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domingo, novembro 22, 2009

Chungking Express/Chung Hing sam lam - 重庆森林 (1994)

Capa

Origem: Hong Kong

Duração aproximada: 102 minutos

Realizador: Wong Kar Wai

Com: Tony Leung Chiu Wai, Faye Wong, Takeshi Kaneshiro, Brigitte Lin, Valerie Chow, Chen Jinquan, Guan Lina, Huang Zhiming, Zhen Liang, Zuo Songshen, Lynne Langdon

A mulher da peruca loira 2

“A misteriosa mulher da peruca loira”

Sinopse

“He Zhiwu” (Takeshi Kaneshiro) é um polícia que vive um desgosto amoroso, considerando que a sua paixão “May” o abandonou. O seu sofrimento leva-o a desenvolver uma estranha obsessão por datas de validade, que exterioriza alimentando-se de ananás enlatado cuja expiração ocorre no dia 1 de Maio. Chegado à data em questão, “He Zhiwu” promete a si próprio que se irá apaixonar pela primeira mulher que encontrar num bar. Depara-se com uma estranha personagem, de óculos escuros e cabeleira loira (Brigitte Lin), que irá, por momentos, conferir-lhe uma nova perspectiva de vida.

He Zhiwu e a mullher da peruca loira 2

He Zhiwu e a sua estranha paixão”

O “polícia 663” (Tony Leung Chiu Wai) igualmente anda com os seus problemas de ordem romântica. A sua namorada, uma hospedeira do ar (Valerie Chow), deixou-o e o sentimento de solidão começa a destruí-lo por dentro. No entanto, o polícia é amado sem saber por “Faye” (Faye Wong), uma empregada de um estabelecimento de comida rápida chamado “Midnight Express”. Incapaz de demonstrar directamente o seu amor, “Faye” entra na vida do “polícia 663” de uma forma original.

Faye

Faye dança ao som de Califonia Dreamin´”

“Review”

“Se a minha memória dela tiver um prazo de validade, que seja de dez mil anos...”. É com esta “tagline” que “Chungking Express” se apresenta ao espectador, estando criado o mote para um dos filmes mais fascinantes acerca de uma temática que julgo ser cara a qualquer ser humano, o amor. Dez mil anos em muitas culturas é um número que reflecte o conceito de “para sempre”. Isto para dizer que a frase que ilustrou inicialmente o debutar do filme que ora se propõe analisar um pouco, visa no fundo evidenciar o conceito de memórias de paixão que se pretendem ver eternizadas. Mesmo que as mesmas sejam dolorosas. Wong Kar Wai rodaria “Chungking Express” no mesmo ano em que daria a vida a outra película de eleição. Falo de “Ashes of Time”, a única incursão do realizador no “wuxia”. Aliás, “Chungking Express” seria o produto do descanso do realizador de Hong Kong, quando o mesmo recuperava da grande exigência e esforço despendido no seu épico de artes marciais. A feitura da película foi num tempo recorde, mais ou menos três meses, e o resultado redundou num desafogo financeiro, principalmente depois de “Ashes of Time” não ter sido bem aceite pelo público em geral.

Tendencialmente enquadrado em algo que nos faz lembrar “pop art”, Kar Wai propõe-se a nos apresentar uma história de paixão e emoções, onde os intervenientes são pessoas na casa dos vinte e muitos anos e que tem por pano de fundo uma Hong Kong no limiar da transição para a soberania chinesa. A ânsia em viver as emoções ao máximo, parece se coadunar com uma miríade de situações. Desde o estabelecimento de um qualquer prazo para a duração de uma relação intensa, ou evidenciar uma crítica política subtil no sentido de a entrega do território à China ser uma eventual expiração da validade das liberdades individuais, incluindo a de experienciar o amor ao máximo. Salvo melhor opinião, sempre considerei “Chungking Express” como a obra que estabeleceu definitivamente Kar Wai como uma certeza e um autor de eleição. Ou sendo um pouco mais lírico, como o poeta do amor, do romance, do sonho, das cores e das emoções. À semelhança de praticamente todas as obras do autor, a natureza individual do ser humano e a sua interacção sentimental constitui o cerne da trama. As personagens principais do filme vivem um rodopio na maneira como lidam com o sentimento de perda, que parece por vezes estranha, para não dizer alienada, mas que causa um certo sentido de familiaridade. E neste aspecto, Kar Wai acerta no alvo em cheio. Não pretendendo, como aliás também é seu timbre, manter um ritmo coerente no argumento, o objectivo é fazer com que o espectador encontre, por si só, algo muito íntimo e com o qual se consiga identificar.

Como seria de esperar, ou não estivéssemos a falar de um filme de Kar Wai, “Chungking Express” rebenta a escala em estilo. O uso das cores e da fotografia é algo quase impossível de descrever em palavras, e julga-se que é daquelas coisas que só vendo para acreditar. O uso da técnica de filmagem, ora em acelerações de imagem, ou num costumeiro “slow motion”, confere uma apreciável dinâmica que se interliga de uma forma bastante feliz com os demais aspectos da película. O apresentar intencional de imagens enevoadas, ou a filmagem no meio do bulício de Hong Kong, onde muitos dos transeuntes não fazem a mínima ideia de que uma película está a ser rodada, faz com que a aura mágica se interpenetre com a realidade quotidiana, num resultado muito satisfatório, diferente mas muito envolvente. A nível da trama, existe alguma descompensação, porquanto o segmento Tony Leung Chiu Wai/Faye Wong é mais longo, perceptível e regra geral melhor que o de Takeshi Kaneshiro/Brigitte Lin, embora se possa reconhecer que este último talvez esteja dotado de mais profundidade.

Beijo

Um beijo ardente”

A fenomenal banda-sonora merece aqui um pequeno parágrafo. Entre alguma música étnica e “reggae” de entretenimento auditivo bastante apreciável, somos presenteados com uma versão cantonesa de “Dreams” dos “The Cranberries” que resulta muito bem, e se enquadra às mil maravilhas no ambiente geral do filme. Mas os momentos verdadeiramente divinais, e não apenas por ser uma preferência pessoal, é a saturação de “California Dreamin'”, dos Mamas and Papas. São inesquecíveis os momentos em que Faye Wong dança no “Midnight Express”, embrenhada no seu mundo bastante pessoal. O inesquecível êxito dos anos 60, que pontificou em muitas películas por esse mundo fora, confere grandiosidade e faz Faye Wong ainda brilhar mais.

Os actores exibem-se num plano muito elevado, ou não estivéssemos a lidar com um “cast” extremamente forte. Pessoalmente, aprecio imenso a forma como Kar Wai dirige os intérpretes dos seus filmes, retirando o que de melhor têm para dar. E embora aprecie imenso as actuações nesta obra de Tony Leung Chiu Wai, Takeshi Kaneshiro, Brigitte Lin e Valerie Chow, há que reconhecer que Faye Wong está absolutamente divinal. A actriz exibe uma personagem alienada, que nas suas próprias palavras, ouve música em volume alto, pois assim inibe-se de pensar. Wong passeia classe pela tela e deixa-nos siderados com o seu sonho íntimo, as suas actuações aparentemente incompreensíveis e a maneira como se intromete na tortura pessoal de Tony Leung Chiu Wai, é algo digno de se ver. E por vezes questiono-me como é que Faye Wong, que já demonstrou ter grandes capacidades como actriz, não entrou na esfera das super-estrelas, à semelhança de uma Maggie Cheung ou de uma Gong Li?

