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segunda-feira, maio 31, 2010

Peking Opera Blues/Do ma daan – 刀馬旦 (1986)

Capa

Origem: Hong Kong

Duração aproximada: 104 minutos

Realizador: Tsui Hark

Com: Brigitte Lin, Cherie Chung, Sally Yeh, Kenneth Tsang, Wu Ma, Paul Chun, Mark Cheng

Ling e Cao Wan

“Ling e Cao Yan”

Sinopse

Em 1913, o general Yuan Shikai tomou o poder após a queda da monarquia ilustrada na dinastia Qin. Yuan precisa de uma grande quantidade de dinheiro proveniente dos governos europeus para se manter no poder, e o general “Cao” (Kenneth Tsang) ajuda-o a tomar providências para segurar os empréstimos. Contudo, a filha de “Cao”, “Cao Yan” (Brigitte Lin) está aliada aos rebeldes que se opõem à ditadura militar, e conspira para furtar ao pai os documentos que comprovam o negócio com as potências ocidentais.

Sheung Hung

“Bai Niu”

Durante o seu plano para sonegar ao pai os acordos que titulam os empréstimos, “Cao” inesperadamente conhece duas mulheres. Uma é “Bai Niu” (Sally Yeh), a filha de “Wong” (Wu Ma), que dirige uma companhia de ópera chinesa, onde só são admitidos homens em respeito pela tradição. “Bai” não se conforma com este costume, pois ela adora representar e adoraria ser uma actriz profissional. A outra companheira que não estava nos planos é “Hong” (Cherie Chung), uma fura-vidas que se embrenha na companhia de ópera, de maneira a recuperar uma caixa cheia de jóias de grande valor. As três mulheres envolvem-se ainda mais na intriga política, quando travam conhecimento com o espião “Ling” (Mark Cheng), e todos juntos travam uma luta para evitar que o regime corrupto que domina a China leve a sua avante.

Hong

Hong”

Review”

Quando existem referências às grandes obras produzidas pelo cinema de Hong Kong, e foram muitas, em quase todas aparecerá inapelavelmente “Peking Opera Blues”, considerado um dos expoentes máximos do conhecidíssimo Tsui Hark. Efectivamente, um dos pontos fortes desta película passa pela grande e feliz mistura de géneros, que o realizador de origem vietnamita conseguiu urdir. O filme encontra-se imbuído de referências históricas de um período importante e delicado da história chinesa, assim como passeia pelos caminhos da intriga política, do drama, do romance, deambulando ainda pela comédia e uma dose apreciável de acção.

Efectivamente, o período onde decorre a trama de “Peking Opera Blues” é deveras interessante para aqueles que se interessam e apreciam a componente da ciência histórica na sétima arte. Como já foi aflorado na sinopse, a China vivia uma altura onde a monarquia milenar tinha tombado há poucos anos, e o general Yuan Shikai tinha tomado o poder, governando como o primeiro Presidente da República. A questão é que Shikai enveredou por uma orientação autocrática, tendo a certa altura tentado reviver o império chinês, onde chegou a declarar-se imperador. Esta atitude revelou ser potenciadora de rebeliões, um pouco por todo o Império do Meio, onde se revelou nesta altura o conhecido Sun Yat Sen. É pois nesta época conturbada, retratada por Tsui Hark com algum rigor e espectacularidade, que decorre a acção desta longa-metragem.

As 3 amigas

As 3 aventureiras”

Feito o pequeno enquadramento histórico, o pano de fundo da trama decorre essencialmente na ópera chinesa, onde é denotada uma abordagem muito interessante, como momentos muito apreciáveis. Mas onde existe um “glamour” muito próprio e associado a esta arte, igualmente há lugar para a paródia. Os homens por vezes parecem muito efeminados (relembramos que às mulheres naquela altura não era permitido representar) assim como por sua vez as raparigas têm de se fazer passar por homens, de forma a que lhes seja dada a oportunidade de actuar num palco. A acção, a cargo do quase insuspeito Ching Siu Tung, tem momentos verdadeiramente espectaculares, quer a nível do domínio das artes marciais, como dos duelos com armas de fogo. O entretenimento, com margem para dúvidas mínimas está bem conseguido. Por sua vez, a caracterização da época e das personagens, constitui um dos pontos fortes de “Peking Opera Blues”. Tudo cuidado, com muito atenção aos pormenores e um guarda-roupa portentoso, em especial as vestes dos intérpretes da ópera chinesa.

Os actores exibem-se no plano que lhes é exigido e pouco mais. No entanto, e não obstante ser conhecida a minha admiração pessoal pela actriz, a verdade é que Brigitte Lin mais uma vez marca a sua presença e destaca-se dos restantes intervenientes. A versátil actriz de Hong Kong, que muitos clamam pelo seu regresso, confere uma personalidade muito própria a “Cao Yan”, a filha rebelde do general, e ainda tem tempo para dar um ar da sua graça no que mais a celebrizou nos filmes, ou seja, a exibição de artes marciais.

Apesar de não concordar com aqueles que colocam “Peking Opera Blues” como uma das melhores películas de sempre do espectro de Hong Kong, forçosamente terá de ser admitido que estamos perante uma longa-metragem com uma qualidade acima da média e que terá de constar na galeria dos filmes notáveis da região administrativa chinesa, nem que seja pela sua importância histórica. A sua miscigenação feliz de predicados assim o exige, e nós na qualidade de fãs, nada temos a opor.

A conferir!

