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segunda-feira, maio 31, 2010

Peking Opera Blues/Do ma daan – 刀馬旦 (1986)

Capa

Origem: Hong Kong

Duração aproximada: 104 minutos

Realizador: Tsui Hark

Com: Brigitte Lin, Cherie Chung, Sally Yeh, Kenneth Tsang, Wu Ma, Paul Chun, Mark Cheng

Ling e Cao Wan

“Ling e Cao Yan”

Sinopse

Em 1913, o general Yuan Shikai tomou o poder após a queda da monarquia ilustrada na dinastia Qin. Yuan precisa de uma grande quantidade de dinheiro proveniente dos governos europeus para se manter no poder, e o general “Cao” (Kenneth Tsang) ajuda-o a tomar providências para segurar os empréstimos. Contudo, a filha de “Cao”, “Cao Yan” (Brigitte Lin) está aliada aos rebeldes que se opõem à ditadura militar, e conspira para furtar ao pai os documentos que comprovam o negócio com as potências ocidentais.

Sheung Hung

“Bai Niu”

Durante o seu plano para sonegar ao pai os acordos que titulam os empréstimos, “Cao” inesperadamente conhece duas mulheres. Uma é “Bai Niu” (Sally Yeh), a filha de “Wong” (Wu Ma), que dirige uma companhia de ópera chinesa, onde só são admitidos homens em respeito pela tradição. “Bai” não se conforma com este costume, pois ela adora representar e adoraria ser uma actriz profissional. A outra companheira que não estava nos planos é “Hong” (Cherie Chung), uma fura-vidas que se embrenha na companhia de ópera, de maneira a recuperar uma caixa cheia de jóias de grande valor. As três mulheres envolvem-se ainda mais na intriga política, quando travam conhecimento com o espião “Ling” (Mark Cheng), e todos juntos travam uma luta para evitar que o regime corrupto que domina a China leve a sua avante.

Hong

Hong”

Review”

Quando existem referências às grandes obras produzidas pelo cinema de Hong Kong, e foram muitas, em quase todas aparecerá inapelavelmente “Peking Opera Blues”, considerado um dos expoentes máximos do conhecidíssimo Tsui Hark. Efectivamente, um dos pontos fortes desta película passa pela grande e feliz mistura de géneros, que o realizador de origem vietnamita conseguiu urdir. O filme encontra-se imbuído de referências históricas de um período importante e delicado da história chinesa, assim como passeia pelos caminhos da intriga política, do drama, do romance, deambulando ainda pela comédia e uma dose apreciável de acção.

Efectivamente, o período onde decorre a trama de “Peking Opera Blues” é deveras interessante para aqueles que se interessam e apreciam a componente da ciência histórica na sétima arte. Como já foi aflorado na sinopse, a China vivia uma altura onde a monarquia milenar tinha tombado há poucos anos, e o general Yuan Shikai tinha tomado o poder, governando como o primeiro Presidente da República. A questão é que Shikai enveredou por uma orientação autocrática, tendo a certa altura tentado reviver o império chinês, onde chegou a declarar-se imperador. Esta atitude revelou ser potenciadora de rebeliões, um pouco por todo o Império do Meio, onde se revelou nesta altura o conhecido Sun Yat Sen. É pois nesta época conturbada, retratada por Tsui Hark com algum rigor e espectacularidade, que decorre a acção desta longa-metragem.

As 3 amigas

As 3 aventureiras”

Feito o pequeno enquadramento histórico, o pano de fundo da trama decorre essencialmente na ópera chinesa, onde é denotada uma abordagem muito interessante, como momentos muito apreciáveis. Mas onde existe um “glamour” muito próprio e associado a esta arte, igualmente há lugar para a paródia. Os homens por vezes parecem muito efeminados (relembramos que às mulheres naquela altura não era permitido representar) assim como por sua vez as raparigas têm de se fazer passar por homens, de forma a que lhes seja dada a oportunidade de actuar num palco. A acção, a cargo do quase insuspeito Ching Siu Tung, tem momentos verdadeiramente espectaculares, quer a nível do domínio das artes marciais, como dos duelos com armas de fogo. O entretenimento, com margem para dúvidas mínimas está bem conseguido. Por sua vez, a caracterização da época e das personagens, constitui um dos pontos fortes de “Peking Opera Blues”. Tudo cuidado, com muito atenção aos pormenores e um guarda-roupa portentoso, em especial as vestes dos intérpretes da ópera chinesa.

Os actores exibem-se no plano que lhes é exigido e pouco mais. No entanto, e não obstante ser conhecida a minha admiração pessoal pela actriz, a verdade é que Brigitte Lin mais uma vez marca a sua presença e destaca-se dos restantes intervenientes. A versátil actriz de Hong Kong, que muitos clamam pelo seu regresso, confere uma personalidade muito própria a “Cao Yan”, a filha rebelde do general, e ainda tem tempo para dar um ar da sua graça no que mais a celebrizou nos filmes, ou seja, a exibição de artes marciais.

Apesar de não concordar com aqueles que colocam “Peking Opera Blues” como uma das melhores películas de sempre do espectro de Hong Kong, forçosamente terá de ser admitido que estamos perante uma longa-metragem com uma qualidade acima da média e que terá de constar na galeria dos filmes notáveis da região administrativa chinesa, nem que seja pela sua importância histórica. A sua miscigenação feliz de predicados assim o exige, e nós na qualidade de fãs, nada temos a opor.

A conferir!

Ópera chinesa

Fabulosa caracterização na ópera chinesa”

imdb 7.6 em 10 (969 votos) em 31/05/2010

Avaliação:

Entretenimento – 8

Interpretação – 7

Argumento – 7

Banda-sonora – 7

Guarda-roupa e adereços – 9

Emotividade – 8

Mérito artístico – 8

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 7

Classificação final: 7,63

 

quinta-feira, outubro 16, 2008

A Better Tomorrow/Ying hung boon sik - 英雄本色 (1986)

Origem: Hong Kong

Duração: 90 minutos

Realizador: John Woo

Com: Ti Lung, Chow Yun Fat, Leslie Cheung, Waise Lee, Shing Fui On, Kenneth Tsang, Emily Chu, John Woo, Tsui Hark, Shi Yangzi, Tien Feng

"Mark"

Sinopse

“Ho” (Ti Lung) e “Mark” (Chow Yun Fat) são dois conhecidos membros de uma tríade, que encontram-se envolvidos numa vasta operação ilegal de falsificação de dólares americanos. “Ho” tem um irmão que adora e protege imenso, chamado “Kit” (Leslie Cheung). Apesar de o sentimento ser mútuo, “Kit” não desconfia da vida criminosa do irmão mais velho e sonha prosseguir uma carreira completamente antagónica, ou seja, ser um inspector da polícia de Hong Kong.