Destilando sensualidade por todos os poros e com um manancial de frases emblemáticas inesquecíveis, “Chungking Express” mantém-se até hoje como uma das maiores obras do realizador Wong Kar Wai e um verdadeiro marco do cinema mundial. Há quem considere mesmo que se estará presente perante o produto mais forte que, até hoje, Kar Wai deu vida. Eu não concordo, mas percebo bem as válidas razões de quem produz tal afirmação. Sendo um maravilhoso exemplo “new wave”, explora efectivamente os meandros dos corações desolados e de uma certa alienação e depressividade urbana. É certo que as poucas cenas de acção parecem algo atabalhoadas, mas é preciso interiorizar que o objectivo deste filme não é expôr qualquer trama criminosa, ou enveredar pelo diapasão de movimento exagerado. “Chungking Express” é um romance com cariz muito pessoal, e o seu maior trunfo será sempre a exposição de várias perspectivas do amor , e a percepção directa da sua magia. Já agora, e como é discernido do filme, será que fazer demasiado exercício, como “jogging”, faz-nos desidratar tanto, que não restam lágrimas para derramar?

Imperdível para qualquer fã de cinema e da beleza!

O polícia 663 e a hospedeira

O polícia 663 e a hospedeira”

imdb Nota 8.0 (15.154 votos) em 22/11/2009

 

Outras críticas em português:

  1. Additional Camera
  2. Sítio da Bela Lua

Avaliação:

Entretenimento – 7

Interpretação – 9

Argumento – 8

Banda-sonora – 10

Guarda-roupa e adereços – 8

Emotividade – 9

Mérito artístico – 9

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 8

Classificação final: 8,50

quarta-feira, junho 24, 2009

Ashes of Time Redux (2008)

Origem: Hong Kong

Duração: 93 minutos

Realizador: Wong Kar Wai

Com: Brigitte Lin, Leslie Cheung, Maggie Cheung, Tony Leung Chiu Wai, Jacky Cheung, Tony Leung Ka Fai, Li Bai, Carina Lau, Charlie Yeung

"Ouyang Feng e Hung Chi"

Introdução

Como deve ser do conhecimento de muitos que visitam este espaço, “Ashes of Time Redux” não difere muito do original “Ashes of Time”, tratando-se de uma versão melhorada em termos de imagem e outros aspectos relacionados com a produção. É certo que existem alguma subtracções e adições feitas por “Redux”, que darei conta abaixo. Mesmo assim, embora algumas sejam importantes, decidi não elaborar um texto feito à imagem do normal no “My Asian Movies”. Sendo assim, a sinopse infra é a mesma que consta no artigo que elaborei acerca de “Ashes of Time” há três anos atrás. Na “review”, abordarei sobretudo e de uma forma sumária, as diferenças entre ambas as versões, tentando emitir a minha opinião pessoal. Optei igualmente desta vez, por não atribuir a costumeira pontuação, pois entendo que, também neste particular, não deveria fazer uma autonomização das duas obras, sob pena de desvirtuar o pensamento de Wong Kar Wai. A crítica original encontra-se AQUI.

"Huang Yaoshi Aka Evil East"

Sinopse

"Ouyang Feng" (Leslie Cheung), também conhecido sob a alcunha de "Malicious West", é um proprietário de uma taberna situada no meio do deserto. Trata-se de um homem morto emocionalmente, devido ao casamento do seu irmão mais velho com a mulher que ama (Maggie Cheung). Vive do seu negócio e da contratação de espadachins necessitados de dinheiro, tendo em vista a perpetração de assassinatos por encomenda. Estranhas pessoas chegam à taberna, cada qual com a sua história que normalmente converge para a tragédia pessoal. Podemos acompanhar "Huang Yaoshi" (Tony Leung Ka Fai), cujo nome de batalha é "Evil East", um dotado homem da espada, cuja atitude cavalheiresca perante o mundo, a vida e o amor, deixaram-lhe um rasto de remorso e recriminação.

“Murong Yang” (Brigitte Lin), por seu lado, é um jovem em busca de vingança sobre “Evil East”, por este ter abandonado a sua irmã “Murong Yin”. Esta, por sua vez, deseja a morte do irmão, por este andar a tentar matar a sua paixão “Evil East”. “Yin” e “Yang” acabam por revelar serem a mesma pessoa, completamente destroçada pela rejeição de “Evil East” e incapaz de encontrar um caminho para a paz interior. Problemas trágicos são demonstrados por outros elementos da história, desde o espadachim cego (Tony Leung Chiu Wai) que é contratado para liquidar um bando de salteadores e cujo último desejo antes de falecer e ver o desabrochar das flores de cerejeira (em sentido figurado, pois tal serve para designar a esposa) na sua terra-natal, passando pelo assassino de bom coração “Hung Chi” (Jacky Cheung) que não gosta de usar sandálias, acabando na jovem e pobre rapariga camponesa (Charlie Yeung) que tenta comprar vingança com um cesto de ovos e uma mula.


"O espadachim cego"

"Review"

Precisamente 14 anos depois, o mestre Wong Kar Wai decidia dar um novo corpo ao seu único registo do “Wuxia”, e pessoalmente o meu filme predilecto do valioso espólio cinematográfico do realizador. Desde já se aplaude esta revisita, pelo restauro com a qualidade que esta magnífica obra merece. Como já tinha aludido no meu texto de 2006, e passo a citar “é francamente uma enorme injustiça não existir no mercado uma edição em DVD decente à disposição do público. As existentes são de má qualidade, e tornam-se um verdadeiro crime quando estamos perante uma obra desta envergadura.” Com “Ashes of Time Redux”, o problema fica resolvido, pois com a ajuda do insuspeito Christopher Doyle temos agora à disposição uma edição em condições de ser visionada e admirada. Contudo, existem outros aspectos igualmente importantes, que julgo não terem tomado a direcção correcta.

A principal crítica dirige-se aos cortes que o filme levou, dos quais eu nunca vou perdoar a remoção do grito de sofrimento dado por Brigitte Lin na famosa cena do lago, acompanhado pela música emblemática que associávamos sempre a “Ashes of Time”. Aliás, esta melodia, tal como a conhecíamos, foi removida de vez em “Redux”, notando-se contudo alguma da sua influência nos novos arranjos musicais. Existem outras retiradas e adições, tais como as duas primeiras cenas de luta, pelo que a primeira vez que nos deparamos com os salteadores é o único combate em que está envolvido “Ouyang Feng”, a personagem interpretada por Leslie Cheung. Aproveitando para me referir às cenas mais movimentadas, em “Redux” as lutas são mais perceptíveis, embora neste particular continue a imperar alguma confusão desenfreada. É definitivamente o grande calcanhar de aquiles desta película, como também já tinha aludido no meu anterior texto.


"Ouyang Feng e Murong Yang"

Uma adição que se saúda é o “flashback” relativo à noite do casamento da apaixonada de “Feng”, corporizada em Maggie Cheung, que é mais completa e envolvente do que na versão original. Outra inovação de assinalar, passa pelo derradeiro combate do espadachim cego, interpretado por Tony Leung Chiu Wai, em que Kar Wai opta ora por cortar o som, ou distorcê-lo, assim como tornar a cena mais escura de forma a simbolizar a perda de visão do protagonista. O efeito, sem margem para qualquer dúvida, embrenha mais o espectador na tragédia pessoal da personagem. O sangue carmim, bastante vívido, a jorrar da garganta do espadachim faz o resto. A propositada saturação de cores que predomina em “Redux”, faz com que o filme seja mais estilizado e bonito à vista, aspecto que era extremamente prejudicado pela pobreza de tratamento da versão original. Outro aspecto que é de relevar, passa pelo facto de a grande senhora do cinema asiático, Brigitte Lin, poder debitar agora o seu próprio diálogo em mandarim. Na primeira versão, as falas da actriz eram dobradas para cantonês, havendo alguma detestável dessincronização entre os movimentos da boca e o som. Aqui, felizmente, isto já não se passa.