Ópera chinesa

Fabulosa caracterização na ópera chinesa”

imdb 7.6 em 10 (969 votos) em 31/05/2010

Avaliação:

Entretenimento – 8

Interpretação – 7

Argumento – 7

Banda-sonora – 7

Guarda-roupa e adereços – 9

Emotividade – 8

Mérito artístico – 8

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 7

Classificação final: 7,63

 

domingo, novembro 22, 2009

Chungking Express/Chung Hing sam lam - 重庆森林 (1994)

Capa

Origem: Hong Kong

Duração aproximada: 102 minutos

Realizador: Wong Kar Wai

Com: Tony Leung Chiu Wai, Faye Wong, Takeshi Kaneshiro, Brigitte Lin, Valerie Chow, Chen Jinquan, Guan Lina, Huang Zhiming, Zhen Liang, Zuo Songshen, Lynne Langdon

A mulher da peruca loira 2

“A misteriosa mulher da peruca loira”

Sinopse

“He Zhiwu” (Takeshi Kaneshiro) é um polícia que vive um desgosto amoroso, considerando que a sua paixão “May” o abandonou. O seu sofrimento leva-o a desenvolver uma estranha obsessão por datas de validade, que exterioriza alimentando-se de ananás enlatado cuja expiração ocorre no dia 1 de Maio. Chegado à data em questão, “He Zhiwu” promete a si próprio que se irá apaixonar pela primeira mulher que encontrar num bar. Depara-se com uma estranha personagem, de óculos escuros e cabeleira loira (Brigitte Lin), que irá, por momentos, conferir-lhe uma nova perspectiva de vida.

He Zhiwu e a mullher da peruca loira 2

He Zhiwu e a sua estranha paixão”

O “polícia 663” (Tony Leung Chiu Wai) igualmente anda com os seus problemas de ordem romântica. A sua namorada, uma hospedeira do ar (Valerie Chow), deixou-o e o sentimento de solidão começa a destruí-lo por dentro. No entanto, o polícia é amado sem saber por “Faye” (Faye Wong), uma empregada de um estabelecimento de comida rápida chamado “Midnight Express”. Incapaz de demonstrar directamente o seu amor, “Faye” entra na vida do “polícia 663” de uma forma original.

Faye

Faye dança ao som de Califonia Dreamin´”

“Review”

“Se a minha memória dela tiver um prazo de validade, que seja de dez mil anos...”. É com esta “tagline” que “Chungking Express” se apresenta ao espectador, estando criado o mote para um dos filmes mais fascinantes acerca de uma temática que julgo ser cara a qualquer ser humano, o amor. Dez mil anos em muitas culturas é um número que reflecte o conceito de “para sempre”. Isto para dizer que a frase que ilustrou inicialmente o debutar do filme que ora se propõe analisar um pouco, visa no fundo evidenciar o conceito de memórias de paixão que se pretendem ver eternizadas. Mesmo que as mesmas sejam dolorosas. Wong Kar Wai rodaria “Chungking Express” no mesmo ano em que daria a vida a outra película de eleição. Falo de “Ashes of Time”, a única incursão do realizador no “wuxia”. Aliás, “Chungking Express” seria o produto do descanso do realizador de Hong Kong, quando o mesmo recuperava da grande exigência e esforço despendido no seu épico de artes marciais. A feitura da película foi num tempo recorde, mais ou menos três meses, e o resultado redundou num desafogo financeiro, principalmente depois de “Ashes of Time” não ter sido bem aceite pelo público em geral.

Tendencialmente enquadrado em algo que nos faz lembrar “pop art”, Kar Wai propõe-se a nos apresentar uma história de paixão e emoções, onde os intervenientes são pessoas na casa dos vinte e muitos anos e que tem por pano de fundo uma Hong Kong no limiar da transição para a soberania chinesa. A ânsia em viver as emoções ao máximo, parece se coadunar com uma miríade de situações. Desde o estabelecimento de um qualquer prazo para a duração de uma relação intensa, ou evidenciar uma crítica política subtil no sentido de a entrega do território à China ser uma eventual expiração da validade das liberdades individuais, incluindo a de experienciar o amor ao máximo. Salvo melhor opinião, sempre considerei “Chungking Express” como a obra que estabeleceu definitivamente Kar Wai como uma certeza e um autor de eleição. Ou sendo um pouco mais lírico, como o poeta do amor, do romance, do sonho, das cores e das emoções. À semelhança de praticamente todas as obras do autor, a natureza individual do ser humano e a sua interacção sentimental constitui o cerne da trama. As personagens principais do filme vivem um rodopio na maneira como lidam com o sentimento de perda, que parece por vezes estranha, para não dizer alienada, mas que causa um certo sentido de familiaridade. E neste aspecto, Kar Wai acerta no alvo em cheio. Não pretendendo, como aliás também é seu timbre, manter um ritmo coerente no argumento, o objectivo é fazer com que o espectador encontre, por si só, algo muito íntimo e com o qual se consiga identificar.

Como seria de esperar, ou não estivéssemos a falar de um filme de Kar Wai, “Chungking Express” rebenta a escala em estilo. O uso das cores e da fotografia é algo quase impossível de descrever em palavras, e julga-se que é daquelas coisas que só vendo para acreditar. O uso da técnica de filmagem, ora em acelerações de imagem, ou num costumeiro “slow motion”, confere uma apreciável dinâmica que se interliga de uma forma bastante feliz com os demais aspectos da película. O apresentar intencional de imagens enevoadas, ou a filmagem no meio do bulício de Hong Kong, onde muitos dos transeuntes não fazem a mínima ideia de que uma película está a ser rodada, faz com que a aura mágica se interpenetre com a realidade quotidiana, num resultado muito satisfatório, diferente mas muito envolvente. A nível da trama, existe alguma descompensação, porquanto o segmento Tony Leung Chiu Wai/Faye Wong é mais longo, perceptível e regra geral melhor que o de Takeshi Kaneshiro/Brigitte Lin, embora se possa reconhecer que este último talvez esteja dotado de mais profundidade.

Beijo

Um beijo ardente”

A fenomenal banda-sonora merece aqui um pequeno parágrafo. Entre alguma música étnica e “reggae” de entretenimento auditivo bastante apreciável, somos presenteados com uma versão cantonesa de “Dreams” dos “The Cranberries” que resulta muito bem, e se enquadra às mil maravilhas no ambiente geral do filme. Mas os momentos verdadeiramente divinais, e não apenas por ser uma preferência pessoal, é a saturação de “California Dreamin'”, dos Mamas and Papas. São inesquecíveis os momentos em que Faye Wong dança no “Midnight Express”, embrenhada no seu mundo bastante pessoal. O inesquecível êxito dos anos 60, que pontificou em muitas películas por esse mundo fora, confere grandiosidade e faz Faye Wong ainda brilhar mais.

