Ho”. O actor entra num restaurante, impecavelmente vestido de fato, coberto com um sobretudo. Num corredor, vai posicionando armas estrategicamente em canteiros de flores, enquanto está agarrado a uma bela rapariga. Entra na sala onde os seus inimigos estão a jantar, e cumpre o seu objectivo de assassinato. À medida que posteriormente vai recuando no corredor e as suas balas esgotam, retira as armas dos ditos canteiros e continua a disparar, cobrindo a sua retirada e espalhando o inferno na terra. Tudo alternado entre planos rápidos e “slow motion”. Esta sequência é uma candidata a lugar honroso numa rubrica do género “os dois minutos mais intensos da história do cinema”. No que toca a estilo, a personagem “Mark”, viria a marcar uma posição bastante forte perante a juventude de Hong Kong na altura. Muitos adoptaram o estilo evidenciado por Chow Yun Fat nesta longa-metragem, acorrendo às lojas para comprar sobretudos pretos (para o clima de Hong Kong isto é terrível, principalmente no Verão) e óculos “Ray-Ban”, e andando de palito na boca. As autoridades criticaram imenso este facto, acusando John Woo de propalar o estílo dos criminosos pertencentes às tríades. Poderá passar também por aqui a explicação para o facto de Chow Yun Fat ter um papel predominante no que toca a Leslie Cheung e Ti Lung, assunto que já abordei mais acima.

Quando “A Better Tomorrow” estreou em Hong Kong, foi um murro no estômago e tornou-se no filme com mais receitas de bilheteira na história da região administrativa chinesa, tendo mantido o lugar por alguns anos. Apesar de não chegar ao brilhantismo de “The Killer”, é um filme com um mérito cinematográfico extraordinário. O seu “quid” passará por iniciar a brilhante odisseia dos “heroic bloodshed” de John Woo, consubstanciando um dos períodos de ouro do cinema de Hong Kong. Mais pode se lhe assacar outra proeza de renome que foi catapultar para as luzes da ribalta um actor que até então era conhecido por só participar, salvo uma ou outra excepção, em verdadeiros fracassos de bilheteira, comédias duvidosas e dramas de calibre menor. Quem? Esse mesmo! Estou a referir-me a Chow Yun Fat.

Imperdível!

"O trio no meio do inferno final"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 9

Argumento - 8

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,25






domingo, junho 15, 2008

The Killer/Dip huet seung hung - 喋血双雄 (1989)

Origem: Hong Kong

Duração: 111 minutos

Realizador: John Woo

Com: Chow Yun Fat, Danny Lee, Sally Yeh, Kenneth Tsang, Shing Fui On, Paul Chu, Tommy Wong, Parkman Wong, Dion Lam, Barry Wong

"Eagle, Ah Jong e Jenny"

Sinopse

“Ah Jong” (Chow Yun Fat) é um renomado assassino a soldo, que segue um código de honra e ética bastante estrito, acreditando que todas as pessoas a que põe termo à vida, merecem efectivamente morrer. Um dia, a meio de um trabalho, fere acidentalmente uma cantora de um bar chamada “Jenny” (Sally Yeh), deixando-a quase invisual.

Assomado pelo sentimento de culpa, “Ah Jong” aproxima-se de “Jenny” e tenta ajudar a curar a sua enfermidade. A única forma de a rapariga voltar a ver como antes é fazer um transplante das córneas, uma operação extremamente cara, e que eventualmente terá de ser feita no estrangeiro. Em decorrência desta situação, “Ah Jong” decide aceitar um último trabalho, de forma a poder pagar a cirurgia.