"Os irmãos Ho e Kit"

A tragédia abate-se sobre os dois irmãos, quando devido a um trabalho falhado de “Ho” em Taiwan, uma tríade rival assassina o pai de ambos. “Ho” é preso, “Kit” descobre a vivência ilícita do irmão e vota-lhe ódio e desprezo, enquanto “Mark” na sua sede de vingança fica inválido e leva a partir daí uma vida miserável. Após cumprir uma pena de prisão, “Ho” está decidido a recuperar a confiança e amor do irmão, e decide abandonar o crime, arranjando um emprego honesto como motorista de táxi. No entanto, as coisas não correm pelo melhor e o antagonismo de “Kit” aumenta ainda mais quando negam-lhe uma promoção, pelo motivo de ser o irmão de “Ho”.

As coisas pioram quando “Shing” (Waise Lee), actualmente o chefe mais poderoso das tríades, começa a infernizar a vida de “Ho” por este se ter recusado a juntar novamente à organização. Pressionados pelas actuações de “Shing”, os irmãos esquecem as suas querelas e com a ajuda de “Mark”, enfrentam sozinhos e de frente a tríade que não os deixa em paz na busca de um amanhã melhor.

"Shing rodeado dos seus capangas"

"Review"

Quando nos referimos aos filmes de tríades de Hong Kong, na vertente “heroic bloodshed”, é meu costume e de tantos outros afirmar que existe um período antes de “A Better Tomorrow”, e outro posterior que nos viria a dar obras brilhantes, quase todas da autoria de John Woo, tais como “The Killer”, “Bullet in the Head” e “Hard Boiled”. O cinema de Hong Kong viria a diversificar finalmente a sua internacionalização, não vivendo quase exclusivamente dos filmes de artes marciais ou do wuxia. E por aqui desde logo se afere da incontornável importância desta película, pois foi praticamente aqui que tudo começou no que toca a destilar qualidade e um estilo incomparável relativamente ao conceito da vingança servida num avassalador prato de balas por um anti-herói! Numa lista revelada nos “Hong Kong Film Awards” de 2005, onde foi consultado um painel composto por 101 pessoas, desde realizadores de cinema, críticos e estudiosos do fenómeno da sétima arte, “A Better Tomorrow” foi eleito o segundo melhor filme de sempre do triângulo China/Hong Kong/Taiwan (consultar o resto da lista AQUI). Convenhamos que qualquer escolha tem sempre muito de discutível, e o que é bom para um muitas vezes não vale nada para outro, mas é forçosamente necessário reconhecer que “A Better Tomorrow”, pela sua importância histórica e imponência cinematográfica, é um claro candidato a figurar em qualquer “top” da sétima arte que se preze. Praticamente sem publicidade de relevo antes da sua estreia, esta longa-metragem viria a bater recordes de bilheteira em toda a Ásia, e poder-se-á afirmar que não constituiu quase nenhum risco financeiro a feitura de duas sequelas e uma prequela.

Alertando desde já que sou um admirador do actor em questão, um dos aspectos que importa antecipadamente esclarecer é a real importância de Chow Yun Fat no filme, e que imperativamente terá de ser desmistificada. Com certeza que todos os que estão familiarizados com o filme, já se aperceberam que é a sempre a figura do mencionado intérprete que aparece por todo o lado em jeito de destaque, seja nos “trailers”, nas capas das inúmeras edições de dvd ou nas fotos mais emblemáticas. Com todo o respeito, e que é imenso, a verdadeira estrela da película é o actor Ti Lung, do qual Leslie Cheung e Chow Yun Fat constituem uns espectaculares adjuvantes. O verdadeiro coração desta longa-metragem assenta na relação dos dois irmãos “Ho” e “Kit”, suportadas por duas boas interpretações do já mencionado Ti Lung e do saudoso Leslie Cheung. A Chow Yun Fat está reservado um importante papel de rebeldia, determinação e fúria, residindo neste actor a força da longa-metragem, reconheço. Mas meus amigos, a alma e o espírito ficarão a cargo de Ti Lung e um pouco de Leslie Cheung. Se não vos confessasse isto, não estaria a ser sincero e a pactuar com o politicamente correcto. Cumpre ainda referir uma curiosidade e que passa por tanto John Woo, o realizador, como Tsui Hark (produtor) terem participações no filme, e não apenas como meros figurantes!

"Mark sofre um brutal espancamento"

A fórmula de sucesso é a mesma a que estamos habituados no que toca a John Woo, embora exista um certo refinamento em “A Better Tomorrow”, em detrimento de uma aposta mais premente nos espectaculares momentos de acção. Com uma trama forte, é-nos dado a interiorizar a actuação das tríades, e a amizade de “Ho” e “Mark”, evidenciando honra no mundo do crime. Paralelamente, observamos a grande ternura que une os irmãos “Ho” e “Kit”, com o irmão mais velho a assumir uma postura protectora e de admiração que muito colhe a nossa simpatia. O negócio ilícito corre bem, a amizade dos intervenientes parece impossível de ser abalada, e o futuro de “Kit” parece ser o mais auspicioso possível. O terreno está preparado para que possamos gozar à vontade as sensações posteriores de pena, revolta e vingança quando tudo descamba e o paraíso acabou.