Os actores exibem-se num plano muito elevado, ou não estivéssemos a lidar com um “cast” extremamente forte. Pessoalmente, aprecio imenso a forma como Kar Wai dirige os intérpretes dos seus filmes, retirando o que de melhor têm para dar. E embora aprecie imenso as actuações nesta obra de Tony Leung Chiu Wai, Takeshi Kaneshiro, Brigitte Lin e Valerie Chow, há que reconhecer que Faye Wong está absolutamente divinal. A actriz exibe uma personagem alienada, que nas suas próprias palavras, ouve música em volume alto, pois assim inibe-se de pensar. Wong passeia classe pela tela e deixa-nos siderados com o seu sonho íntimo, as suas actuações aparentemente incompreensíveis e a maneira como se intromete na tortura pessoal de Tony Leung Chiu Wai, é algo digno de se ver. E por vezes questiono-me como é que Faye Wong, que já demonstrou ter grandes capacidades como actriz, não entrou na esfera das super-estrelas, à semelhança de uma Maggie Cheung ou de uma Gong Li?

Destilando sensualidade por todos os poros e com um manancial de frases emblemáticas inesquecíveis, “Chungking Express” mantém-se até hoje como uma das maiores obras do realizador Wong Kar Wai e um verdadeiro marco do cinema mundial. Há quem considere mesmo que se estará presente perante o produto mais forte que, até hoje, Kar Wai deu vida. Eu não concordo, mas percebo bem as válidas razões de quem produz tal afirmação. Sendo um maravilhoso exemplo “new wave”, explora efectivamente os meandros dos corações desolados e de uma certa alienação e depressividade urbana. É certo que as poucas cenas de acção parecem algo atabalhoadas, mas é preciso interiorizar que o objectivo deste filme não é expôr qualquer trama criminosa, ou enveredar pelo diapasão de movimento exagerado. “Chungking Express” é um romance com cariz muito pessoal, e o seu maior trunfo será sempre a exposição de várias perspectivas do amor , e a percepção directa da sua magia. Já agora, e como é discernido do filme, será que fazer demasiado exercício, como “jogging”, faz-nos desidratar tanto, que não restam lágrimas para derramar?

Imperdível para qualquer fã de cinema e da beleza!

O polícia 663 e a hospedeira

O polícia 663 e a hospedeira”

imdb Nota 8.0 (15.154 votos) em 22/11/2009

 

Outras críticas em português:

  1. Additional Camera
  2. Sítio da Bela Lua

Avaliação:

Entretenimento – 7

Interpretação – 9

Argumento – 8

Banda-sonora – 10

Guarda-roupa e adereços – 8

Emotividade – 9

Mérito artístico – 9

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 8

Classificação final: 8,50

quarta-feira, junho 24, 2009

Ashes of Time Redux (2008)

Origem: Hong Kong

Duração: 93 minutos

Realizador: Wong Kar Wai

Com: Brigitte Lin, Leslie Cheung, Maggie Cheung, Tony Leung Chiu Wai, Jacky Cheung, Tony Leung Ka Fai, Li Bai, Carina Lau, Charlie Yeung

"Ouyang Feng e Hung Chi"

Introdução

Como deve ser do conhecimento de muitos que visitam este espaço, “Ashes of Time Redux” não difere muito do original “Ashes of Time”, tratando-se de uma versão melhorada em termos de imagem e outros aspectos relacionados com a produção. É certo que existem alguma subtracções e adições feitas por “Redux”, que darei conta abaixo. Mesmo assim, embora algumas sejam importantes, decidi não elaborar um texto feito à imagem do normal no “My Asian Movies”. Sendo assim, a sinopse infra é a mesma que consta no artigo que elaborei acerca de “Ashes of Time” há três anos atrás. Na “review”, abordarei sobretudo e de uma forma sumária, as diferenças entre ambas as versões, tentando emitir a minha opinião pessoal. Optei igualmente desta vez, por não atribuir a costumeira pontuação, pois entendo que, também neste particular, não deveria fazer uma autonomização das duas obras, sob pena de desvirtuar o pensamento de Wong Kar Wai. A crítica original encontra-se AQUI.

"Huang Yaoshi Aka Evil East"

Sinopse

"Ouyang Feng" (Leslie Cheung), também conhecido sob a alcunha de "Malicious West", é um proprietário de uma taberna situada no meio do deserto. Trata-se de um homem morto emocionalmente, devido ao casamento do seu irmão mais velho com a mulher que ama (Maggie Cheung). Vive do seu negócio e da contratação de espadachins necessitados de dinheiro, tendo em vista a perpetração de assassinatos por encomenda. Estranhas pessoas chegam à taberna, cada qual com a sua história que normalmente converge para a tragédia pessoal. Podemos acompanhar "Huang Yaoshi" (Tony Leung Ka Fai), cujo nome de batalha é "Evil East", um dotado homem da espada, cuja atitude cavalheiresca perante o mundo, a vida e o amor, deixaram-lhe um rasto de remorso e recriminação.

“Murong Yang” (Brigitte Lin), por seu lado, é um jovem em busca de vingança sobre “Evil East”, por este ter abandonado a sua irmã “Murong Yin”. Esta, por sua vez, deseja a morte do irmão, por este andar a tentar matar a sua paixão “Evil East”. “Yin” e “Yang” acabam por revelar serem a mesma pessoa, completamente destroçada pela rejeição de “Evil East” e incapaz de encontrar um caminho para a paz interior. Problemas trágicos são demonstrados por outros elementos da história, desde o espadachim cego (Tony Leung Chiu Wai) que é contratado para liquidar um bando de salteadores e cujo último desejo antes de falecer e ver o desabrochar das flores de cerejeira (em sentido figurado, pois tal serve para designar a esposa) na sua terra-natal, passando pelo assassino de bom coração “Hung Chi” (Jacky Cheung) que não gosta de usar sandálias, acabando na jovem e pobre rapariga camponesa (Charlie Yeung) que tenta comprar vingança com um cesto de ovos e uma mula.