"Eagle e Ah Jong preparam-se para a batalha final, sob o desespero de Jenny"

“Eagle” (Danny Lee), um polícia que não segue as regras do jogo, começa a investigar os homicídios cometidos por “Ah Jong”, concluindo que está perante um assassino pouco convencional, que ajuda os desprotegidos e possui um grande coração. “Ah Jong” consegue ser bem sucedido no seu último contrato, eliminando o alvo. Contudo, “Weng Hoi” (Shing Fui Hon), o líder da tríade que encomendou o trabalho, decide não pagar ao assassino e pelo contrário, tenta eliminá-lo.

Como é previsível, não existirá diálogo e a violência sem tréguas é que irá ditar a lei! Num combate de vida ou de morte, “Ah Jong” poderá apenas socorrer-se do amor que sente por “Jenny” e da ajuda inesperada de “Eagle”.

"Debaixo de um fogo cerrado"

"Review"

“Ele parece determinado...sem ser impiedoso ou cruel; existe algo de heróico na sua forma de agir; definitivamente em nenhum momento parece ser um assassino; aproxima-se das pessoas de uma forma calma; age como se tivesse um sonho; os seus olhos estão cheios de paixão.” Numa tradução livre, da qual assumo toda a responsabilidade pelas prováveis imprecisões, este excerto retirado de “The Killer” refere-se a uma descrição que o polícia “Eagle” faz em relação ao assassino “Ah Jong”. Acho que ninguém o diria melhor, pois o grande actor de Hong Kong, o sublime Chow Yun Fat, consegue representar como quase ninguém, as personagens emblemáticas dos filmes estilo “heroic bloodshed” (sugestivamente também conhecido com “Gun Fu”) de John Woo. Este “The Killer” assume no género um papel relevantíssimo, ao lado de “A Better Tommorow” e “Hard Boiled”, emparelhando com estas películas no que podemos indiscutivelmente considerar dos melhores produtos de sempre da cinematografia da actual região administrativa chinesa. Mas vamos por partes.

Num registo para muitos inspirado em “Magnificent Obsession”, de Douglas Sirk e “Le Samourai”, de Jean-Pierre Melville, a importância de “The Killer” no panorama cinematográfico mundial e na subsequente “ascensão” de John Woo rumo aos EUA é inquestionável. O conceito do assassino de bom coração e com uma ética um tanto ou quanto inesperada, foi seguida com sucesso por filmes posteriores, dos quais eu elegeria como expoente máximo, o excelente “León, o Profissional” de Luc Besson.

A rodagem de “The Killer”, à semelhança do que acontece com a maior parte das películas, não foi isenta de atribulações. Não resisto a contar algumas. A primeira passa pelo facto de o actor Chow Yun Fat odiar qualquer tipo de violência, ao contrário do que muitos dos filmes que protagoniza possam fazer transparecer. A cena em que “Ah Jong” impede um bando de delinquentes de assaltar “Jenny” foi especialmente penosa para Yun Fat. John Woo pacientemente mentalizou o actor, e fez um trabalho tão bom, que Yun Fat exagerou nos murros e pontapés o que causou algumas danos e queixas dos duplos. O realismo é que ficou a ganhar. Outra curiosidade passa pelo facto de uma cena de tiroteios e perseguição ter causado a sensação nos meliantes que não estavam avisados, de que efectivamente estava a decorrer um assalto. Podemos imaginar o pânico que se sucedeu na rua onde a filmagem estava a ser efectuada. Por fim, um apontamento relativo à atribulada relação entre John Woo e o produtor (e também realizador) Tsui Hark. Este último ficou bastante infeliz com o resultado final do filme, e queria reeditá-lo completamente, centrando a trama no polícia “Eagle”, retirando bastante protagonismo ao assassino “Ah Jong”. Woo não permitiu que tal sucedesse, e a estreia mundial aprazada para Taiwan, constituiu um sucesso sem precedentes. Segundo rezam as más-línguas, o facto de se ter provado que Hark não tinha nenhuma razão quanto ao rumo que a longa-metragem haveria de levar, fez com que o produtor-realizador atirasse uma série de objectos pela janela do seu escritório.