Outro aspecto bastante propalado acerca de “A Better Tomorrow” é o facto de a película “rebentar as costuras” de estilo, possuindo cenas emblemáticas para dar e vender. Tirando a parte final, em que já se está mesmo a ver (por isso não é nenhum spoiler!) vai haver matança e balas a rodos, normalmente faz-se a apologia de uma cena que marca imenso o filme. Falamos do tiroteio com o cunho de Chow Yun Fat, aquando da vingança que leva a cabo pela prisão de “Ho”. O actor entra num restaurante, impecavelmente vestido de fato, coberto com um sobretudo. Num corredor, vai posicionando armas estrategicamente em canteiros de flores, enquanto está agarrado a uma bela rapariga. Entra na sala onde os seus inimigos estão a jantar, e cumpre o seu objectivo de assassinato. À medida que posteriormente vai recuando no corredor e as suas balas esgotam, retira as armas dos ditos canteiros e continua a disparar, cobrindo a sua retirada e espalhando o inferno na terra. Tudo alternado entre planos rápidos e “slow motion”. Esta sequência é uma candidata a lugar honroso numa rubrica do género “os dois minutos mais intensos da história do cinema”. No que toca a estilo, a personagem “Mark”, viria a marcar uma posição bastante forte perante a juventude de Hong Kong na altura. Muitos adoptaram o estilo evidenciado por Chow Yun Fat nesta longa-metragem, acorrendo às lojas para comprar sobretudos pretos (para o clima de Hong Kong isto é terrível, principalmente no Verão) e óculos “Ray-Ban”, e andando de palito na boca. As autoridades criticaram imenso este facto, acusando John Woo de propalar o estílo dos criminosos pertencentes às tríades. Poderá passar também por aqui a explicação para o facto de Chow Yun Fat ter um papel predominante no que toca a Leslie Cheung e Ti Lung, assunto que já abordei mais acima.

Quando “A Better Tomorrow” estreou em Hong Kong, foi um murro no estômago e tornou-se no filme com mais receitas de bilheteira na história da região administrativa chinesa, tendo mantido o lugar por alguns anos. Apesar de não chegar ao brilhantismo de “The Killer”, é um filme com um mérito cinematográfico extraordinário. O seu “quid” passará por iniciar a brilhante odisseia dos “heroic bloodshed” de John Woo, consubstanciando um dos períodos de ouro do cinema de Hong Kong. Mais pode se lhe assacar outra proeza de renome que foi catapultar para as luzes da ribalta um actor que até então era conhecido por só participar, salvo uma ou outra excepção, em verdadeiros fracassos de bilheteira, comédias duvidosas e dramas de calibre menor. Quem? Esse mesmo! Estou a referir-me a Chow Yun Fat.

Imperdível!

"O trio no meio do inferno final"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 9

Argumento - 8

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,25






quinta-feira, outubro 09, 2008

Green Snake/Ching Se - 青蛇 (1993)

Origem: Hong Kong

Duração: 98 minutos

Realizador: Tsui Hark

Com: Joey Wong, Maggie Cheung, Vincent Chiu, Wu Hsing Kuo, Lau Kong, Ma Jing Wu, Tien Feng

"Green Snake Xiao Qing"

Sinopse

As irmãs “Green Snake” (Maggie Cheung) e “White Snake” (Joey Wong) são dois demónios ancestrais em forma de cobra, que após um longo treino em feitiçaria, conseguem adquirir um aspecto humano. A razão que as norteia passa pelo facto de os humanos experienciarem o amor e a liberdade, sentimentos que à partida lhes estão negados. À medida que as duas belas mulheres vão-se habituando e apreciando a sua nova condição, “White Snake”, a mais velha e madura, apaixona-se e subsequentemente casa com o estudioso “Xu Xian” (Wu Hsing Kuo). O seu objectivo é gerar um filho, e desta forma consolidar a sua passagem para o reino dos mortais. Por seu lado, “Green Snake”, apesar de aos poucos se sentir atraída pela sua nova vida, ainda demonstra saudades da sua antiga forma de serpente, ao ponto de se transmutar ocasionalmente.

"As duas irmãs viperinas"

No entanto, esta situação cria um desequilíbrio na ordem natural das coisas, que chama a atenção dos budistas e taoístas mais esclarecidos e poderosos. Em decorrência deste facto, começa uma caça às duas irmãs, liderada pelo poderoso monge budista “Fa Hoi” (Vincent Chiu). No início, o sacerdote adopta uma postura de contenção perante as duas mulheres, atendendo a que as mesmas vivem calmamente e não molestam ninguém. Contudo, posteriormente “Fa Hoi” altera a sua forma de agir e passa ao ataque. No decurso da sua cruzada aparentemente justa, o monge descobre a real hipocrisia que se esconde por detrás do seu imaculado modo de vida.

"Green Snake e o monge Fa Hoi"

"Review"

Como qualquer região do mundo, a China possui uma mitologia própria, consubstanciada em milhares de lendas e contos, transmitidos muitas vezes por via oral. Sendo uma nação com uma riqueza cultural e teológica enorme, o manancial de histórias que poderão dar origens a filmes é quase infinito. A lenda da serpente branca é baseada numa dessas narrativas fantásticas do império do meio, que começou a ser transmitida por várias gerações e que originaria óperas chinesas, séries para a televisão e, como não podia deixar de ser, películas de cinema. A conhecida escritora de Hong Kong Lilian Lee, autora entre várias obras de “Adeus Minha Concubina”, daria corpo a um romance intitulado “Green Snake” que visa expôr a perspectiva dos eventos do ponto de vista de “Xiao Qing”, a irmã de “Bai Suzhen White Snake”, sendo esta normalmente a figura central do mito. Foi este o escrito que viria a servir de inspiração para a obra de Tsui Hark e que agora se tentará analisar um pouco.

Tsui Hark é sobejamente conhecido por ser um dos realizadores mais emblemáticos e importantes de sempre do cinema de Hong Kong. Uma das suas marcas indeléveis são os “wuxia”, as denominadas “fantasias de artes marciais”, ou simplesmente os filmes de artes marciais mais puros. Frequentemente as características essenciais destes três tipos de filmes aparecem misturadas nas películas que realizou, acontecendo por vezes algumas das suas longas-metragens estarem perfeitamente individualizadas no género onde se inserem. “Green Snake” é indubitavelmente uma “fantasia de artes marciais”, com naturais elementos do “wuxia”, estando na linha de películas como “A Chinese Ghost Story”, “Zu: Warriors of the Magic Mountain” ou “Dragon Chronicles (...)”, filmes acerca dos quais já escrevi anteriormente no “My Asian Movies”. Quer se goste ou não, tudo nasce da relevante paixão que Tsui Hark sempre nutriu pelas tradições ancestrais chinesas, aspecto que pessoalmente entendo que é de elogiar no realizador e onde o mesmo foi beber imenso na sua carreira, nem sempre com bons resultados.