Sem desprezar os bons predicados que o novo tratamento a “Ashes of Time” mereceu, julgo que o melhor teria sido fazer uma simples, mas efectiva recuperação a esta pérola da sétima arte. “Redux” parece ter sido uma película feita mais para os fãs de Kar Wai, pós - “In The Mood for Love/2046”, desligando-se por vezes do espírito original da obra. Por mim, tudo se mantinha, apenas a imagem e o registo do som eram melhorados. As adições seriam bem-vindas, mas apenas para complementar o que já de bom existia. Quanto à banda-sonora, deixava-a precisamente como estava na versão original, principalmente devido à “tal” música inesquecível, e se possível tentava introduzir de uma forma lógica, o fabuloso violoncelo de Yo Yo Ma que perdura maravilhosamente em “Redux”. Façam pois o favor de confrontar as duas versões, e depois cada um diga de sua justiça! Acima de tudo o que interessa, é que o cerne da questão continua presente: o efeito das tristes memórias passadas na nossa vida presente, e a agonia que as alimenta e as cicatriza no íntimo do nosso ser...

Confiram, nem que seja para observarem o grande e malogrado Leslie Cheung, num dos papéis mais brilhantes da sua carreira!



"Luta no rio"

The Internet Movie Database (IMDb) link - Refere-se à versão originária de "Ashes of Time"

Trailer

Outras críticas em português:

segunda-feira, maio 11, 2009

Red Cliff II/Chi bi xia: Jue zhan tian xia (2009)

Origem: China/Hong Kong

Duração: 142 minutos

Realizador: John Woo

Com: Takeshi Kaneshiro, Tony Leung Chiu Wai, Zhang Fengyi, Chang Chen, Vicky Zhao, Hu Jun, Li Ching Ling, Shido Nakamura, You Yong, Song Jia, Tong Dawei, You Yong, Ba Sen Zha Bu, Zhang Jingsheng, Zhang Shan, Shi Xiaohong, He Yin

"Zhou Yu indica o caminho para a batalha"

Alerta!

“Red Cliff II” é a segunda parte da saga de John Woo, iniciada com “Red Cliff”. Pelo exposto, só deverá ler o presente texto, caso tenha visto o primeiro filme, sob pena de “spoilers”. Contudo, para quem já visionou a película predecessora, o texto anteriormente escrito acerca da mesma poderá ser um importante complemento ao presente neste "post".

Sinopse

O primeiro-ministro do império Han “Cao Cao” (Zhang Fengyi) prepara-se para atacar as forças combinadas do sul, lideradas pelo vice-rei “Zhou Yu” (Tony Leung Chiu Wai) e “Zhuge Liang” (Takeshi Kaneshiro). A refrega acontecerá na fortaleza do “Precipício Vermelho”, no rio Yangtzé. “Cao Cao” tem razões para se sentir confiante, pois as suas forças são infinitamente superiores a nível de homens e logística. Para piorar a situação, e tendo em vista minar a moral do exército aliado, “Cao Cao” envia aos seus inimigos embarcações cheias de soldados mortos infectados com febre tifóide. Este movimento provoca uma epidemia na fortaleza sitiada, e “Liu Bei” (You Yong) decide partir com o seu exército, temendo a morte dos seu povo. A aliança finda, e o vice-rei “Zhou Yu” fica apenas com as forças de Wu estimadas em cerca de 30.000 homens, que terão de lutar contra os mais de 800.000 que “Cao Cao” tem sobre o seu comando.

"Xiao Qiao entrega-se ao inimigo"

Contudo, “Zhuge Liang” (Takeshi Kaneshiro) recusa partir, e decide lutar ao lado do exército de Wu, numa batalha à partida supostamente perdida. As movimentações de ambas as partes começam, e chega o dia do desequilibrado mas inevitável confronto, onde o futuro dos reinos do sul será decidido.

"O intrépido Gan Xing"

"Review"

Após uma primeira parte que muito prometeu, e onde John Woo parece ter voltado aos bons velhos tempos, agora no registo do épico, chega a altura de “Red Cliff II”, onde ficaremos a saber o destino dos heróis da fortaleza do “Precipício Vermelho” e o desfecho da monumental batalha que se avizinha. Supostamente, e em virtude desta premissa, será de pensar que o mais espectacular teria sido deixado para o fim. Na minha opinião, não foi isso que aconteceu, mas tal constatação não é necessariamente má. Digamos, em abono da verdade, que tudo foi bem repartido, tornando “Red Cliff II” um excelente complemento do primeiro filme, e as duas partes da saga, um épico que com certeza perdurará na memória. “Red Cliff II” começa com uma ligeira súmula dos principais acontecimentos ocorridos em “Red Cliff”, de forma a que nos situemos no enredo, e já agora é-nos oferecido um interessante jogo de “Cuju”, uma forma primitiva de futebol, que muito me fez lembrar os jogos que costumava praticar na escola quando me aventurava no ensino primário e básico.

Embora como já foi aludido, Woo se aventure por um género distinto daquele que o celebrizou, o épico proporciona ao realizador exteriorizar características bastante marcantes do seu estilo próprio. Temas como honra, a amizade e objectivos/desafios aparentemente impossíveis de cumprir são profusamente tratados nesta película, fazendo com que a emoção e o heroísmo marquem bastantes pontos. Como seria de esperar, e apesar de possuir quase duas horas e meia de duração, a acção de “Red Cliff II” é regra geral, mais intensa que no seu predecessor. É natural que assim seja, pois em “Red Cliff” era necessário dar um enquadramento geral da trama, de forma a que o espectador percebesse efectivamente o que estava em causa. Quando refiro que a acção é mais intensa em “Red Cliff II”, não me refiro tanto aos momentos individualmente considerados, mas numa perspectiva de maior continuidade.

"Liu Bei e Zhuge Liang"

Do meu ponto de vista, a primeira parte possui um tratamento superior no que toca ao combate individual dos intervenientes. Mesmo com um ou outro auxílio de cabos e guindastes, assistimos a momentos verdadeiramente espectaculares, que fazem lembrar do melhor que já se fez a nível do “wuxia”. Em “Red Cliff II”, embora possamos vislumbrar algum atributo técnico dos litigantes, a lógica belicista funciona mais em conjunto. É-nos apresentado momentos grandiosos, no que toca a batalhas em grande escala. Assistimos a um confronto naval onde o sangue, e os elementos fogo, terra e água misturam-se num “cocktail” explosivo e imponente. Na razão de ser principal desta película, ou seja, a batalha do “Precipício Vermelho”, Woo introduz a estratégia militar perceptível mas efectiva, o sempre bem-vindo tema do sacrifício por algo maior do que nós, e a costumeira irmandade que unem os protagonistas perante situações críticas. E sim, é verdade! Woo não prescinde do seu habitual “standoff” final. Em jeito de conclusão deste ponto, sempre direi que a acção está mais presente do que no primeiro filme, que por força da sua conjuntura a difundia de uma forma mais esparsa.