"Tiroteio na igreja"

“The Killer” não foge praticamente a nenhuma das premissas que caracterizam o subgénero “heroic bloodshed”, identificando muito bem os caminhos de onde veio e os rumos que posteriormente pretende seguir. Explora os trilhos da amizade, da honra, o dever e a redenção, tendo por suporte a violência extrema aliada a cenas emblemáticas com toneladas de estilo. O assassino, apesar de enfrentar situações de desvantagem numérica, consegue sempre vencer os diabólicos duelos de armas em que está envolvido, sendo-lhe permitido apenas descansar quando corrige o que está errado. Estamos pois a falar de uma longa-metragem cuja acção é uma constante, sendo apenas interrompida ou conjugada, com cenas que frequentemente recorrem a um melodrama exagerado, mas sem dúvida, bastante apreciado! É uma marca a que “The Killer” inevitavelmente não pode nem quer fugir!

Escrever acerca de “The Killer”, é forçosamente dissertar um pouco acerca dos tiroteios que parecem ser...bem...um VERDADEIRO INFERNO NA TERRA! A energia com que os oponentes se digladiam, numa orgia de fogo e sangue que resulta em dezenas de mortes, prende-nos constantemente a atenção, fazendo com que a película possua um grande entretenimento. Se o filme fosse actualmente a realidade, as morgues de Hong Kong seriam atestadas com cerca de 120 corpos (o número de gente abatida em “The Killer”)!!! Uma afirmação um pouco mórbida e já agora uma verdadeira tragédia! Os litigantes combatem verdadeiramente como guerreiros de outros tempos, substituindo as espadas pelas mais sofisticas armas actuais. Não há preocupação pela estratégia, não existem cuidados nenhuns com a integridade física própria ou de terceiros, o que interessa é matar, matar, matar!!! E em decorrência disto amigos, aqui não há essas “mariquices” de atirar e fugir. O inimigo enfrenta-se olhos nos olhos, com um sorriso ou um esgar de raiva, e apenas o que interessa é oferecer um bilhete só de ida para um sítio chamado “sete palmos abaixo da terra”! Talvez por isto se explique como por vezes este segmento cinematográfico é apelidado de “Gun Fu”. É extremamente complicado, para não dizer impossível, igualar Woo quando está em causa o debitar de milhares de balas, a acção frenética e toda aquela aura de fatalismo e bravura que rodeia estas cenas. De todas as películas que visionei até hoje, julgo que apenas “Desperado”, de Robert Rodriguez, poderá almejar a alguma comparação.

Os actores oferecem-nos representações de relevar, o que assume ainda mais importância num género que não carece de interpretações de antologia, e numa altura em que o mais importante era produzir espectacularidade visual. Chow Yun Fat, como acima foi abordado, é um actor de eleição, que nos consegue transmitir todo o conflito interior e paixão de “Ah Jong”. O que impressiona mais, é que muitas vezes este objectivo é cumprido com um simples olhar, provando que Yun Fat foi uma escolha extremamente feliz e com uma grande quota de responsabilidade nos sucessos dos filmes de Woo. Danny Lee impõe-se no papel do polícia “Eagle”, fazendo uma dupla de respeito com Yun Fat. Sally Yeh, uma cantora e actriz que teve os seus tempos de glória nos anos '80, não destoa na composição do triângulo, mas está claramente uns furos abaixo dos outros vértices. Merece uma palavra especial o veterano Paul Chu, na representação do trágico “Fung”, um assassino reformado e amigo de “Ah Jong”.