"O espadachim cego"

"Review"

Precisamente 14 anos depois, o mestre Wong Kar Wai decidia dar um novo corpo ao seu único registo do “Wuxia”, e pessoalmente o meu filme predilecto do valioso espólio cinematográfico do realizador. Desde já se aplaude esta revisita, pelo restauro com a qualidade que esta magnífica obra merece. Como já tinha aludido no meu texto de 2006, e passo a citar “é francamente uma enorme injustiça não existir no mercado uma edição em DVD decente à disposição do público. As existentes são de má qualidade, e tornam-se um verdadeiro crime quando estamos perante uma obra desta envergadura.” Com “Ashes of Time Redux”, o problema fica resolvido, pois com a ajuda do insuspeito Christopher Doyle temos agora à disposição uma edição em condições de ser visionada e admirada. Contudo, existem outros aspectos igualmente importantes, que julgo não terem tomado a direcção correcta.

A principal crítica dirige-se aos cortes que o filme levou, dos quais eu nunca vou perdoar a remoção do grito de sofrimento dado por Brigitte Lin na famosa cena do lago, acompanhado pela música emblemática que associávamos sempre a “Ashes of Time”. Aliás, esta melodia, tal como a conhecíamos, foi removida de vez em “Redux”, notando-se contudo alguma da sua influência nos novos arranjos musicais. Existem outras retiradas e adições, tais como as duas primeiras cenas de luta, pelo que a primeira vez que nos deparamos com os salteadores é o único combate em que está envolvido “Ouyang Feng”, a personagem interpretada por Leslie Cheung. Aproveitando para me referir às cenas mais movimentadas, em “Redux” as lutas são mais perceptíveis, embora neste particular continue a imperar alguma confusão desenfreada. É definitivamente o grande calcanhar de aquiles desta película, como também já tinha aludido no meu anterior texto.


"Ouyang Feng e Murong Yang"

Uma adição que se saúda é o “flashback” relativo à noite do casamento da apaixonada de “Feng”, corporizada em Maggie Cheung, que é mais completa e envolvente do que na versão original. Outra inovação de assinalar, passa pelo derradeiro combate do espadachim cego, interpretado por Tony Leung Chiu Wai, em que Kar Wai opta ora por cortar o som, ou distorcê-lo, assim como tornar a cena mais escura de forma a simbolizar a perda de visão do protagonista. O efeito, sem margem para qualquer dúvida, embrenha mais o espectador na tragédia pessoal da personagem. O sangue carmim, bastante vívido, a jorrar da garganta do espadachim faz o resto. A propositada saturação de cores que predomina em “Redux”, faz com que o filme seja mais estilizado e bonito à vista, aspecto que era extremamente prejudicado pela pobreza de tratamento da versão original. Outro aspecto que é de relevar, passa pelo facto de a grande senhora do cinema asiático, Brigitte Lin, poder debitar agora o seu próprio diálogo em mandarim. Na primeira versão, as falas da actriz eram dobradas para cantonês, havendo alguma detestável dessincronização entre os movimentos da boca e o som. Aqui, felizmente, isto já não se passa.

Sem desprezar os bons predicados que o novo tratamento a “Ashes of Time” mereceu, julgo que o melhor teria sido fazer uma simples, mas efectiva recuperação a esta pérola da sétima arte. “Redux” parece ter sido uma película feita mais para os fãs de Kar Wai, pós - “In The Mood for Love/2046”, desligando-se por vezes do espírito original da obra. Por mim, tudo se mantinha, apenas a imagem e o registo do som eram melhorados. As adições seriam bem-vindas, mas apenas para complementar o que já de bom existia. Quanto à banda-sonora, deixava-a precisamente como estava na versão original, principalmente devido à “tal” música inesquecível, e se possível tentava introduzir de uma forma lógica, o fabuloso violoncelo de Yo Yo Ma que perdura maravilhosamente em “Redux”. Façam pois o favor de confrontar as duas versões, e depois cada um diga de sua justiça! Acima de tudo o que interessa, é que o cerne da questão continua presente: o efeito das tristes memórias passadas na nossa vida presente, e a agonia que as alimenta e as cicatriza no íntimo do nosso ser...

Confiram, nem que seja para observarem o grande e malogrado Leslie Cheung, num dos papéis mais brilhantes da sua carreira!



"Luta no rio"

The Internet Movie Database (IMDb) link - Refere-se à versão originária de "Ashes of Time"

Trailer

Outras críticas em português:

domingo, setembro 30, 2007

Votações do "My Asian Movies"

Outros quatro ilustres actores e actrizes asiáticos que estão a votação no "My Asian Movies":

Brigitte Lin
Sammo Hung

Informação

Filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies": Os Guerreiros da Montanha, Os Guerreiros da Montanha - versão 1983

Takako Matsu

Informação

Filmes em que participou, criticados no My Asian Movies": April Story, A Espada do Samurai

Hiroyuki Sanada

Informação

Filmes em que participou, criticados no "My Asian Movies": The Promise, Ring - A Maldição



domingo, julho 01, 2007

Os Guerreiros da Montanha/Zu: Warriors From The Magic Mountain/Suk san: San suk saan geen hap - 蜀山:新蜀山劍俠 (1983)

Origem: Hong Kong

Duração: 94 minutos

Realizador: Tsui Hark

Com: Yuen Biao, Adam Cheng, Brigitte Lin, Damian Lau, Sammo Hung, Randy Man, Judy Ong, Moon Lee, Tsui Siu Keung, Mang Hoi, Dick Wei, Chung Fat, Tsui Hark

"Ming Chi e os seus aliados"

Estória

A península de Zu, terra que ocupa uma posição estratégica vital na China, vive tempos conturbados, pois encontra-se imersa numa guerra civil, travada entre diversas facções, conhecidas pela cor que usam nos seus uniformes.