Os actores repetem o bom registo da primeira parte, e parecem quase todos terem amadurecido nos seus papéis. Tony Leung Chiu Wai e Takeshi Kaneshiro cumprem o que lhes é pedido numa saudável concorrência interna, sem desligar dos aspectos mais conducentes à irmandade na guerra. Vicki Zhao, encantadora como sempre, brilha no ecrã. Shido Nakamura, um actor que pessoalmente aprecio imenso, é o verdadeiro reflexo do combatente feroz que não vacila nas horas difíceis e que se prontifica a tudo para que a empresa seja bem sucedida. Saúda-se o maior protagonismo da actriz Ling Chi Ling em “Red Cliff II”, que adiciona mais "glamour" à película. “Xiao Qiao” afigura-se uma aparente Helena de Tróia orientalizada, quando é espalhado o rumor que afinal a razão para “Cao Cao” provocar o conflito, passa por desejar ardentemente a mulher do vice-rei “Zhou Yu”. De uma forma heróica e aparentemente votada à tragédia, “Xiao” contribui para o esforço de guerra ao se entregar voluntariamente ao primeiro-ministro, de forma a fazer com que o mesmo cometa erros que muito poderão ditar o resultado final da batalha.

Com a saga “Red Cliff”, Woo afirmou ter cumprido o sonho de uma vida, que era fazer um épico de grande dimensão acerca de um evento importante da história chinesa. O resultado final redundou numa fita de eleição, que deverá figurar nas obras importantes do cinema asiático do século XXI. Imune às críticas de alguns puristas, que afirmaram que a segunda parte da película desviou-se um tanto ou quanto de um maior rigor histórico, é-nos oferecida acção, intriga, sacrifício, amor, heroísmo, honra, tudo ingredientes que o realizador ama e que apaixonam os fãs dos seus filmes. Acima de tudo, o grande mérito de “Red Cliff” e principalmente “Red Cliff II” é serem o reflexo do que o seu criador tem de melhor. Aguardamos ansiosamente a próxima obra!

Seja pois muito bem vindo de novo ao oriente, Mr. Woo!

"Sun Shangxiang"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 10

Emotividade - 8

Mérito artístico - 9

Gosto Pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,50





quinta-feira, abril 23, 2009

Hard Boiled/Lat sau san taam - 辣手神探 (1992)

Origem: Hong Kong

Duração: 122 minutos

Realizador: John Woo

Com: Chow Yun Fat, Tony Leung Chiu Wai, Teresa Mo, Philip Chan, Philip Kwok, Anthony Wong, John Woo, Kwan Hoi Shan, Tung Wei, Bowie Lam, Lo Meng, Bobby Yeung, Ng Shui Ting

"Long procede a um massacre"

Sinopse

Hong Kong está a viver um período particularmente violento, com uma onda de assassinatos e de tráfico de armas relacionada essencialmente à actividade das tríades. Directamente ligado a estes factores, está o “Tio Hoi” (Kwan Hoi Shan), um dos maiores patrões da máfia, que tem uma visão tradicional e trata os seus subordinados como família próxima. No entanto, o seu principal rival “Johnny Wong” (Anthony Wong), um jovem tubarão, consegue captar “Long” (Tony Leung Chiu Wai) para as suas hostes e elimina “Hoi”, tomando conta desta forma de todo o negócio de tráfico de armas da zona. Acontece que “Long” é na realidade um polícia infiltrado, que há anos tenta reunir informação suficiente para desmantelar as actividades criminosas que primeiro “Hoi” e agora “Wong” levam a cabo.


"Tequila no rescaldo de mais um tiroteio"

No outro lado da barricada encontra-se o inspector “Tequila Yuen”, um polícia extremamente dedicado, mas com uma propensão para transformar tudo num inferno de violência quando entra em acção. O seu principal objectivo passa por findar com as actividades criminosas de “Wong”. Através de algumas peripécias, “Long” e “Tequila” acabam por unir esforços e conjuntamente partir para uma sangrenta cruzada contra o mais perigoso líder das tríades de Hong Kong.

"Long e Tequila num frente-a-frente"

"Review"

“Hard Boiled” constituiu a despedida de John Woo do cinema de Hong Kong, antes do seu prolongado êxodo por terras do “Tio Sam”, onde viria a realizar um ou outro trabalho de qualidade, mas a maior parte de mérito discutível. Diz-se à boca miúda que o facto de “Hard Boiled” ter tido mais sucesso nos Estados Unidos, do que em Hong Kong, terá constituído um factor decisivo para que Woo tivesse decidido emigrar. Pelos vistos, o realizador não se conformou com as críticas à violência usada em “Hard Boiled”, assim como o facto de este filme não ter repetido os resultados de bilheteira de trabalhos anteriores. Tendo sentido que já tinha perdido o seu público, ou pelo menos, que a fórmula de sucesso estava esgotada, Woo fez as malas e partiu à aventura pelo ocidente. Contudo, como o “bom filho à casa retorna”, Woo presentemente está de novo em Hong Kong, onde tenta entrar em grande com o seu épico dividido em duas partes “Red Cliff”.

Em jeito de adiantamento de uma possível conclusão, sempre se poderá afirmar que na minha opinião, Woo despediu-se em beleza da sua terra-mãe, realizando um “gun-fu” na verdadeira acepção da palavra. É certo que os conceitos presentes em “Hard Boiled” não são muito inovadores em relação aos trabalhos anteriores do realizador, mas o que é certo é que a mística está toda lá. Com a costumeira frase emblemática que neste caso se reconduz a “In this world, the one with the gun always wins!”, o filme ostenta um respeitável número de indivíduos mortos na ordem dos 307!!! Um verdadeiro massacre que grassa nas ruas e prédios de Hong Kong, que a ser realidade geraria um estado de sítio na actual região administrativa e que abriria páginas de telejornais por todo o mundo! Com duelos de antologia, onde são usadas um manancial distinto de armas (muitas delas importadas e supervisionadas pela polícia local), “Hard Boiled” acaba por ser o filme de Woo onde este aspecto se encontra mais presente! Incrível, não?! Se pensávamos por exemplo que “The Killer” ou “A Better Tommorrow” tinham sido cruzadas de violência, com “Hard Boiled” Woo quebraria as suas próprias fronteiras.

"Tequila protege um bébé"

E como também é costume nos filmes do realizador, o melhor (se é que se pode usar a expressão) estaria guardado para a fase final da película. À semelhança de um videojogo, Chow Yun Fat e Tony Leung Chiu Wai marcham para um confronto sem limites, onde o pano de fundo é um hospital. Mas ao contrário do que um estabelecimento de saúde poderia indicar, daqui quase ninguém sairá ileso e muitos farão uma viagem sem retorno para a morgue. Temos acção para todos os gostos! Desde montes de estilhaços de vidros quebrados pelo deflagrar das balas ou pelos embates intervenientes, passando pelas mortes em catadupa dos vilões, dos polícias ou dos infelizes dos pacientes. Inclusive, num assomo criativo bastante interessante, temos uma sala cheia de bebés que se encontram em permanente perigo com toda a sangrenta confusão que degenera em redor.