John Woo impõe um cunho bastante pessoal nas suas obras e isso denota-se em certas marcas que já detêm, quanto a mim, direitos de autor. E são muitas mesmo! Em “The Killer”, temos a oportunidade de ver uma panóplia de aspectos que ligamos logo ao realizador. Os tiroteios, no sentido já anteriormente abordado; o facto de os seus heróis, no auge da luta, combaterem sempre com duas pistolas, uma em cada mão; o frente-a-frente dos inimigos com armas praticamente encostadas ao corpo um do outro; o reflexo numa superfície espelhada de alguém a se aproximar; o explorar do religioso, com muitos interiores de igrejas, e do profano com a destruição de ícones no calor da luta. Mas acima de tudo são as pombas! Se, e como cantava Marilyn Monroe em “Os Homens Preferem as Loiras”, os diamantes são os melhores amigos das mulheres, com certeza que as pombas serão o maior alvo de admiração de Woo. Não existe nenhum filme que eu tenha visto deste realizador, em que os simpáticos animais não deixem de marcar a sua presença. Em “The Killer”, embora não exista uma empatia entre o herói e os bichos, sempre se dirá que o papel destes se afigura mais místico. Eles são encarados, segundo as crenças pessoais de Woo, como mensageiros de Deus que guiam as almas dos mortos até aos céus. Uma ideia semelhante existe na mitologia Viking no que respeita às Valquírias, que estavam encarregues de carregar as almas dos guerreiros tombados em combate, até Valhalla.

“The Killer” é um filme feito com corpo e alma, cuja dimensão superior faz com que mereça justamente constar no panteão das grandes obras de sempre da história do cinema asiático. Um triunfo, entre alguns, do rei dos tiroteios infernais, o inimitável John Woo! Imperdível!!!

"Eagle enfrenta a tríade"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cinedie Asia

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 10

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,50





sábado, maio 12, 2007

Memórias de Uma Gueixa/Memoirs of a Geisha/Sayuri (2005)

Origem: E.U.A.

Duração: 139 minutos

Realizador: Rob Marshall

Com: Zhang Ziyi, Gong Li, Michelle Yeoh, Ken Watanabe, Suzuka Ohgo, Kôji Yakusho, Youki Kudoh, Kaori Momoi, Tsai Chin, Zoe Weizenbaum, Cary Hiroyuki Tagawa, Kenneth Tsang, Randall Duk Kim, Ted Levine

"A jovem Chiyo"

Estória

Em 1929, “Chiyo Sakamoto” (Suzuka Ohgo), com apenas nove anos, e a sua irmã “Satsu”, são vendidas pela sua pobre família rural, sendo posteriormente separadas e colocadas em “Okyia” (casa de alojamento de uma Gueixa) diferentes.

A nova casa de “Chiyo” é pertença da “Sra. Nitta” (Kaori Momoi), mais conhecida por “Mãe”, e nela vivem a famosa e vil gueixa “Hatsumomo” (Gong Li), a idosa irmã da “Sra. Nitta”, conhecida por “Tia” (Tsai Chin) e outra jovem rapariga chamada “Pumpkin” (Zoe Weizenbaum).

“Chiyo”, ainda muito jovem, começa a chamar a atenção devido à sua beleza e raros olhos de cor azul - acinzentada, iniciando o seu treino de gueixa. No entanto, sofre pesadas provações durante este estágio, provocadas sobretudo pela cruel “Hatsumomo”, chegando o treino a ser interrompido, devido a uma tentativa de fuga de “Chiyo”.

"Sayuri"

Um dia, a criança encontra-se a chorar amargurada numa ponte, e é abordada por um homem, conhecido como “Administrador” (Ken Watanabe) que revela uma extrema bondade, comprando-lhe um gelado, para além de lhe oferecer dinheiro e a aconselhar. “Chiyo”, apesar de ser muito nova, instantaneamente apaixona-se e toma a firme resolução de fazer tudo para se tornar numa gueixa, de forma a atrair o seu amor.