Estamos perante um filme que apesar de se notar que o orçamento não foi assim tão generoso, tem momentos de rara beleza e virtuosidade. É certo que no início observamos os cabos que ajudam Vincent Chiu a planar, assim como as cobras não conseguem disfarçar o facto de serem de borracha. Igualmente muitos dos efeitos especiais são arcaicos e a um nível inferior de qualquer filme norte-americano dos anos '70. Contudo, “Green Snake” tem momentos de rara beleza e que manifestamente deslumbram o espectador. Os templos budistas, as florestas de bambu e especialmente “Fa Hoi” a andar sobre a água impressionam vivamente o espectador e fazem com que esta obra de Tsui Hark esteja à frente no seu tempo, servindo de inspiração a películas que viriam a ser realizadas posteriormente, tanto do realizador como dos seus congéneres.


"A dança indiana da luxúria"

Apesar dos filmes de Tsui Hark serem muitas vezes vistos como puro entretenimento, os mais conhecedores da sua obra sabem que o realizador expõe sempre uma mensagem significativa nas suas películas, normalmente detractora do regime comunista chinês. Aqui temos a costumeira menção, corporizada simbolicamente no robe vermelho do monge “Fa Hoi”, que na luta final parece tudo ofuscar e afogar. Contudo desta vez temos talvez algo mais significativo e que estará relacionado com a hipocrisia da religião, assim como uma crítica aberta àqueles que cedem perante as primeiras impressões e que tudo gostam de catalogar ou extremar na dicotomia “certo ou errado”, “bem e mal”, etc.

Protagonizado por duas das mais belas e bem sucedidas actrizes de Hong Kong, Maggie Cheung e Joey Wong, a parte erótica (dentro de limites “mais respeitáveis”) e sensual está bem presente na película, rivalizando neste particular com longas-metragens como “The Bride With White Hair”. Não querendo parecer despropositado nem menos sério (como se diz na minha terra “ca nada!”), imagine-se que até durante uns segundos temos a inesquecível oportunidade de contemplar uma Maggie Cheung, na altura com 29 anos, como veio ao mundo! Só por isto, o filme já valerá com certeza a pena! O papel de Cheung é eminentemente provocador, em contraposição com uma mais serena e madura Joey Wong que tenta na sua aventura humana, descobrir o amor e ser o protótipo da esposa dedicada. Por seu lado, Vincent Chiu representa competentemente o monge “Fa Hoi”, um ser dotado de uma rectidão e rigidez ética supostamente a toda a prova, mas que acaba por questionar o seu modo de vida, tendo por motivo o contacto com as duas irmãs demoníacas. Esta característica das mulheres não as faz propriamente seres maus e desprovidos de sentimentos, como “Fa Hoi” acaba por descobrir. O actor Wu Hsing Kuo, originário de Taiwan, é o equivalente à personagem que Leslie Cheung tão bem representou em “A Chinese Ghost Story”. Trata-se do ingénuo da história que é apanhado no meio da confusão, e que recolhe por este motivo toda a nossa complacência. É o elo mais fraco da actuação e nem de longe, nem de perto, chega aos calcanhares do saudoso Leslie Cheung no filme atrás referenciado.

Dotado de uma banda-sonora agradável, mesclada com ritmos tradicionais chineses, este “cocktail” de fantasia, artes marciais e sensualidade/sexualidade (a maior parte sugerida, do que propriamente evidenciada), está longe de ser um trabalho menor de Tsui Hark, como por vezes é considerado.

Vale a pena dar uma espreitadela!

"O sacerdote taoísta cego que anda à caça das irmãs"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,50





quarta-feira, março 19, 2008

Realizador Asiático Preferido - Votação

Apresento-vos mais um realizador asiático que está sujeito ao vosso escrutínio, no quadro de votações mais abaixo à direita. Não custa relembrar que podem escolher mais do que uma opção, antes de clicarem e submeterem o(s) vosso(s) voto(s). Igualmente podem sugerir outros nomes para serem postos a votação.
Tsui Hark

Informação

Filmografia (caso exista alguma crítica, o título estará assinalado a cor vermelha. Para aceder ao texto, basta clicar):

  1. Butterfly Murders (1979)
  2. We're Going to Eat You (1980)
  3. Dangerous Encounter - First Kind (1980)
  4. All the Wrong Clues (For the Right Solution) (1981)
  5. Zu: Warriors From the Magic Mountain (1983)
  6. Aces Go Places III - Our Man from Bond Street (1984)
  7. Shanghai Blues (1984)
  8. Working Class (1985)
  9. Peking Opera Blues (1986)
  10. A Better Tomorrow III: Love and Death in Saigon (1989)
  11. Swordsman (1990)
  12. The Raid (1991)
  13. Once Upon a Time In China (1991)
  14. The Banquet (1991)
  15. Twin Dragons (1992)
  16. Once Upon a Time in China II (1992)
  17. The Master (1992)
  18. King of Chess (1992)
  19. Once Upon a Time in China III (1993)
  20. Green Snake (1993)
  21. The Lovers (1994)
  22. Once Upon a Time in China V (1994)
  23. The Chinese Feast (1995)
  24. Love in the Time of Twilight (1995)
  25. The Blade (1995)
  26. Tristar (1996)
  27. Double Team (1997)
  28. Knock Off (1998)
  29. Time and Tide (2000)
  30. The Legend of Zu (2001)
  31. Black Mask II - The City of Masks (2002)
  32. Seven Swords (2005)
  33. Triangle (2007)


terça-feira, fevereiro 05, 2008

Era Uma Vez na China III Aka O Sonho do Guerreiro/Once Upon a Time In China III/Wong Fei Hung ji saam: Si wong jaang ba – 黃飛鴻之三獅王爭霸 (1993)

Origem: Hong Kong

Duração: 107 minutos

Realizador: Tsui Hark

Com: Jet Li, Rosamund Kwan, Lau Shun, Max Mok, Xiong Xin Xin, Paul Wakefield, Hung Yan Yan


"Wong Fei Hung"

Estória

“Wong Fei Hung” (Jet Li) viaja até Pequim, acompanhado do seu interesse romântico, a prima “Yee” (Rosamund Kwan), e do seu fiel discípulo “Lung Foon” (Max Mok). A sua intenção é rever o pai, o mestre “Wong” (Lau Shun).