John Woo em “Hard Boiled” viria a ter uma orientação distinta no que toca aos seus costumeiros heróis. É necessário compreender que os anteriores filmes de Woo elegiam como protagonistas foras-da-lei, ligados ao crime organizado de Hong Kong. Este factor moveu-lhe algumas críticas, pois alguns entendiam que se estava perante uma apologia da delinquência, o que constituia uma má influência para a juventude. Woo decidiu nesta longa-metragem enfatizar o trabalho da polícia. Em decorrência, temos um Chow Yun Fat a rebentar de carisma, no papel do inspector “Tequila” (que muitos defendem ser baseado numa pessoa real), um agente da autoridade que adora jazz e não precisa de muitas desculpas para puxar do gatilho. Fat aparece em grande plano numa das suas melhores fases da carreira, e que inclusive a Empire consideraria uma das 100 melhores personagens de sempre da história do cinema (33º lugar - Ver AQUI). Tony Leung Chiu Wai exterioriza uma personagem que anos mais tarde viria a repetir no fabuloso “Infiltrados”, ou seja, o da toupeira da polícia numa tríade. É certo que as performances não podem ser comparáveis, pois o papel de Tony Leung no filme da dupla Andrew Lau/Alan Mak é mais dotado de profundidade e de uma representação mais cuidada. Mas é necessário ter presente que os tempos eram outros e o requisitado era distinto. Mesmo assim, estamos a falar de um actor que deixa sempre uma marca bastante especial em quase todos os trabalhos que representou ao longo da sua vida, e este é bastante satisfatório. Junte-se uns soberbos Anthony Wong e Philip Kwok (este com um pendor moralista interessante), os vilões da história, e estamos perante uma fórmula de sucesso no que toca ao elenco.

“Hard Boiled” é um hino ao “gun fighting”, para além de significar verdadeiramente o seu apogeu. Tira-nos a respiração, é anti-tédio ao extremo e representa tudo o que de melhor o cinema de John Woo nos deu na sua brilhante caminhada pela cinematografia de Hong Kong nos anos '80 e início de '90. É certo que a sua capacidade de inovação não é de relevar, pois em certos aspectos acaba por ser mais do mesmo. Igualmente poder-se-á afirmar que não possui o brilhante romantismo heróico de “The Killer”, ou a dimensão épica de “Bullet in the Head”. Contudo, é inolvidável que no respeitante à acção e ao estilo imaginativo, “Hard Boiled” dá cartas aos baralhos, sendo praticamente imbatível neste aspecto. Também é necessário salientar que não é todos os dias que temos a oportunidade de ver esses dois brilhantes actores asiáticos, Chow Yun Fat e Tony Leung Chiu Wai, a contracenar num resultado de aclamar.

Obrigatório!

"Saraivada de balas"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 7

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 10

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,38





domingo, março 01, 2009

Bullet in the Head/Die xue jie tou - 流血街角 (1990)

Origem: Hong Kong

Duração: 13o minutos

Realizador: John Woo

Com: Tony Leung Chiu Wai, Jacky Cheung, Waise Lee, Simon Yam, Fennie Yuen, Yolinda Yam, Lam Chung, Chang Gan Wing, Leung Biu Ching, John Woo

"Stand off entre os 3 amigos"

Sinopse

No ano de 1967, “Ben” (Tony Leung Chiu Wai), “Frank” (Jacky Cheung) e “Paul” (Waise Lee) são três jovens amigos, que vivem da delinquência nas ruas de Hong Kong. No dia em que “Ben” decide casar-se com “Jane” (Fennie Yuen), “Frank” e “Paul” decidem pedir um empréstimo, de forma a pagar o enlace daquele a quem consideram um irmão. Contudo, “Frank” é atacado por um gangue rival e, embora consiga salvar o dinheiro, fica ferido com alguma gravidade. Despeitado com a agressão ao amigo, “Ben” não se deixa ficar e assassina o responsável na própria noite do seu casamento.

"Ben"

Devido ao crime que cometeu e à perseguição que a polícia lhe move, “Ben” e os seus dois amigos são forçados a partir para Saigão, a capital de um Vietname do Sul em guerra com o seu vizinho do norte. O azar não acaba por aqui, pois umas mercadorias ilegais que transportavam para “Leong” (Lam Ching) perdem-se devido a um ataque “vietcong”. Felizmente, os amigos recebem uma preciosa ajuda do mercenário eurasiático “Luke” (Simon Yam) que resolve o imbróglio que os amigos se meteram. No entanto, e devido a uma tentativa de salvar “Sally” (Yolinda Yan), uma cantora de Honk Kong que se encontra nas mãos do mafioso “Leong”, um evento terrível sucede que irá pôr definitivamente em causa a amizade entre os três amigos e fará com que uma viagem pelos caminhos da vingança se inicie.

"Frank"

"Review"

Para muitos, considerada a grande obra-prima de John Woo, “Bullet in the Head” é um filme de certa forma diferente dos outros “gun fu” do realizador, possuindo uma aura mais negra e pessimista. Nesta fase importante da carreira de Woo, e pessoalmente a que entendo mais feliz, os seus “heroic bloodshed” seguiam uma premissa básica, mas extremamente atractiva para o espectador. Os heróis, normalmente polícias ou criminosos, são alvo de terríveis provações que os fazem embarcar numa cruzada para a vingança onde as sofisticadas armas de fogo ditam a lei. Existem valores sobejamente aprofundados nos argumentos, tais como a amizade e a honra, e são estas características que na hora da verdade, fazem a diferença para os protagonistas da trama, mesmo que a mesma redunde em tragédia. No fim, de uma forma ou de outra, os ícones de Woo acabam sempre por dar a volta por cima e vencer o inferno que atravessam.

“With a gun in the hand, this world is ours”. Esta é uma das frases emblemáticas que a personagem “Paul”, interpretada por Waise Lee, profere em determinada fase da película e tão típica das obras de Woo. Tal afirmação sintetiza às mil maravilhas o espírito que cerceia este extraordinário período da carreira do realizador de Hong Kong. Contudo, “Bullet in the Head” não é uma longa-metragem que se possa afirmar completamente tributária de obras como “The Killer”, A Better Tomorrow” ou “Hard Boiled”, e cujo espírito se reconduzia inteiramente ao que acima afirmei. A obra que ora se analisa não permite qualquer veleidade no sentido da típica redenção. As personagens avançam na trama, transmitindo quase sempre a sensação que caminham numa estrada sem retorno. Não vale a pena termos a esperança que a amizade ou o heroísmo vão salvar o dia, pois tal inevitavelmente não acontecerá. A ambiência negra é despoletada pelos piores sentimentos que existem dentro de nós, e que mediante certas circunstâncias, no caso vertente a ambição, são despoletadas. Tendo em conta esta premissa, “Bullet in the Head” tem um impacto psicológico e uma profundidade superior à maior parte do espólio cinematográfico de Woo. Não existe nenhum tipo de desiderato heróico ou romântico, em que pessoas unem-se num objectivo comum para pôr cobro a qualquer injustiça. Está claro, isso sim, que a mensagem principal desta película é que quando tudo tem de correr mal, vai desembocar em tragédia pela certa! A ânsia pelo poder corrompe, mesmo entre amigos que são como irmãos, e já não existe lugar para qualquer tipo de generosidade Estamos pois, perante uma longa-metragem impregnada de um pessimismo latente e atroz. E por incrível que pareça, a beleza de “Bullet in the Head” e um dos seus pontos fortes, passam por estas ideias.

"Frank, um estranho Hamlet"

Outro motivo de bastante interesse, presente em “Bullet in the Head” passa pelos aspectos laterais relacionados com a época e as regiões onde a trama decorre. No sentido de elevar os seus filmes para uma outra dimensão, Woo aposta um pouco em factos históricos importantes. A acção em Hong Kong decorre na época em que existiram os famosos motins pro-comunistas e anti-colonialismo britânico, inspirados na revolução cultural chinesa. Tal desembocou em greves massivas e conflitos que decorreram nas ruas, cujas partes litigantes foram essencialmente o proletariado e a polícia daquela região. Por sua vez, na parte do filme que decorre em Saigão (actual cidade de Ho Chi Minh), inevitavelmente a guerra do Vietname terá de marcar uma presença acentuada. Embora tal não seja alvo de um tratamento dito espectacular, até por que os meios não permitiam que Woo pudesse equiparar a película a uma produção de Hollywood, sempre temos a oportunidade de observar o espectro social e violento que degeneraram tanto na cidade, como nas recônditas selvas. Basta dizer que uma parte do enredo decorre num campo de prisioneiros, onde os amigos partilham as suas agruras com os “Pow's” norte-americanos e do exército regular sul-vietnamita.