“Ti Ming Chi” (Yuen Biao) é um batedor do “exército azul” que se mete em problemas com os seus, devido à recusa em obedecer a ordens superiores, ou melhor, em não saber a quem irá obedecer numa determinada tarefa.

Sendo perseguido, vê-se obrigado a procurar refúgio nas montanhas místicas da península, um sítio povoado por deuses e seres sobrenaturais, tanto do bem como do mal. Aí conhece “Ting Yin” (Adam Cheng), um mestre espadachim com poderes fantásticos que toma “Ming Chi” como seu discípulo.

"O mestre Ting Yin"

Ambas as personagens são encarregues por “Chang Mei” (Sammo Hung) em encontrar as “espadas gémeas”, as únicas armas capazes de derrotar um poderoso demónio que ameaça destruir o mundo inteiro.

Aquando da chegada ao palácio de uma condessa (Brigitte Lin) que é dotada de poderes curativos, o demónio possui o corpo de “Ting Yin”, usando-o para os seus propósitos maléficos. Só resta a “Ming Chi” ter de completar a tarefa para a qual foi incumbido, contando apenas com a ajuda de “Yi Chen”, um monge com problemas de auto-confiança.


"A condessa"

"Review"

Já anteriormente tinha elaborado um “post” acerca de um filme denominado “Guerreiros da Montanha”, cujo realizador é Tsui Hark. Como já deverão ter reparado, o filme que agora se fala possui uma designação semelhante (melhor dizendo, foi realizado em Portugal com o mesmo nome), assim como o realizador é o autor vietnamita, naturalizado chinês. No entanto, tratam-se de filmes distintos, feitos com uma distância de 18 anos. Foi a película que neste momento se analisa que inspirou “Legend of Zu”, embora não se possa propriamente falar de um “remake”, pois as estórias são diferentes, embora tenha que se admitir a existência de alguns pontos de contacto. Fica aqui expresso o esclarecimento, que se dirige essencialmente ao público português, pois noutros países, as duas longas-metragens têm títulos distintos, que as fazem ser distinguidas facilmente.

Este “Guerreiros da Montanha” – versão ’83, é considerado com muita propriedade, o progenitor de todos os filmes de Hong Kong que se reconduzem ao subgénero de fantasia de artes marciais. O próprio Tsui Hark recrutou elementos ocidentais da equipa técnica de “Guerra das Estrelas” para o auxiliarem nos arrojados efeitos especiais que se pretendiam fazer, e que eram absolutamente uma novidade no cinema de Hong Kong da altura.

E é precisamente na novidade e no mérito artístico que o filme dá cartas. Os efeitos são razoavelmente bons, e conjuntamente com os cenários dão uma saudável aura mística e de heroísmo mitológico à película. Claro que ao espectador de hoje, parecerão tremendamente arcaicos e sem nexo nenhum, mas temos de ter sempre presente que “Guerreiros da Montanha” viu a luz do dia há 24 anos. Forçosamente as coisas terão de ser analisadas desse prisma temporal.

"Luta épica nos céus"

Infelizmente e à semelhança do seu homónimo mais recente, os aspectos visuais são das poucas coisas que se aproveitam deste filme. Pelos vistos, 18 anos depois Tsui Hark viria a cair no mesmo erro. A estória, embora baseada na rica literatura mitológica chinesa, é deveras incongruente, pobremente desenvolvida, chegando ao ponto de por vezes não apresentar nexo nenhum. Não é um mal que se possa assacar apenas a esta obra, pois principalmente na década de ’80 e inclusive de ’90, não era raro os filmes de artes marciais e afins de Hong Kong se preocuparem quase exclusivamente com a acção, desprezando os aspectos mais argumentativos.

O problema é que nem a acção salva esta película. Com intérpretes tão capazes de nos oferecerem momentos únicos no que toca aos aspectos mais físicos da representação (alguém ousará questionar as capacidades de Yuen Biao ou Sammo Hung???), nada de relevante ocorre neste particular. A acção fica quase sempre a cargo dos já referidos efeitos especiais e do uso abusivo de guindastes. Quem já se deu ao trabalho de ler os meus textos com um mínimo de atenção, sabe que eu nada tenho contra o uso destes acessórios por forma a abrilhantar o filme, ou não fossem as minhas películas asiáticas favoritas, os “new ages” “Herói” e “O Tigre e o Dragão” (com todo o respeito que me merecem outras excelentes obras asiáticas de gerações mais antigas). Mas mesmo nestes filmes, notamos claramente algum trabalho físico e alma posto na tela pelos intervenientes. Ora, em “Guerreiros da Montanha”, este aspecto foi claramente descurado, e tirando os aspectos visuais, ficamos com um invólucro bonito, mas completamente oco por dentro. É essa a verdade!

“Guerreiros da Montanha” valerá quase exclusivamente pela nova era e diferente abordagem (quer se goste da mesma ou não) que iniciou na cinematografia de Hong Kong, e que posteriormente inspiraria de alguma forma filmes como a boa trilogia “A Chinese Ghost Story”, ou o péssimo “Dragon Chronicles”. Terá ainda um aliciante adicional que passará por vermos uma jovem Brigitte Lin a se iniciar praticamente no mundo dos filmes das artes marciais. O resto não será com certeza para relembrar…

Salva-se a experiência histórica!

"Tendo por fundo um cenário de sonho, os heróis deparam-se com a condessa pela primeira vez"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 6

Argumento - 6

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 7

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 6

Classificação final: 6,75






sábado, abril 07, 2007

The East Is Red Aka Swordsman III/Dung fong bat baai 2: fung wan joi hei (1993)
Origem: Hong Kong
Duração: 97 minutos
Realizadores: Raymond Lee e Ching Siu Tung
Com: Brigitte Lin, Yu Rong Guang, Eddy Ko, Joey Wong, Shun Lau, Waise Lee, Jean Wang, Fennie Yuen, King Tan Yuen
Atenção!!!
Só deverá prosseguir a leitura do presente texto, caso tenha visionado "Swordsman II", sob pena de o enredo deste filme ser parcialmente revelado mais abaixo!
"Asia, The Invincible, com uma armadura típica de um Lorde Samurai"

"Estória"

Após os acontecimentos sucedidos em "Swordsman II", e no seguimento de uma épica batalha, a notória vilã "Asia, the Invincible" (Brigitte Lin) é dada como presumivelmente morta, embora a sua lenda perdure por toda a China.

