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segunda-feira, novembro 29, 2010

Mulan/Hua Mulan – 花木蘭 (2009)

Capa

Origem: Hong Kong/China

Duração aproximada: 114 minutos

Realizadores: Jingle Ma e Wei Dong

Com: Vicki Zhao, Aloys Chen (Chen Kun), Jaycee Chan, Hu Jun, Nicky Li, Yu Rong Guang, Lu Xujin, Vitas, Xu Jiao

Mulan

“Hua Mulan”

Sinopse

“Hua Mulan” (Vicki Zhao) é uma mulher que se disfarça de homem, de forma a tomar o lugar do seu pai “Hua Mu” (Yu Rong Guang), no exército do reino Wei, na guerra que se aproxima com os bárbaros Rouran. À medida que “Mulan” começa a ser extremamente bem sucedida no campo de batalha, uma paixão floresce no seu coração por “Weitan” (Aloys Chen), um general do exército Wei.

Wentai

“Weitan”

“Weitan” apercebe-se que para que “Mulan” atinja todo o seu potencial no campo de batalha, é necessário que a jovem se aperceba dos horrores da guerra, e em consequência disso, desaparece. Entretanto, o novo líder dos Rouran, o impiedoso “Modu” (Hu Jun) planeia uma invasão em larga escala, e “Mulan” terá de assumir o comando das forças de Wei para fazer face ao poderoso inimigo.

Wude

“Wude, o criado do líder dos Rouran”

Review”

“Hua Mulan” é uma heroína do folclore chinês que originalmente foi mencionada num poema do século VI, intitulado “A Balada de Mulan”. A lenda inspirou vários filmes, remontando o mais antigo a 1927, de seu nome “Hua Mulan Joins the Army”, do realizador Li Pingqian. Mas com certeza que quando o nome de “Mulan” é referido, virá à mente de quase todas as pessoas, a película de animação da Disney de 1998, que mereceu o epíteto da guerreira.

O realizador Jingle Ma, aqui auxiliado por Wei Dong, não reúne consensos na critica e público de Hong Kong, assim como no mundo dos apreciadores de cinema asiático em geral. Alvo de verdadeiras diatribes, Jingle Ma é visto por alguns como um puro “comercialista”, que dá corpo a películas de substância duvidosa. Quanto a nós, iremos por uma posição um pouco mais intermédia, reconhecendo que somos apreciadores por exemplo de “Fly Me to Polaris”, e duvidamos com propriedade de algumas outras obras de gosto bastante duvidoso.

Mulan e Wentai

“Mulan e Weitan”

Desta vez, e em jeito antecipação, iremos situar “Mulan”, no plano das boas obras de Jingle Ma, ideal para um público que não seja demasiado exigente com os pormenores e que se deixe seduzir pelos elementos mais apreensíveis do cinema, o que não é necessariamente mau. A história de “Mulan” é tremendamente popular entre os chineses e inevitavelmente teria de ser adaptada várias vezes para o grande ecrã. Nesta versão, existe uma grande incidência sobre os sentimentos da guerreira, sendo nos dado a observar os seus anseios, medos, inultrapassável coragem e, não fosse este um filme de Jingle Ma, a sua descoberta do amor. Para a envolvência presente em “Mulan”, muito contribui o desempenho da belíssima Vicki Zhao, que consegue praticamente transportar o filme aos seus ombros, conseguindo um saudável equilíbrio entre a faceta dura e a vulnerável da personagem. A película capta a atenção em muitos momentos, e muito certamente não defrauda os sentidos. Embora o detalhe histórico seja algo secundarizado, em detrimento da faceta mais pessoal de “Mulan”, não faltarão alguns momentos belicistas do agrado dos amantes do épico, possuindo os mesmos uma qualidade apreciável. Desde as batalhas em grande escala, apoiadas pelo guarda-roupa bem urdido e as paisagens como um bonito pano de fundo, até ao velho diapasão de questionar se existem guerras justas, existirão motivos de sobra para manter os espectadores minimamente interessados em seguir esta longa-metragem até ao seu epílogo.

Dotado de um inegável pendor comercial, “Mulan” acaba por constituir uma agradável surpresa, que dá alguns pontos à seriedade de Jingle Ma, enquanto realizador, embora apoiado neste desiderato em particular por Wei Dong. Com uma banda-sonora quase de antologia e uma grande emotividade, não se espere contudo uma obra do firmamento maior da aliança China/Hong Kong, que permaneça nos anais da história. Aguarde-se, isso sim, por um bom filme, ao nível de muitos que por aí deambulam, e cuja existência tem algum razão e significado. Pelo menos, até ao próximo “remake” ou versão.

Aconselhável!