As actuações dos actores revelam estar a um nível bastante acima da média, e Jacky Cheung em particular, oferece-nos uma interpretação assombrosa e espectacular. Fabuloso o excesso emocional que o actor desfila ao longo do filme, e que se destaca principalmente depois do infelicíssimo evento que norteará a sua vida até à destruição final. De todos os filmes que tive a oportunidade de observar Jacky Cheung a trabalhar, este é provavelmente aquele em que o famoso intérprete de Hong Kong explana o seu melhor papel de sempre! Quase que não existem palavras para descrever a força sentimental e alucinada que Cheung exibe no campo de concentração do exército do Vietname do Norte, ou após o seu infortúnio deambulando pelas ruas de Saigão.

Projectado no início como uma prequela de a “A Better Tomorrow”, as conhecidas desavenças entre John Woo e Tsui Hark haveriam de fazer com que “A Bullet in the Head” nascesse isolado da saga mencionada, e sem relação com aquela. Tsui Hark, por sua vez, um ano antes viria a realizar “A Better Tomorrow: Love & Death in Saigon”, tendo por pano de fundo a tomada de Saigão por parte do exército norte-vietnamita. Salvo o devido respeito, Woo viria a sair-se melhor. É certo que “Bullet in the Head” está longe de gerar consensos, dividindo bastante as opiniões. Como anteriormente mencionei, existe quem considere este filme o melhor momento do realizador em toda a sua profícua carreira. Outros deitam abaixo completamente esta ideia, pugnando pela obra mediana, distante de outras mais emblemáticas do realizador. Quanto a mim não reputaria "Bullet in the Head" como a longa-metragem mais significativa de John Woo, (para mim, essa ainda é “The Killer”) mas que anda lá perto disso não tenho dúvida praticamente alguma!

Absolutamente a não perder!!!

"Ataque norte-vietnamita a uma caravana americana"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 9

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,25





sábado, janeiro 24, 2009

Infiltrados III/Infernal Affairs III/Mou gaan dou III: Jung gik mou gaan - 無間道III: 終極無間

Origem: Hong Kong


Duração: 113 minutos


Realizadores: Andrew Lau e Alan Mak


Com: Tony Leung Chiu Wai, Andy Lau, Leon Lai, Kelly Chen, Daoming Chen, Eric Tsang, Anthony Wong, Chapman To, Berg Ng, Carina Lau, Sammi Cheng, Wan Chi Keung, Shawn Yue, Edison Chen, Gordon Lam, Waise Lee, Wan Yeung Ming


Atenção! Spoilers!!!


O presente texto diz respeito ao terceiro filme da conhecida saga de Hong Kong, denominada “Infiltrados – Infernal Affairs”. Pelo exposto, só deverá continuar a leitura caso tenha visto as duas primeiras películas, que possuem textos no “My Asian Movies”, AQUI e AQUI.


"Yan"


Sinopse

“Lau Ming” (Andy Lau) é ilibado de qualquer suspeita que recaia sobre si, respeitante à morte de “Yan” (Tony Leung Chiu Wai), o agente que a polícia tinha infiltrado na tríade de “Sam” (Eric Tsang). No entanto, a calma parece não ter chegado à sua vida, pois existem umas cassetes comprometedoras que contêm conversas entre as “toupeiras” da tríade e o seu líder “Sam”. Para piorar a situação, as gravações estão na posse de “Yeung” (Leon Lai), um inteligente inspector que desconfia das actuações de “Lau”.


"A Dra. Lee mira Yan"

“Lau” tenta provocar uma reviravolta, e voltar as suspeitas para o próprio “Yeung”, aproveitando as ligações obscuras que este mantém com “Shen” (Chen Daoming), um líder criminoso chinês. Paralelamente, somos confrontados com a vivência de “Yan” seis meses antes da sua morte, e a sua luta para sobreviver dentro da tríade, numa altura em que “Sam” parece desconfiar das verdadeiras intenções da toupeira da polícia. “Yan” trava conhecimento com “Yeung” e “Shen”, tendo contacto com revelações surpreendentes.


"O inspector Lau Ming"


"Review"

Como é do conhecimento daqueles que estão por dentro das lides do cinema oriental, Hong Kong tem uma profícua história de aproveitamento ao máximo de uma fórmula de sucesso. Esta premissa não é necessariamente positiva, pois muitas vezes embarca-se num deserto ou numa má exploração de ideias e ficamos com a sensação de que as sequelas nada trazem de novo, ou inovam de uma maneira que desilude os espectadores. Afinal quantas vezes é que pensamos ou ouvimos dizer expressões como “deviam ter ficado pelo primeiro filme”. No caso de “Infiltrados”, desnecessário será dissertar acerca da excelência da primeira longa-metragem. A segunda película, embora não estando ao nível da sua predecessora, constituiu um bom exercício da sétima arte. Chegamos pois à terceira e última obra. Que dizer então deste filme ?

O aspecto que à partida chamará mais à atenção é a verdadeira constelação de estrelas que constam do elenco. Em “Infiltrados III”, temos o retorno dos dois “monstros” de Hong Kong, Tony Leung Chiu Wain e Andy Lau. O regresso do primeiro é apenas possibilitado pela opção argumentativa de contar duas histórias em paralelo, intervindo “Yan” numa delas que ocorre seis meses antes da sua morte. Sem curarmos dos conhecidos Eric Tsang, Anthony Wong, Kelly Chen e muitos mais, temos a adição do “quebra-corações” Leon Lai e do emblemático Daoming Chen (que representou o imperador Qin em “Herói”). Com uma equipa tão forte como a reunida para este filme, seria quase impossível que os aspectos interpretativos não tivessem uma bitola elevada. Andy Lau destila classe pela película toda, factor que seria reconhecido pela crítica ao vencer o ´prémio para melhor actor na 41ª edição dos “Golden Horse Awards”. O chamamento às armas de Leon Lai e Daoming Chen foi bastante feliz, pois ambos enquadram-se muto bem na aura de “Infiltrados III”, com Lai a revelar-se um rival frio de Lau e perfeitamente à altura deste. Tony Leung é obrigado a evidenciar uma faceta mais romântica, que embora não lhe corra mal, destoa claramente do conturbado “Yan” que tão bem representou na primeira parte da saga.