Cedo os problemas começam a acontecer, com Fei Hung a ver-se envolvido numa disputa entre escolas de kung-fu, que almejam controlar o mundo das artes marciais. Para piorar ainda a situação, um diplomata russo chamado “Tomanski” (Paul Wakefield), começa a assediar a prima “Yee”, provocando desta forma os ciúmes de “Fei Hung”.


"Wong Fei Hung e a prima Yee"

“Tomanski” revela não ser tão dócil e bem intencionado quanto parece, pois está envolvido numa tentativa de assassinato dirigida ao primeiro-ministro chinês. Cabe mais uma vez a “Fei Hung” tentar salvar o dia, impedindo para o efeito o crime que “Tomanski” está a planear. Igualmente convirá dar o passo decisivo na relação com a prima “Yee”, assim como vencer o torneio da dança do leão, organizado pela imperatriz.


"Fei Hung em luta contra as escolas de kung fu rivais"


"Review"

É sempre um grande risco fazer uma sequela de um filme, porquanto as comparações com a película que iniciou a respectiva série serão inevitáveis, levando a primeira longa-metragem normalmente a melhor. Quando enveredamos por um verdadeiro “franchising”, composto por 6 filmes, o risco multiplica-se exponencialmente, e muito provavelmente iremos nos aperceber que a fórmula está gasta, não valendo a pena continuar.

Surpreendentemente, Tsui Hark teve o grande mérito de fazer com que as películas da saga “Era Uma Vez na China” mantivessem uma certa frescura, e que à medida que ia aparecendo um novo filme, igualmente existisse algo de renovador e que fixasse o interesse. E é por esta razão que “Era Uma Vez na China III” consegue ser um filme razoável, e que nos prende um pouco a atenção. É certo que não se pode comparar aos primeiros dois episódios da saga, mas sempre se aproveita alguma coisa.

O pano de fundo histórico continua a ser o mesmo. Estamos perante uma China que se está a abrir para as potências ocidentais, em nome da modernização. No entanto, as grandes potências mundiais da altura, pretendem na realidade dominar o país e aproveitar ao máximo as riquezas e a mão-de-obra que o mesmo tem para oferecer. Isto leva às naturais clivagens sócio-culturais, e os sentimentos nacionalistas florescem. Como já foi aludido aquando da crítica ao primeiro e segundo filme, a saga “Era Uma Vez na China” tem um pendor fortemente nacionalista, usando para o efeito um dos principais heróis populares chineses, Wong Fei Hung. Desta vez, são os russos que andam a urdir conspirações e para aumentar um pouco o interesse, os chineses têm acesso pela primeira vez a mais uma inovação tecnológica, a máquina de filmar.



"Fei Hung Vs. Pernas de Trovão"

Vamos agora ao renovador, as lutas. É certo que mantêm o mesmo pendor tradicional, sustentado por cabos e por acrobacias impossíveis. No entanto, o que é interessante é que sempre se consegue inovar qualquer coisa, dentro do já previamente estabelecido. E neste filme, Tsui Hark resolveu usar e abusar da espectacular dança do leão para introduzir mais alguns golpes dignos de se ver, reinventando assim, de alguma forma, o estilo. Jet Li aparece numa forma espectacular, e longe de qualquer repreensão no que toca à parte mais física da actuação. De facto, no que toca às artes marciais, os anos ’90 foram sem dúvida a época de ouro do actor. Favorece muito o espectro da acção, a participação do actor Xiong Xin Xin, que apesar de não ser dos intérpretes mais conhecidos no que toca ao cinema asiático, é fabuloso nas cenas de kung-fu. Gostei imenso do seu papel em “The Blade”, e aqui o homem volta a demonstrar que tem uns excelentes golpes para vender, e um jogo de pernas do melhor que há. Aqueles pontapés são demais!

Outro factor de extremo interesse e que causa alguma pasmo, tem a ver com a relação romântica mantida entre “Fei Hung” e a prima “Yee”. Existe um evoluir considerável, fazendo com que “Fei Hung” perca a timidez e finalmente decida avançar para o casamento. A pressão exarada pelo vilão “Tomanski” contribui para o facto. O que é verdadeiramente de nos deixar siderados é que “Fei Hung” é beijado na boca pela prima “Yee”! Porquê que o espanto é tanto? Meus amigos, em quantos filmes vocês se lembram de ver Jet Li a ser mais audaz nas cenas mais apaixonadas? O homem é extremamente púdico nestas questões, e as más-línguas costumam afirmar que a influência da esposa Nina Li não é alheia a este facto. Mas quando nos deparamos com Rosamund Kwan a “espetar” um “chocho” na boca de Li, a surpresa emerge automaticamente.

Oferecendo-nos mais uns grandes momentos de artes marciais, “Era Uma Vez na China III” é indicado para os fãs do género, em especial para aqueles que apreciam o trabalho de Tsui Hark nesta saga que viria a marcar uma posição incontornável no espectro de Hong Kong.



"A dança do leão"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 6

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,38




terça-feira, novembro 13, 2007

Era Uma Vez na China II/Once Upon a Time in China II/Wong Fei Hung ji yi: Naam yi dong ji keung - 黃飛鴻之二男兒當自強 (1992)

Origem: Hong Kong

Duração: 107 minutos

Realizador: Tsui Hark

Com: Jet Li, Rosamund Kwan, Donnie Yen, Max Mok, David Chiang, Xiong Xin Xin, Zhang Tie Lin, Yen Shi Kwan, Paul Fonoroff, Ho Ka Kui

"Wong Fei Hung"

Estória

“Wong Fei Hung” (Jet Li), acompanhado da sua paixão platónica a “Prima Yee” (Rosamund Kwan), e do seu discípulo “Foon” (Max Mok), dirige-se para a grande cidade de Cantão, tendo em vista participar numa conferência sobre duas vertentes da medicina, a ocidental e a chinesa. Cantão encontra-se em polvorosa, devido à seita do “Lótus Branco”, uma organização que é contra a presença dos estrangeiros na China, e que recorre à violência extrema para impor as suas ideias. O seu chefe é um sacerdote chamado “Kung” (Xiong Xin Xin), que supostamente é invencível.

O congresso de medicina é atacado pelo culto, e “Fei Hung” consegue sair ileso, fazendo amizade com um médico chinês, que não é nada mais nada menos que “Sun Yat Tsen”, o futuro fundador da república chinesa (e seu primeiro presidente) e responsável pela queda do imperador.