No entanto, para alguns subsiste a desconfiança acerca do falecimento do mito. "Koo" ( Yu Rong Guang), um oficial da Dinastia Ming, é uma destas pessoas. O guerreiro acompanha um galeão espanhol ao "Recife Negro", local onde os eventos nefastos do filme anterior aconteceram, tendo em vista encontrarem o navio holandês que jaz no fundo do mar, para além do "Pergaminho Sagrado", de onde "Asia, the Invincible" retirava a sua prodigiosa técnica e força.

Ali chegados, deparam-se com uma estranha personagem, que se auto-intitula o "Guardião do Túmulo", e que os leva até à campa da guerreira. Quando os espanhóis tentam profanar este lugar, o misterioso guardião elimina-os usando uma técnica marcial fora do normal, e muito mais poderosa do que qualquer outra alguma vez vista. O "Guardião do Túmulo" é nada mais, nada menos que "Asia, the Invincible", que forjou a sua morte, em ordem a que todos pensassem que tinha desaparecido para o mundo.

"O oficial Koo ao ataque"

No entanto, "Koo" explica a "Asia" que apesar de muitos pensarem que a lutadora está morta, existem numerosas pessoas a fazerem-se passar pelo mito, para benefício próprio. Enraivecida por esta situação, "Asia" jura eliminar os usurpadores da sua imagem e recuperar o lugar que é seu por direito.

No entanto, a guerreira sofre um grande desgosto quando descobre que a imitação mais perfeita de entre as impostoras é a sua ex-concubina "Snow". Contudo, esta situação não a faz recuar.

No meio de uma luta pelo poder supremo na China e no mundo, que envolve o "Sun Moon Sector" (a organização comandada por "Asia"), a dinastia Ming, os japoneses e os espanhóis, o sangue e a vingança serão os actores principais!

"Snow"

"Review"

Atendendo ao grande sucesso evidenciado por "Swordsman II", mas acima de tudo pela personagem mais emblemática daquela película, a infame "Asia, the Invincible" (aka "Invincible Asia ou "Evil Asia"), era incontornavél que se fizesse mais um episódio da saga, de modo a consagrar a figura interpretada pela lenda de Hong Kong, a Sra. Brigitte Lin (1000 vénias!!!). Os realizadores Raymond Lee e Ching Siu Tung, aliados ao produtor/realizador Tsui Hark aceitaram o desafio, e o resultado saiu num mediano "assim-assim", que utilizou uma propaganda comunista chinesa para dar o nome a esta película.

Acima de tudo, esta longa-metragem visa essencialmente duas coisas: entreter e dar um fim mais dignificante e sonhador a "Asia, the Invincible". As lutas são do mais tradicional que há nos "Wuxias", com os voos imp0ssíveis, a acção que nos tira a respiração, etc., etc. Já este aspecto foi aludido diversas vezes neste blogue, pelo que não vale a pena continuar. Mesmo assim, foi-se um pouco mais além, fazendo com que "Asia" consiga agarrar balas de canhão em pleno voo, e remete-las à origem com o dobro da potência!!! Neste particular, os fãs puros de filmes movimentados não ficarão desiludidos.

A fantasia impera um pouco em demasia e chega a ir longe demais, como é o caso do navio japonês, que se consegue transformar numa espécie de submarino, tendo em vista atacar os seus adversários numa posição submersa. Uma crítica implícita ao reino do sol nascente?!


"Asia, the Invincible e Snow, uma relação amor-ódio"

Não resisto contar uma certa passagem do filme, que achei deveras interessante, mais pelo seu conteúdo do que propriamente pela representação em si, e que ilustra um pouco a parca compreensão que por vezes os ocidentais têm em relação à cultura chinesa, incluindo os seus mitos. A certa altura, quando "Koo" dirige-se ao túmulo de "Asia", acompanhado dos soldados e sacerdotes espanhóis, começa a dar saltos fantásticos, tão típicos dos heróis lendários dos "Wuxia". Os europeus ficam abismados, e o general espanhol não resiste a perguntar a outro emissário chinês que tipo de bruxaria é aquela. O oriental, por sua vez espanta-se e diz que é uma coisa perfeitamente normal, atendendo a que "Koo" é um mestre em artes marciais, detendo uma técnica chamada "light Kung Fu". O espanhol não entende, e o chinês não lhe consegue explicar mais nada. Isto fez-me lembrar as constantes críticas fáceis e sem rigor nenhum, que sobreveem de pessoas que por não estarem habituadas a este género de películas, denegrem as capacidades sobre-humanas evidenciadas e que passam pelos saltos sobrenaturais e pela extrema rapidez no desferimento dos golpes. Meus amigos, nós estamos no campo das lendas e do conceito de herói popular para os orientais! Estamos no mundo do "Jianghu" 江湖. Manda a mais elementar prudência e bom senso que se deve tentar primeiro entender minimamente as coisas e só depois enveredar pela crítica, seja ela positiva ou negativa. É engraçado que eu nunca vi ninguém criticar o facto de o Super-Homem voar, ou o "Neo" de "The Matrix" fazer acrobacias em tudo copiadas dos Wuxias. Já agora, o que acham de um certo rei espartano dar saltos à Jet Li?

Feito este aparte, resta dizer que a interpretação dos actores é mediana, salvando-se apenas Brigitte Lin e Yu Rong Guang (Joey Wong desiludiu-me um pouco), a banda-sonora é razoável e muito típica do segmento onde se insere, o guarda-roupa e a fotografia é o costume, ou seja, bom.

Nada mais a reportar, a não ser que este filme fica abaixo de outros expoentes do género, confirmando apenas que "Swordsman II" é, sem margem para qualquer dúvida, o melhor filme da saga.