Os anos passam, “Chiyo” tem 15 anos (Zhang Ziyi), o seu treino de gueixa nunca mais foi retomado, e “Hatsumomo” continua a infernizar-lhe a vida. Um dia porém, “Mameha” (Michelle Yeoh), a mais conhecida gueixa do burgo, propõe à “Sra. Nitta” tomar “Chiyo” a seu cargo e ensiná-la nas artes da profissão. A rapariga muda então o seu nome para “Sayuri” (em português “Lírio”), e com o decorrer do tempo torna-se extremamente bem sucedida, tornando-se a gueixa mais conhecida do Japão.

Apesar de uma gueixa estar proibida de amar, “Sayuri” nunca esqueceu o “Administrador”, e nem toda a notoriedade que consegue, fazem-na tirar da cabeça a sua verdadeira paixão.

"Sayuri, Mameha e Hatsumomo"

"Review"

Baseado no romance homónimo de Arthur Golden, e dirigido pelo realizador Rob Marshall (“Chicago”), “Memórias de Uma Gueixa” foi um filme envolto em certa polémica, sobretudo devido à escolha dos actores, ou melhor dizendo, das actrizes que despontam nos papéis principais.

Para quem não sabe, Zhang Ziyi e Gong Li são oriundas da China, e Michelle Yeoh da Malásia. Como o enredo decorre inteiramente no Japão, e é centrado numa profissão típica deste país, seria porventura de esperar que fossem recrutadas actrizes do reino nipónico para o desempenho de “Sayuri”, “Hatsumomo” e “Mameha”. Ora isto não aconteceu, e considerando que o pretendido foi dar vida a uma película de âmbito verdadeiramente internacional, para além de termos em consideração que os capitais para a feitura do filme foram oriundos de empresas como a Columbia Pictures, a Dreamworks e a Spyglass Entertainment, a produção esteve a cargo da Amblin de Steven Spielberg, e o realizador é estado-unidense (prefiro esta designação em detrimento da de norte-americano, por considerar mais adequada e não ofensiva para os canadianos), lógico seria que se procurassem as actrizes asiáticas com maior projecção mundial. Julgo ser relativamente consensual a ideia que coloca no topo, a nível de fama, Zhang Ziyi, Gong Li e Michelle Yeoh. Não existe nenhuma actriz japonesa cujo nome sequer se aproxime da notoriedade destas três divas do cinema asiático. E a verdade é essa, e nada mais!

Ao contrário do que se estaria à espera, o celeuma ocorreu primeiro na República Popular da China, que praticamente não aceitou que porventura os seus dois maiores nomes cinematográficos, na esfera feminina, desempenhassem o papel de prostitutas de um país invasor (lembro que o Japão ocupou a China antes e durante a II Guerra Mundial). Neste aspecto a república comunista não foi de meias medidas, e chegou mesmo a proibir a exibição do filme no seu território. Por outra via, o sentimento nacionalista despontou em grande medida no Japão, o que apenas foi mitigado pelo facto desta longa-metragem ter muitos actores japoneses, incluindo o principal protagonista masculino (Ken Watanabe, de “O Último Samurai” e “Cartas de Iwo Jima”).

"A bela dança de Sayuri"

Se me é permitida uma opinião pessoal (afinal vivemos numa democracia e o blogue é meu!!!), julgo esta questão de uma menoridade gritante. Claro que se fizessem um filme que versasse sobre um aspecto particular da cultura portuguesa, eu teria uma preferência natural por um actor nosso conterrâneo. Já agora que falamos disso, eu não fiquei lá muito contente que a personagem de Salgueiro Maia, no filme “Capitães de Abril”, tivesse sido interpretada pelo actor italiano Stefano Accorsi. Mas obviamente que isto não é motivo para fazer “cair o Carmo e a Trindade”, e serem adoptadas atitudes vestidas de radicalismos que caíram (ou deveriam ter caído) em desuso. Mas daí…passemos à frente!