"A prima Yee"

“Tsen” anda a ser perseguido pelo regime imperial manchu, aqui personificado pelo comandante “Lan” (Donnie Yen). “Fei Hung” decide mais uma vez pôr cobro à injustiça reinante, e decide ajudar “Tsen” a chegar a Hong Kong, tendo em vista continuar o seu trabalho revolucionário. Pelo caminho, irá confrontar-se tanto com a seita do “Lótus Branco”, assim como terá de por cobro às atrocidades de “Lan”.

"O comandante Lan"

"Review"

Após os eventos ocorridos no primeiro filme, o carismático realizador Tsui Hark e a super-estrela Jet Li continuam uma das mais famosas epopeias de artes marciais a ver a luz do dia. E ao contrário do que sucede muitas vezes, a sequela não se saiu mal, diga-se de passagem. É para muitos considerada a melhor película da série, e diga-se em abono da verdade, não andarão muito longe da realidade, embora se reconheça que exista um ou outro aspecto que o primeiro episódio levará a melhor. O contrário também acontecerá.

Um dos itens que terá de se relevar será certamente o facto de termos um vilão à altura de Jet Li, ou seja, outra grande estrela de Hong Kong, o mítico Donnie Yen. Neste aspecto em particular, Tsui Hark teve a sageza de “emendar a mão” em relação ao primeiro filme. Podemos aqui ver um emocionante duelo protagonizado pelas duas lendas do cinema asiático, e garanto-vos que as expectativas não saem defraudadas. A forma como Donnie Yen transforma uma simples toalha numa arma mortífera, que cria especiais problemas a Jet Li, é praticamente inesquecível. O duelo veria a ser reeditado dez anos mais tarde em “Herói”, a obra-prima de Zhang Yimou. No entanto, seria particularmente injusto do meu ponto de vista não fazer uma especial apologia ao actor Xiong Xin Xin, que representa o maléfico líder da seita do “Lótus Branco”. A luta protagonizada com Jet Li consegue grandes momentos de espectacularidade e de tirar a respiração. É certo que o papel de Xiong Xin Xin acaba por ser um tanto ou quanto reduzido a nível de minutos, mas o combate vale bem o papel do actor. Não chega ao nível evidenciado por Xin Xin em “The Blade”, mas é de aplaudir.

"Wong Fei Hung luta contra o líder da seita Lótus Branco"

Subtraindo os costumeiros embaraços e tensão sentimental entre “Fei Hung” e a “Prima Yee” (aqui mais explorada), o “comic relief” que no primeiro filme estava entregue às personagens “Toucinho” e “Favolas”, interpretados por Kent Cheng e Jacky Cheung, respectivamente, fica nesta longa-metragem a cargo de Max Mok, o actor que dá vida a “Foon”, o discípulo de “Fei Hung”. Max Mok não se sai mal, e consegue a certa altura provocar alguns momentos de boa disposição. No entanto, é minha opinião pessoal que não chega a evidenciar o nível demonstrado por Kent Cheng e Jacky Cheung no episódio anterior, devido ao carisma dos actores em questão. Outro aspecto menos positivo na actuação de Max Mok, passará pela inevitável comparação com Yuen Biao, o actor que interpretava “Foon” em “Era Uma Vez na China”. Tinha referido, aquando da crítica ao primeiro filme, que os fãs de Yuen Biao podiam ficar um pouco desiludidos, pois o actor não demonstrava todas as suas potencialidades que indiscutivelmente possui a nível das artes marciais. Mas quando olhamos para Max Mok, sentimos saudades de Yuen Biao, pois aquele não parece nem de longe, nem de perto um bom “side kick” de Jet Li. Valha-nos, como já acima foi relatado, a presença de Donnie Yen e Xiong Xin Xin, para que as cenas de acção tenham brilho. E de facto possuem bastante!

A vertente nacionalista chinesa continua a marcar a sua presença, pois afinal “Wong Fei Hung” representa acima de tudo a defesa do tradicional modo de vida da nação oriental. No entanto aqui temos uma abordagem distinta da efectuada na primeira película e que passa sobretudo pelos meios como obtemos os resultados que pretendemos. A seita do “Lótus Branco” luta pelo mesmo objectivo de “Fei Hung”, a saber, a emancipação e conservação da cultura chinesa. No entanto, o culto envereda pela violência desmesurada e injustificada, enquanto que o nosso herói tudo faz para impor as suas ideias de uma forma honrada. A tensão floresce, como era de esperar, e “Fei Hung” acaba por ter de partir para o combate com os seus próprios conterrâneos, em ordem a salvaguardar valores que para si são intocáveis. Não será demais relembrar que no primeiro filme havia um conflito com outro mestre de artes marciais, mas tal se justificava pela primazia dos executantes, ou seja, averiguar qual dos dois seria o melhor. Era reconhecido, pelo menos implicitamente, que o principal inimigo eram os ocidentais que pretendiam enriquecer à custa do tráfico de escravos. No entanto, nesta película é mantido o pendor nacionalista, com o abominar do regime manchu e a introdução de uma das personagens mais emblemáticas da história da China moderna. Nada mais, nada menos que Sun Yat Tsen!

Quanto ao remanescente, “Era Uma Vez na China II” mantém muito do que já tinha sido transmitido pelo filme anterior, que resumidamente poderá ser reconduzido à continuação de uma saga que marcaria para sempre o mundo das artes marciais, constituindo um dos melhores trabalhos da carreira de Tsui Hark.

"Luta de titãs:Wong Fei Hung (Jet Li) Vs. Lan (Donnie Yen)"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,63







quinta-feira, outubro 18, 2007

Swordsman/Xiao ao jiang hu - 笑傲江湖 (1990)

Origem: Hong Kong

Duração: 115 minutos

Realizadores: King Hu, Ching Siu Tung, Ann Hui, Andrew Kam, Tsui Hark, Raymond Lee

Com: Sam Hui, Cecilia Yip, Jacky Cheung, Fennie Yuen, Sharla Cheung, Yuen Wah, Lam Ching Ying, Lau Siu Ming, Lau Shun, Wu Ma

"Ling Wu Chung"

Estória

No tempo da dinastia Ming, vive o espadachim “Ling Wu Chung” (Sam Hui), um homem um tanto ou quanto irresponsável, que só pensa em mulheres, diversão e música. “Ling “ é encarregue pelo seu mestre “Ngok” (Lau Siu Ming), numa missão que consiste em entregar uma mensagem a outro mestre de artes marciais aliado. Na demanda é acompanhado por “Kiddo” (Cecília Yip), uma rapariga que se veste como um homem e que tem fantasias com “Ling”.