"Shen"

Com efeito, a verdadeira utilidade de “Infiltrados III” será descobrirmos o destino final de “Lau”, e apercebermo-nos se efectivamente ele foi bem sucedido na sua redenção. E para entendermos bem a importância deste aspecto, convém nunca esquecer que apesar de “Lau” ser um infiltrado na polícia, a meio do caminho decide passar para o lado da lei e deixar para trás o seu passado criminoso. Simplesmente, a via pela qual optou foi a dissimulação, tentando apagar todas as provas que o ligassem à máfia local, mesmo que para o efeito tivesse de matar. Não houve uma escolha pela franqueza, em que “Lau” se revelaria às forças de autoridade como uma “toupeira” e arcasse as consequências por tal facto. Ele apercebe-se do seu ilícito modo de vida, e tenta começar de novo de uma forma imoral. No fundo, continua a ser uma pessoa que vive à margem da lei, mas de outra perspectiva. E, salvo melhor opinião, era neste campo que “Infiltrados III” deveria ter permanecido. O “flashback” prolongado relativamente a um período anterior à morte de “Yan”, essencialmente serve para percebermos onde Kelly Chen se situa na história (mesmo assim, torna-se uma adição discutível), e principalmente para entendermos a importância de “Yeung” e “Shen” no destino tanto de “Yan”, como de “Lau”. Mas o facto indiscutível, que serve para retirar alguma força ao filme, é nunca conseguirmos superar um facto evidente...”Yan” está morto e já não temos o herói incompreendido e trágico , que tanto apreciamos e a quem nos possamos agarrar. Deveriam deixá-lo a descansar em paz, a gozar o eterno sonho dos heróis anónimos. A persistência em focar mais alguns aspectos do passado de “Yan”, torna-se perigosa no campo das contradições. Se bem me recordo, “Sam” tinha uma confiança praticamente inabalável no infiltrado da polícia aquando da época em que o mesmo falece. Neste recuar, que recordo ser seis meses antes do trágico evento de “Infiltrados”, o modo de agir de “Yan” não cai nas boas graças de “Sam” e este frequentemente entrega-lhe missões que revelam ser autênticas armadilhas, algumas até mortais. Ora, este aspecto não se enquadra muito bem na trama, e quanto ao aparecimento de Carina Lau, no epílogo da película, prefiro nem sequer me pronunciar. Quem visionou “Infiltrados II”, percebe perfeitamente o que estou a dizer, pois “Mary Hon”, a mulher do “gangster” “Sam”, tinha falecido! Lembram-se a razão? Um atropelamento engendrado por um rival de “Sam”!!!

“Infiltrados III” é uma obra que poderá acima de tudo ser discutida quanto à sua própria razão de existir, que do meu ponto de vista se reconduzirá a termos contacto com o destino final de “Lau”. O único aspecto que não oferece grande margem de contenda para a maior parte dos cinéfilos, será a constatação que é o capítulo mais fraco da trilogia. Mas daí a responsabilidade de competir com as duas magníficas obras anteriores, para além do facto de ter sido realizada apenas três meses após a segunda parte, não era um facto fácil de superar. Contudo, os elementos que deram sucesso aos filmes predecessores estão todos lá, desde o costumeiro e interessante jogo do “gato e do rato”, até à aura ultra psicológica e depressiva que corre toda a película, aliviada desta vez com uma exploração um pouco mais intensiva do romance.

Um filme razoável, que deverá ser conferido sem alimentar expectativas desmesuradas!


"O superintendente Yeung"


Trailer


The Internet Movie Database (IMDb) link


Outras críticas em português:




Avaliação:


Entretenimento - 7


Interpretação - 8


Argumento - 7


Banda-sonora - 8


Guarda-roupa e adereços - 8


Emotividade - 8


Mérito artístico - 7


Gosto pessoal do "M.A.M." - 7


Classificação final: 7,50









quinta-feira, outubro 30, 2008

Red Cliff/Chi bi - 赤壁 (2008)
Origem: China/Hong Kong
Duração: 140 minutos
Realizador: John Woo
Com: Takeshi Kaneshiro, Tony Leung Chiu Wai, Zhang Fengyi, Chang Chen, Vicky Zhao, Hu Jun, Li Ching Ling, Shido Nakamura, You Yong, Song Jia, Tong Dawei, You Yong, Ba Sen Zha Bu, Zhang Jingsheng, Zhang Shan, Shi Xiaohong, He Yin
"O genial estratega Zhuge Liang"
Sinopse

No ano de 208, “Cao Cao” (Zhang Fengyi) o primeiro-ministro do imperador Han, convence este a declarar guerra aos senhores feudais do Sul da China “Liu Bei” (You Yong) e o duque de Wu “Sun Quan” (Chang Chen), afirmando falsamente que estes são traidores. Temendo “Cao Cao”, o monarca acede aos desejos deste e nomeia-o comandante de todos os exércitos, permitindo assim que este desencadeie o conflito.

“Liu Bei” e o seu povo conseguem escapar à justa após a batalha de Chang Ban, e refugiam-se numa fortaleza remota do reino. A sede de poder de “Cao Cao” está longe de ser saciada e este continua a progredir com o seu vasto exército. “Zhuge Liang” (Takeshi Kaneshiro), o genial estratega de “Liu Bei”, dirige-se aos domínios de “Sun Quan”, em ordem a solicitar a ajuda daquele no sentido de fazerem uma aliança militar contra os desígnios de “Cao Cao”. Com o auxílio do valente militar e principal conselheiro de “Sun Quan”, o vice-rei “Zhou Yu” (Tony Leung Chiu Wai), “Zhuge Liang” consegue a tão pretendida união de esforços.

"O vice-rei Zhou Yu"

Após uma grande vitória contra os exércitos terrestres de “Cao Cao”, as forças combinadas de “Liu Bei” e “Sun Quan”, concentram-se na fortaleza de “Zhou Yu” conhecida como “Precipício Vermelho” (“Red Cliff”) e aguardam o confronto decisivo com as imensas forças de “Cao Cao”, compostas por 800.000 homens e 3.000 embarcações de guerra.

"Review"

Após uma longa passagem por Hollywood, o mítico realizador John Woo decide voltar à terra-natal não para realizar mais um dos seus sensacionais “heroic bloodshed”, mas para se aventurar no género épico. Para o efeito, foi-se inspirar na batalha dos precipícios vermelhos, um conflito armado que ocorreu no fim da dinastia Han, mais precisamente no ano de 208, e que antecedeu o período conhecido como o dos “Três Reinos”. A sua localização exacta é alvo de intensa discussão académica, sendo certo apenas que a mesma se desencadeou algures no rio Yangtzé. John Woo, no sentido de conferir uma verdade histórica mais palpável à sua obra basear-se-ia na “Crónica dos Três Reinos”, um documento oficial escrito por um militar da época de seu nome Chen Shou. No entanto, é certo que Woo não seguiu escrupulosamente a sua fonte primária, e enveredou por uma compreensível romantização no sentido de tornar esta longa-metragem mais apelativa ao grande público. Mas isso é o que praticamente toda a gente faz, e não é nada a que não estejamos já habituados. Cumpre ainda referir que “Red Cliff” é o filme asiático mais dispendioso da história, com um orçamento que ronda os 80 milhões de dólares. Enquanto na Ásia o filme terá duas partes que em conjunto totalizarão mais de 4 horas, para o Ocidente será feito um único filme com duas horas e meia de duração. Como sou avesso a cortes na sala de edição, seguirei a linha escolhida para a Ásia, e dissertarei um pouco acerca da primeira parte, ansiando para que em 2009 tenha a oportunidade de partilhar o meu ponto de vista convosco acerca do epílogo desta película, consubstanciada na segunda parte.

"O primeiro-ministro do imperador Han, o ambicioso Cao Cao"

Os épicos asiáticos tendem a ser verdadeiramente grandiosos, não apenas em meios, mas igualmente em emoção, mensagem, sentimento e tudo aquilo que nós fãs do género prezamos com tanto coração. São estas características que normalmente os distinguem dos seus congéneres ocidentais, que muitas vezes são capazes de os superar na questão logística, mas que normalmente perdem aos pontos no que toca à envolvência transmitida ao espectador. Quem costuma visitar este espaço sabe que gosto de todos os géneros de cinema sem distinção, mas quando toca a puxar pelo pendor heróico “da coisa”, têm aqui um homem para o que der e vier. É por este mesmo motivo que os anos de 2007 e 2008, consubstanciaram-se numa possível época de ouro para mim, com a realização de um elevado número de longas-metragens que em potência poderiam preencher-me as medidas. Falo de “Warlords”, “The Forbidden Kingdom”, “Three Kingdoms: Ressurrection of the Dragon”, este “Red Cliff” e “An Empress and the Warriors”. É certo que muitas vezes a expectativa dá lugar à desilusão, e o último filme mencionado ficou bastante longe de ser algo memorável. Felizmente, o mesmo não se pode afirmar em relação a este que agora se analisa.