"Asia, The Invincible descarrega a sua fúria no oficial Koo"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 6

Argumento - 7

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 7

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,13





sexta-feira, fevereiro 02, 2007

The Bride With White Hair 2/Bai fa mo nu zhuan II (1993)

Origem: Hong Kong

Duração: 80 minutos

Realizador: David Wu

Com: Brigitte Lin, Leslie Cheung, Christy Chung, Sunny Chan, Kwok Leung Cheung, Lily Chung, Eddy Ko, Lan Law, Heung Kam Lee, Joey Maan, Chun Fung Ng, Richard Suen, Ruth Wynona Tao, Tak Ngai Yeung

"Lian Nichang, a noiva"

Atenção - "Spoilers"!!!

O texto que se segue será revelador do enredo do primeiro filme "The Bride With White Hair" , pelo que só deverá prosseguir caso já tenha visionado esta película!

Estória

No epílogo de "The Bride With White Hair", "Cho Yi Hang" tinha-se exilado no Monte Shin Fung, desgostoso devido ao trágico caminho que o seu relacionamento com "Lian Nichang" tinha enveredado.

Entretanto, devido ao grande desgosto provocado pela traição de "Cho Yi Hang", "Lian Nichang" vê o seu cabelo negro mudar para uma fantasmagórica cor branca, e decide enveredar por uma cruzada sangrenta contra todos os homens, que tem por seres em quem não se pode confiar minimamente.

"Cho", consumido pela culpa, aguarda expectante no Monte Shin Fung, à espera que uma flor mágica desabroche e que poderá servir de cura para a maleita do seu amor.

"O jovem Fung Chun Kit ferido após uma batalha com a noiva diabólica"

À medida que o tempo passa, "Lian" toma como propósito pessoal eliminar os restantes membros masculinos dos oito grandes clãs de artes marciais. No topo da lista encontra-se o jovem "Fung Chun Kit", o sobrinho de "Cho" e último descendente da outrora poderosa sociedade de artes marciais conhecida como "Wu Tang".

"Kit" assiste ao rapto da sua esposa "Lyre", sem nada poder fazer face aos incríveis poderes de "Lian". Esta por sua vez, através de bruxaria e artes negras, converte "Lyre" para a sua causa e incute-lhe um ódio mortal por todos os homens, incluindo "Kit".

"Kit" não tem outra alternativa senão atacar o reduto de "Lian", liderando para o efeito uma força composta por membros de todos os clãs.

"A noiva num raro momento de serenidade, a ser penteada pela sua amiga (amante?)"

"Review"

Como já foi aludido na crítica efectuada ao primeiro filme , Ronny Yu pretendeu claramente rodar a saga de "Lian Nichang" em dois episódios, em vez de fazer uma única película. Também já opinei acerca deste aspecto, e acho que a estória ficou claramente a perder com esta opção, embora acredite que a nível de proveitos comerciais o mesmo não se tenha passado. Aliás, "The Bride With White Hair 2", tem pelo menos formalmente como realizador David Wu, o irmão de Ronny Yu, embora se afirme que o aclamado realizador de Hong Kong tenha metido o seu cunho pessoal na segunda parte da saga. Se meteu, pelo menos não parece...e aqui já se adivinha com uma certa antecipação que a minha opinião em relação a este filme não é muito positiva.

Esta película está claramente a milhas da sua predecessora.

O enredo, embora minimamente imaginativo (principalmente devido à exploração do desgosto de várias mulheres por terem sido maltratadas pelos seus amados), não tem a força, nem nos capta a atenção como o anterior.

Em muito contribui o facto da estória de amor entre "Kit" e "Lyre", não ter metade do interesse que a de "Lian Nichang" e "Cho Yi Hang" nos despertaram. Muito contribui o facto de o "casting" não ter sido particularmente feliz. Algum dia Sunny Chan e Joey Maan têm sequer metade do carisma e do talento que Brigitte Lin e Leslie Cheung possuem? É mais do que óbvio que a resposta terá de ser inevitavelmente negativa.

"Lian Nichang rodeada do seu séquito de mulheres revoltadas"

As próprias lutas que em muito poderiam contribuir para salvar um pouco desta longa-metragem, desiludem de sobremaneira. "Lian Nichang, a noiva" parece que não tem paciência para aplicar "uns golpes à maneira" e a sua imagem de marca que era o chicote desapareceu. Ela limita-se a olhar para os seus inimigos e projectá-los no ar devido a um qualquer poder telecinético. Ou então atira os seus longos cabelos brancos, e perfura os seus oponentes até à morte. Claro que sempre se poderá dizer que enquanto no primeiro filme, ela era uma clássica guerreira cheia de virtudes de combate, no segundo "Lian" já se afigura como uma bruxa com poderes paranormais, devido à sua transformação, ocasionada pelo desgosto de amor que sofreu. Mesmo assim, a explicação não me convence muito. O caminho que se seguiu não foi o melhor. Os restantes intervenientes não convencem nada em relação às suas capacidades de combate. Não é nada que se compare ao espectáculo produzido na saga "Era Uma Vez na China", "New Dragon Gate Inn", "Swordsman II" ou "A Chinese Ghost Story".

O que se salva verdadeiramente desta película são os dez minutos finais, em que "Cho Yi Hang" aparece finalmente para confrontar "Lian Nichang", e tentar expiar os seus pecados passados. Digamos que constituiu um final bastante belo, embora trágico como já seria de esperar, e que valeu pelo filme todo.

E é nisto que se resume de interessante em "The Bride With White Hair 2". Os dez minutos finais...