Uma missão que tinha tudo para ser fácil, transforma-se numa verdadeira aventura, quando o duo se vê envolvido num fogo cruzado pela posse de um pergaminho, que quando apreendido o seu conteúdo, dará ao seu detentor poderes sobrenaturais, que o permitirão dominar o mundo das artes marciais.

"Kiddo e Ling, o duo inseparável"

No entanto, “Ling” e “Kiddo” não estão sozinhos face às adversidades encontradas, porquanto são ajudados pela organização “Sun Moon Sector”, chefiada por “Ying” (Sharla Cheung) e que tem em “Blue Phoenix” (Fennie Yuen) um dos seus melhores combatentes.

Numa série de volte faces, “Ling” aprende uma nova técnica do manejo da espada, e prepara-se para o confronto final com uma pessoa que ele pensava poder confiar, o seu próprio mestre!

"Ying e Blue Phoenix, as principais figuras do Sun Moon Sector"

"Review"

Quem escolhe o “wuxia” como um dos seus géneros de eleição, sabe perfeitamente que “Swordsman” é um filme muito importante para o segmento, nem que seja pelo facto de servir de prequela para “Swordsman II”, e integrar a famosa trilogia que definitivamente havia de marcar, quer se goste quer não, uma época. O epílogo haveria de ser com “The East Is Red”, uma película que nasceu essencialmente devido à grande popularidade que a personagem “Asia, the Invincible”, interpretada por Brigitte Lin, granjeou. Tanto “Swordsman II”, como “The East Is Red” já foram aqui abordados, pelos que escuso-me a tecer mais considerações. A opinião já foi dada, e até hoje mantém-se. Sendo assim, adiante que o caminho é para a frente, embora estando a falar de um “wuxia”, será inevitavelmente para todos os lados e mais alguns, com o auxílio de guindastes e trampolins!

Um dos aspectos que chamará desde logo ao leitor mais atento é o número de realizadores que consta na ficha do filme acima descrita. Nada menos do que seis! Outras opiniões são divergentes quanto ao número de realizadores. Contudo, é praticamente unânime que pelo menos quatro tiveram intervenção directa no filme. A celeuma essencialmente gira à volta da relevância do trabalho de Ann Hui e Andrew Kam. A razão para a prolífica quantidade de intervenientes na realização da película que ora se analisa deu azo a algumas especulações que se centraram essencialmente no tema tão querido dos críticos em geral e que se chama “divergências artísticas”. A explicação oficial traduziu-se no facto do lendário realizador da Shaw Brothers, King Hu, ter adoecido, e por essa mesma razão, ter sido necessário proceder à sua substituição. O certo é que o produtor Tsui Hark, o verdadeiro timoneiro do filme, “dividiu o mal pelas aldeias”, e para além da sua própria pessoa, ter chamado à batalha outros realizadores emblemáticos do género.

O mérito principal de “Swordsman” passará sobretudo por nos elucidar acerca de certos aspectos presentes em “Swordsman II” e que passam essencialmente pelo seguinte: i) o estilo peculiar e eficiente do manejo da espada praticado por “Ling”; ii) como este se tornou aliado do “Sun Moon Sector”; iii) a razão pela qual “Ling” e os seus companheiros decidem retirar-se do mundo das artes marciais; iv) as incidências relacionadas com o pergaminho sagrado, que mais tarde viria a ser a fonte de poder de “Ásia, the Invincible”.
E por último, e quanto a mim o mais importante, a origem do inesquecível hino da saga “Swordsman”, a melodia intitulada “Hero of the Heroes”.
O que no fundo quero dizer é que “Swordsman” constitui uma película que merecerá o visionamento pelos seus aspectos informativos e explicativos. Claro que é essencial ver os outros dois episódios da saga, em especial o segundo.

"Ling em sarilhos com saias"

Comparando o elenco deste filme, com o seu sucessor, a primeira ideia a reter é que apenas Fennie Yuen e Lau Shun transitaram para “Swordsman II”. O “cast” do segundo filme é, do meu singelo ponto de vista, incomparavelmente mais forte, ou não estivéssemos a falar da introdução das verdadeiras lendas Brigitte Lin e Jet Li. Esta diferença de executantes reflecte-se visivelmente na interpretação e na aura que rodeia ambos os filmes, ou seja, “Swordsman II” é uma película superior.
Em “Swordsman”, o protagonista é Sam Hui, uma estrela do “Cantopop”, cujos únicos aspectos verdadeiramente positivos que traz ao filme é uma exemplar interpretação da música “Hero of Heroes” e a simpatia inegável que consegue transmitir ao espectador. O resto, com todo o respeito, fica algo a desejar. Aliás, a escolha de Sam Hui para o papel de um herói num filme de “Wuxia”, foi bastante criticada à altura, porquanto o actor-cantor não possui conhecimentos no domínio das artes marciais. Embora até concorde com a crítica, será também justo dizer o seguinte: até parece que hoje em dia isso ainda não acontece ?

No resto, é o habitual. Muitos voos, a rapariga vestida de rapaz, os romances encapotados, o objecto que supostamente fará com que alguém se torne invencível, a comédia muitas vezes dispicienda e descartável, o costumeiro vilão que por acaso é um eunuco para não variar, blá, blá,blá, etc, etc, etc…

“Swordsman” é um filme com uma relevante importância histórica e alguns momentos bem conseguidos, constituindo um exemplo o hábil manejo de répteis venenosos em situações de luta. O resto é trivial, já foi visto bastantes vezes e muito mais não há a acrescentar.

"O combate final"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 6

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 7

Emotividade - 7

Mérito artístico - 7

Gosto pessoal do "M.A.M." - 6

Classificação final: 7







sexta-feira, outubro 05, 2007

The Blade/Dao - 刀 (1995)

Origem: Hong Kong

Duração: 105 minutos

Realizador: Tsui Hark

Com: Vincent Chiu, Xiong Xin Xin, Moses Chan, Sang Ni, Collin Chou, Austin Wai, Valerie Chow, Michael Tse, Jason Chu, Chi Fai Chan, Ray Chang, Ricky Ho, Charles Shen, Nei Suet

"On Man, o espadachim inválido"

Estória

“On Man” (Vincent Chiu ) é um órfão que trabalha numa fundição de espadas, e que tem como melhor amigo “Iron Head – Cabeça de Ferro” (Moses Chan). A filha do mestre da fábrica, a sonhadora “Ling” (Sang Ni), está apaixonada tanto por “On”, como por “Iron Head”, e imagina os dois a lutar pela sua mão, casando-se a rapariga com o vencedor.