Os meios usados são, à falta de expressão melhor, verdadeiramente impressionantes e preenchem as medidas aos espectadores. Estamos a falar de centenas de figurantes, referindo só a título de curiosidade que o exército vermelho chinês cedeu 1000 soldados para intervirem no filme. A apresentação dos exércitos, assim como da frota de navios de guerra deslumbra ao máximo, mesmo que nos apercebamos que houve algum inevitável recurso a imagens geradas por computador. Junte-se a estas características um guarda-roupa, decoração, arquitectura e manancial bélico marcado pelo detalhe, acompanhado de paisagens e fotografia esplendorosa e...já está! Temos uma receita de sucesso, e meio caminho andado para que o filme seja um êxito garantido, com o necessário sucesso de bilheteira. Não esquecer ainda a competente banda-sonora do excelente compositor japonês Taro Iwashiro, cujo trabalho em “Shinobi: Heart Unde Blade” simplesmente adorei! Embora aqui não atinja um nível semelhante, consegue nos hipnotizar o suficiente para nos embrenharmos ainda mais na película.

"O exército de Liu Bei prepara-se para a batalha, com o poderoso general Guan Yu na dianteira"

Por sua vez, os combates estão bem conseguidos, tanto de um ponto de vista colectivo como individual. “Red Cliff” aqui não deixa mesmo os seus créditos por mãos alheias e consegue elevar mais ainda os seus índices de pujança visual, ou não estivéssemos a falar de John Woo, auxiliado pela coreografia engendrada por Corey Yuen. É muito agradável à vista observar os planos da batalha em que as forças aliadas adoptam uma estranha mas bastante efectiva formação de anéis de tartaruga, que enreda as forças de Cao Cao numa bem urdida armadilha. Mas o que ainda mais me agradou foram as performances individuais que se destacam no meio da contenda geral. Para a alegria de muitos e também a desilusão de outros tantos, Woo decidiu fugir ao combate clássico, e colocar alguns elementos mais próprios do wuxia, com auxílio de guindastes se tal fosse necessário, fazendo com que uma aura mística e lendária rodeie os guerreiros. Contudo, não se ouse pensar que a crueza encontra-se ausente! Quando é necessário atacar forte e duro, com bastante sangue à mistura, temos igualmente uma mão cheia de cenas para satisfação pessoal. Sob o signo da espectacularidade, em que Woo sempre quase viveu, consegue-se concretizar uma saudável mescla de ambos os estilos de combate que só vem elevar o filme, na minha humilde opinião.

Não foi isenta de atribulações a reunião do elenco para “Red Cliff”, e atendendo à expectativa que tinha acerca da película, foi uma situação que acompanhei um pouco, recolhendo informação pelos sítios da especialidade, à medida que a coscuvilhice se ia desenrolando. Originariamente, o conhecedíssimo actor Chow Yun Fat (um velho conhecido de John Woo) tinha sido recrutado para o papel do vice-rei Zhou Yu, uma das personagens mais emblemáticas da trama. Posteriormente, Yun Fat viria a recusar a participação, alegando para o efeito que tinha recebido o guião uma semana antes da rodagem começar e por esse motivo não ter possibilidades de se preparar convenientemente. Terence Chang, o produtor da película desmentiu veementemente este facto afirmando que a seguradora do actor tinha se oposto a 73 (?!) cláusulas do contrato do actor. Por sua vez, outro monstro do cinema asiático Ken Watanabe teria sido seleccionado para o papel do vilão do filme Cao Cao. Supostamente, e aqui entram os costumeiros nacionalismos, não foi bem visto o facto de uma personagem importante da história chinesa ser interpretado por um estrangeiro. O consagrado Zhang Fengyi viria a ganhar o papel. Por fim, o meu actor favorito Tony Leung Chiu Wai. No início estava-lhe destinada a representação de Zhuge Liang, do meu ponto de vista a figura mais importante desta obra. O actor viria a declinar, invocando a razão de estar esgotado devido às filmagens de “Lust, Caution”. Numa reviravolta que poucos perceberam, Tony Leung viria a retornar ao “cast”, desta vez para assumir o papel que estava destinado a Chow Yun Fat, ou seja o do vice-rei Zhou Yu. Zhuge Liang viria a ser entregue a Takeshi Kaneshiro, um actor que dispensa qualquer tipo de apresentação. O certo é que o “casting” final redundou numa verdadeira constelação de estrelas de grandes cinematografias asiáticas, a saber, da China, Hong Kong e Japão. E embora o resultado da representação pudesse ter sido melhor, atendendo à qualidade intrínseca dos intervenientes, nota-se que o binómio entretenimento/espectacularidade levou a melhor sobre qualquer tipo de possível interpretação transcendental. A realidade é que todos, sem excepção, cumprem o que lhes é pedido, e o resultado é muito bom.

É curioso, e ao mesmo tempo de relevar, que as personagens são apresentadas num estilo que em muito homenageia os grandes clássicos de wuxia e até do denominado “kung fu old school”, cuja trama principal versava sobre a luta de um grupo heróico de guerreiros contra uma qualquer força opressora dominante. Temos o estratega nato e a personificação da inteligência erudita em “Zhuge Liang”, a valentia honrada em “Zhou Yu”, a coragem escondida em “Sun Quan”, a irreverência na princesa “Sun Shangxiang” (interpretada pela sempre bela Vicki Zhao), todos apoiados por um manancial de guerreiros, cada um com as suas qualidades pessoais e de combate muito próprias e distintas. A sim à primeira vista, lembrei-me de “The Water Margin” (a série, pois nunca tive o prazer de ver o filme de Chang Cheh), protagonizada pelo actor japonês Atsuo Nakamura, e que há uns anos passou na “SIC Radical” (para os leitores que não vivem em Portugal, ou que não têm acesso aos canais portugueses, informo que é um canal de televisão).

Resta ainda referir que o costumeiro e inevitável fetiche das pombas de John Woo, encontra-se bem presente em “Red Cliff”. Os simpáticos bichos marcam a sua presença em algumas fases do filme, tais como na homenagem ao mensageiro de Wu que é morto por “Cao Cao”, numa clara manobra de intimidação contra os aliados ou na parte em que propõem o casamento da princesa “Sun Shangxiang” a “Liu Bei” de forma a cimentar mais a aliança. As pombas acabam por assumir uma papel mais interventivo na longa-metragem, não se assumindo apenas como um adorno decorativo ou simbólico, mas igualmente servindo como um meio de comunicação à distância entre os guerreiros.

Confesso que a primeira parte de “Red Cliff” deixou-me com água na boca, e correspondeu bastante às minhas expectativas. Estamos perante um filme que se se enquadra na melhor tradição dos épicos asiáticos, e que ainda consegue introduzir alguns elementos do wuxia que acentuaram mais a sua espectacularidade. Aguardemos então por 2009, na esperança que o melhor ainda foi deixado para a segunda parte, ou seja, a própria batalha decisiva do precipício vermelho, que promete ser um dos maiores confrontos épicos da história do cinema!

Muito bom!


"As forças aliadas atraem o exército Han para uma armadilha, usando a táctica dos anéis de tartaruga"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

  1. Viscera Blog
  2. Batto presenta...
  3. Noite Americana

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 10

Emotividade - 8

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,50