Á partida, a qualquer cultor do cinema asiático, causa uma certa estranheza ver actores e actrizes que estamos habituados a ver expressarem-se no seu idioma, falarem inglês praticamente o filme todo. O resultado é muito fácil de prever. Os diálogos são todos muito pausados e cuidados, fazendo-nos aperceber que Zhang Ziyi e Gong Li não dominam na perfeição a língua. Isto faz com que a naturalidade das falas se disperse um pouco, e o drama perca de certa forma com este aspecto.

No entanto, a representação no que concerne aos demais itens, não chega a ser mortalmente afectada com os aspectos linguísticos, pois estamos a falar de actores com bastantes provas dadas, constituindo alguns o que de melhor o cinema asiático possui. Zhang Ziyi e Michelle Yeoh, embora já tivessem registos melhores, oferecem-nos um trabalho competente que, no que toca a Ziyi, tem o seu expoente máximo na fabulosa dança e representação que faz no teatro perante uma grande plateia. O facto da actriz ter um passado ligado à dança, abona imenso a seu favor nas partes mais físicas das actuações. Pense-se nas grandes heroínas de artes marciais que Ziyi interpretou, ou na fabulosa dança dos tambores de “O Segredo dos Punhais Voadores”. Sendo um filme de certa forma mais virado para o público feminino, é normal que as actrizes tenham uma evidente primazia a nível da intervenção na trama. Mesmo assim, o protagonista masculino Ken Watanabe, encontra-se num nível bastante aceitável, consagrando-se como um dos actores asiáticos com mais cartaz internacional (desde “O Último Samurai, de Edward Zwick isto é evidente). Pensavam que eu não ia falar de Gong Li?! Longe de mim cometer tal pecado mortal! Deixei-a propositadamente para o fim, pois é sem margem para dúvidas, quem consegue o melhor desempenho. Representar o vilão do filme costuma ser um papel não amiúde tão ou mais difícil do que os restantes. Aqui Li encarna na quase perfeição a vilã trágica “Hatsumomo”, personagem venenosa, intriguista e invejosa, mas no entanto longe de ser fria, tendo as emoções “à flor da pele”. A actriz tem uma característica única que muitas vezes lhe confere vantagem em relação às demais. Li, quando representa, usa o corpo todo. Mexe-se tanto com graciosidade, como é capaz de fazer os gestos mais abruptos e ríspidos possíveis. Debita as suas falas como um verdadeiro camaleão, mas acima de tudo, e aqui é que está o grande trunfo da actriz, acompanha-as com umas expressões faciais e olhares de “de outro mundo”. Sei que poderei estar a ser um pouco temerário na afirmação que irei fazer, mas não me lembro de nenhum intérprete com a capacidade de Li neste aspecto.

A fotografia é um verdadeiro sonho, embora não adquira uma permanente constância ao longo do filme. A banda-sonora é baseada essencialmente em músicas oriundas do país do sol nascente, com uma ou outra excepção, tendo bons momentos que acentuam o pendor dramático desta longa-metragem. O guarda-roupa foi escolhido minuciosamente, e as roupas que as gueixas usam (o furisode e o okobo) de regalar os olhos.

“Memórias de Uma Gueixa” é um filme dotado de interesse, que vale sobretudo pelo seu pendor educativo. Nele aprendemos que, ao contrário do que é pensado por esse mundo fora, as gueixas não eram prostitutas, mas sim acompanhantes que são educadas na arte da música, do servir e conversar. Aliás era-lhes completamente vedado ter sexo com os seus clientes.

No entanto, o filme não consegue fugir ao estigma de ser realizado e produzido por entidades ligadas a “Hollywood”, o que lhe retira alguma autenticidade. Isto reflecte-se em algumas cenas do filme, que possuem um cunho marcadamente “hollywoodesco”. Pergunto agora se o mestre Kurosawa, ou outro competente realizador japonês, tivesse ao seu alcance os meios de Rob Marshall em “Memórias de Uma Gueixa”, que película não teria sido obtida?

"O Administrador e Sayuri"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cine-Ásia, Cinerama, Cinema Cafri

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 7

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,75