"O trágico reencontro dos eternos apaixonados Cho Yi Hang e Lian Nichang"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 7

Interpretação - 6

Argumento - 7

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 7

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M" - 6

Classificação final: 6,75





sábado, janeiro 13, 2007

Swordsman II/Xiao ao jiang hu zhi dong fang bu bai (1991)

Origem: Hong Kong

Duração: 104 minutos

Realizador: Ching Siu Tung e Stanley Tong

Com: Brigitte Lin, Jet Li, Rosamund Kwan, Michelle Reis, Fennie Yuen, Waise Lee, Yang Yee, Lau Shin, Chin Kar Lok


"Ling, o bem disposto espadachim que só pensa em beber vinho, amar mulheres e cantar Hero of the Heroes"

Estória

Na altura da dinastia Ming, "Ling Wu Chung" (Jet Li) e a sua companheira arrapazada "Kiddo" (Michelle Reis) decidem retirar-se do mundo das artes marciais, conjuntamente com os seus companheiros da montanha "Wah". "Ling" sente-se feliz, pois vai poder dedicar-se às coisas que mais gosta: mulheres, vinho e música. "Kiddo" por sua vez tem a esperança que "Ling" repare nos sentimentos que ela possui por ele.

Na realidade, "Ling" nutre sentimentos por "Ying" (Rosamund Kwan), a filha de "Wu", líder do clã "Sun Moon", e antes de se retirar, pretende encontrar-se com a sua amada uma última vez. No entanto, "Wu" é derrotado e emprisionado pela misteriosa "Asia, the Invincible" (Brigitte Lin), a possuidora do "Pergaminho Sagrado".

"A fascinante e misteriosa Evil Asia ou Asia, the Invincible"

"Ling" eventualmente acaba por conhecer "Asia", sem saber a sua real identidade, e apaixonar-se por ela.

Acontece que "Asia" na realidade é um homem, prestes a se metamorfosear numa mulher. Tudo se deve ao "Pergaminho Sagrado", pois quem quiser dominar os seus segredos, é obrigado a castrar-se, de modo a obter poderes para além da imaginação.

"Ling" embarca numa relação com "Asia", e esta sem a sua paixão saber, mata todos os guerreiros da montanha "Wah". Desolado pela perda dos seus companheiros, "Ling" lidera um pequeno grupo de excelentes combatentes composto por ele próprio, "Kiddo", "Ying", "Wu" e o fiel discípulo deste chamado "Zen", e ataca o reduto de "Asia".

Quando "Ling" se depara com o inimigo, descobre que este e o seu amor são a mesma pessoa!

"Duelo ao luar"

"Review"

"Swordsman II" constitui um ícone dos "Wuxia Pian" dos anos 80 e 90, e é sem margem para dúvidas uma obra obrigatória a ver por todos os amantes do género, emparelhando com "New Dragon Gate Inn", a epopeia "Era Uma Vez na China", "The Bride With White Hair", entre outros. Sob a chancela da produção do mítico Tsui Hark, a película em si é a segunda parte de uma trilogia, cujo primeiro filme chama-se igualmente "Swordsman", e o terceiro "The East Is Red".

Sendo uma sequela, poder-se-ia desde logo pensar que tinha menos qualidade que a primeira parte. Nada mais falso! "Swordsman II" é bastante superior a "Swordsman", o que em parte muito contribuiu a entrada de Jet Li e Brigitte Lin para o "casting". Quanto à comparação com "East Is Red", não me pronunciarei, pois ainda não visionei esta última longa-metragem.

Desde logo, há que elogiar o argumento de "Swordsman II", elaborado a partir de uma adaptação livre de uma obra do romancista Louis Cha. O idealismo e o jogo pouco comum com a sexualidade e o romance das personagens principais, torna a estória do filme bastante interessante de seguir. Muitas mensagens são passadas pela película, tentando incutir uma certa moral e ética em quem o visiona. Existe um completo sucesso na transmissão dos ideais das personagens, pois conseguimos sem dúvida sentirmo-nos solidários com o estilo de vida simples de "Ling", e inclusive nutrir simpatia por "Asia", a vilã apaixonada (vilão) do filme.

Jet Li interpreta aceitavelmente "Ling", embora reconheça que estranhe os momentos cómicos, os quais julgo não se adaptarem bem ao perfil mais sério do actor. No entanto, quando chegámos às lutas, e inclusive a alguns momentos mais dramáticos, Li volta a estar no seu campo natural. Gostei particularmente da cena em que "Ling" encontra-se numa falésia com "Asia", e contemplativo afirma "As pessoas estão sempre em busca de poder, eu no entanto continuarei a preferir beber".

"Os corajosos guerreiros preparam-se para enfrentar Asia, the Invincible"

Brigitte Lin dá vida a mais uma personagem inesquecível, que para muitos é a mais emblemática da sua longa carreira. Quanto a este ponto, acho muito perigoso opinar, pois Lin é daquelas actrizes que simplesmente não sabe actuar mal e que teve a sorte de na maioria das vezes terem-lhe sido atribuídos papéis que são potenciais maravilhas e símbolos do melhor cinema que se faz na Ásia e não só. A sua interpretação ofusca a de todos os outros actores, incluindo a de Jet Li, fazendo com que ela seja na realidade o grande protagonista do filme. A densidade da criação e caracterização de "Asia, the Invincible" (há quem afirme que Tsui Hark pretendeu personificar o regime autoritário chinês, insistindo inclusive que as roupas usadas por Asia fossem quase sempre de um vermelho forte), ou se preferirem "Evil Asia", só poderia estar ao alcance da porventura melhor actriz de sempre do cinema asiático. A influência de "Asia" em "Swordsman II" é tão grande, que se o título do filme fosse alvo de uma tradução literal obteria-se uma frase deste género "O guerreiro sorridente e orgulhoso: Àsia, a Invencível".

"Luta na floresta"

Uma palavra final para as cenas de luta e a banda-sonora. Os combates são extremamente emocionantes, com os predicados comuns dos "Wuxia" da altura, ou seja, "wire fu" ao extremo, corpos a rebentar, sangue e malabarismos impossíveis. A banda-sonora é muito boa, destacando-se a canção que "Ling" e os guerreiros da montanha "Wah" insistem em cantar intitulada "Hero of Heroes". É sem dúvida, uma das imagens de marca do filme, ficando a melodia na nossa cabeça. Posso dizer que apercebi-me neste momento que estava a cantarolá-la.

"Swordsman II" é uma proposta interessante, imbuída de várias mensagens, sendo mais um filme que propõe um conceito de herói tanto belicista, como sentimental e até acriançado.

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Cinedie Asia

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 7

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,50