Certo dia, os dois amigos assistem a uma luta violenta entre um monge e um bando de salteadores, em que o monge sai vencedor. Posteriormente, à traição, o religioso é assassinado pelos bandidos. Esta situação gera uma enorme revolta em “Iron Head”, que jura vingança sobre os criminosos. Nesse mesmo dia, “On” descobre a verdade acerca do seu passado. Pelos vistos, o seu pai foi assassinado pelo grande mestre “Fei Lung” (Xiong Xin Xin), um assassino facilmente distinguível por ter o corpo todo tatuado. “On”, na ânsia de vingar o progenitor, abandona a fundição, acompanhado pela espada partida que havia pertencido ao pai. “Ling” persegue-o e acaba por ser vítima duma emboscada. “On” salva “Ling”, mas no meio da refrega, perde o braço direito, tornando-se num inválido.

"Fei Lung, o assassino tatuado"

Os guerreiros da fundição de espadas pensam que “On” morreu, mas na realidade o rapaz encontra-se a recuperar num local distante. Farto de ser tratado como um diminuído, “On” reaprende a lutar tendo em conta o seu “handicap”, sendo auxiliado por um livro que contém informações sobre técnicas avançadas de “swordplay”.

“Lei Fung”, o assassino do pai de “On” é contratado para matar todos os elementos da fundição de espadas, incluindo “Ling” e “Iron Head”. “On” descobre o plano de “Lei Fung” e decide enfrentá-lo num combate sangrento e sem limites!

"A prostituta"

"Review"

Dao é uma palavra que serve para ilustrar uma espécie de sabre chinês, conhecido igualmente por facão/facalhão chinês, devido à largura da sua lâmina. Foi este o título que o aclamado realizador asiático Tsui Hark escolheu para o filme que ora se analisará um pouco e que constitui um “remake” do clássico do director Chang Cheh “The One Armed Swordsman”, datado de 1967. Apesar de ser passível de enquadramento no género “Wuxia Pian”, “The Blade” não se assemelha bastante aos seus irmãos do género e da década de ’90. Isto quer dizer que não estejam à espera de visionar um filme na linha de “Swordsman II” ou “New Dragon Gate Inn”.

Esta chamada de atenção valerá sobretudo para os combates que decorrem em “The Blade”, que estão envoltos numa aura bastante mais realística e sangrenta, sem grandes auxílios de cabos. Aliás, é bastante interessante ver cenas como “On Man” a treinar com uma corda amarrada à cintura, de forma a manter o equilíbrio e adaptar-se ao combate como um diminuído (como foi descrito na sinopse, ele não possui o braço direito). Outro pormenor em que se denota uma greve ao “wire fu”, é quando “Fei Lung”, o principal vilão da estória, usa uma corda para saltar de um telhado para o chão, aquando do início do combate final na fundição das espadas. Hark pretendeu introduzir um registo bem menos fantasioso e incomparavelmente mais violento, sendo por vezes um pouco visceral. Ao deparar-me perante tal realidade, confesso que me lembrei mais do género de combates mais típicos do “chambara” japonês, do que propriamente do “wuxia” de Hong Kong, tal é o “terra a terra” impregnado. O efeito final foi extremamente bem conseguido, e não tenho dúvidas nenhumas em afirmar que o combate que decorre no epílogo entre o aleijado “On Man” e “Fei Lung” constitui um dos grandes momentos da história do cinema de artes marciais. Um verdadeiro fenómeno, acreditem, e só passível de ser plenamente compreendido quando visto!

"Iron Head"

“The Blade” possui igualmente uma atmosfera cerceante que em certos momentos me fez lembrar “Ashes of Time”, embora com diferenças importantes. O ambiente muito “western” e trágico, acompanhado por diversas reflexões de índole mais ética e filosófica, que servem de palco à violência geral, fizeram-me pugnar por esta comparação. Os principais pensamentos a reter serão sem dúvida a animosidade infundada que por vezes grassa no mundo e que conduz à tragédia, assim como o facto de alguém que à partida poderá ser um ser fragilizado, poderá, de um momento para o outro, mediante certas condições, transcender-se. O próprio conceito de herói, imprescindível em qualquer “wuxia” que se preze, aqui é tratado de uma forma mais negra e crua. Não há tempo para grandes feitos de “cavalaria”. Apenas existe espaço para o sofrimento e vingança! A própria narrativa e as técnicas de realização assemelham-se em muito à aclamada obra do realizador Wong Kar Wai. É claro que considero “Ashes of Time” um filme de mais elevada qualidade que “The Blade”, embora este último a nível dos combates se superiorize infinitamente. Mas só pelo facto de me atrever de alguma forma a confrontar “The Blade” com “Ashes of Time”, servirá de indício para expressar que a película de Tsui Hark transpira qualidade!

É no mínimo curioso que um filme com a magnitude e a importância para a cinematografia asiática, como “The Blade”, possua um elenco de intérpretes um tanto ou quanto secundário. Aqui não temos nenhum Jet Li, Sammo Hung, Yuen Biao, Brigitte Lin, Joey Wong, etc, etc, etc. O nome que porventura será mais sonante será o do protagonista Vincent Chiu, dotado de uma carreira respeitável na cinematografia de Hong Kong, mas a milhas dos actores mencionados. Mesmo assim, Tsui Hark foi feliz na escolha dos actores, pois todos estão à altura das suas responsabilidades. Vincent Chiu faz o papel de uma carreira e Xiong Xin Xin, o vilão, está óptimo e excelentemente caracterizado.

Para muitos “The Blade” constitui sem sombra de dúvidas o melhor registo do realizador Tsui Hark. Sinceramente, julgo que não andarão muito longe da verdade.

A constar obrigatoriamente em qualquer colecção de amantes de “swordplay” e afins. É um “não-fã” de Tsui Hark que o diz!

"Fei Lung e On Man enfrentam-se num sangrento duelo"

Trailer, The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português: Fanaticine

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13