Mulan 3

“Mulan comanda o exército de Wei”

imdb6.3 em 10 (986 votos) em 29 de Novembro de 2010

Avaliação:

Entretenimento – 8

Interpretação – 7

Argumento – 7

Banda-sonora – 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade – 9

Mérito artístico – 7

Gosto pessoal do “M.A.M.” – 7

Classificação final: 7,75

sexta-feira, julho 17, 2009

Origem: Índia
Duração: 213 minutos
Realizador: Ashutosh Gowariker
Com: Hrithik Roshan, Aishwarya Rai, Punan Sinha, Sonu Sood, Kulbhushan Kharbanda, Suhasini Mulay, Ila Arun, Shaji Chowdhari, Nikitin Dheer, Visswa Badola, Raza Murad, Yuri, Rajesh Vivek, Pramod Moutho, Sayed Badrul Hasan, Indrajeet Sarkar, Pramathesh Mehta, Disha Vakani
"O imperador Akbar"

Sinopse

No século XVI da nossa era, “Jalaluddin Mohammad Akbar” (Hrithik Roshan) é o grande imperador dos Mughal e o governante mais poderoso do Industão. Depois de ter consolidado o seu império no Hindu Kush, Akbar estende as suas fronteiras do Afeganistão até à baía de Bengala, e doa Himalaias até ao rio Narmada, dominando desta forma um vasto território. Tendo em vista consolidar ainda mais o seu poder político e militar, e de forma a forjar uma aliança entre duas culturas e religiões distintas, “Akbar” aceita a proposta do rei Rajput “Raja Bharmal” (Kulbhushan Kharbanda) que passa por casar com a filha deste chamada “Jodhaa Bai” (Aishwarya Rai).


"A princesa Jodhaa Bai"

Mal imagina “Akbar”, que um casamento feito por estrita conveniência, cedo se tornará numa jornada para um grande amor. “Jodhaa” é uma mulher destemida e de convicções fortes, que se recusa a ser um mero peão numa jogada política. Resiste aos avanços iniciais de “Akbar”, fazendo com que o monarca tenha de travar a maior batalha da sua história. Mas Akbar é um vencedor, e através de uma reflexão sobre vários aspectos da sua vida pessoal e política, descobre o caminho para o coração da bela “Jodhaa”.

"Orando"

"Review"

Ashutosh Gowariker, o realizador que nos trouxe o premiadíssimo “Lagaan”, parece ter alguma queda para o épico, apesar da sua algo que curta carreira como realizador, pelo menos a julgar pelo número de filmes que constam no seu currículo. “Jodhaa Akbar” foi o grande vencedor dos últimos “Filmfare Awards”, realizados este ano num conhecido hotel luxuoso de Macau, tendo arrebatado quase todos os principais prémios, mormente para melhor filme, melhor realizador e melhor actor principal. O brilho só poderia ter sido maior se a estonteante Aishwarya Rai tivesse levado para casa o galardão para melhor actriz principal, e o inevitável A.R. Rahman o de melhor director musical. Não foi isso que aconteceu, mas o saldo afigura-se como francamente positivo. Fica bem ainda referir que no Festival Internacional de cinema de São Paulo, essa grande cidade do país irmão Brasil, “Jodhaa Akbar” acabaria por ser considerado o filme estrangeiro preferido da audiência, tendo obtido o respectivo reconhecimento por tal facto. Acima de tudo, há que reconhecer que a película que presentemente é objecto de análise do presente texto tem causado muito “frisson”. Será merecido? Já vos darei conta da minha opinião, até porque confesso que a minha expectativa em visionar esta longa-metragem era imensa.


“Jodhaa Akbar” é acima de tudo duas coisas: um épico e uma história de amor. Doutra perspectiva, igualmente correcta, poderá ser passível considerar-se como uma história de amor épica. Como qualquer longa-metragem que pretenda, de forma directa ou indirecta, narrar eventos históricos, alguma celeuma acaba sempre por surgir. Quando estamos a falar da Índia, uma nação assente numa pluralidade étnica e religiosa bastante acentuada, que degenerou (a) em vários conflitos, o risco de tal suceder aumenta exponencialmente. Mesmo com Gowariker a admitir que cerca de 70% do argumento é ficcionado e da sua autoria pessoal, académicos atacaram este filme afirmando que Jodhaa Bai nunca foi esposa do imperador Akbar, mas sim do seu filho Jahangir. O erro teria nascido do livro subscrito pelo tenente-coronel inglês James Tod, intitulado “Annals and Antiquities of Rajasthan”. Os Rajput, por sua vez, também não gostaram da forma como foram retratados em “Jodhaa Akbar”, tendo a exibição do filme sido proibida nos estado de Uttar Pradesh, Rajasthan, Haryana e Uttarakhand. Tais actos levaram a uma batalha judicial entre os produtores do filme e os grupos de Rajput indignados, tendo o Supremo Tribunal da Índia ordenado aos governos provinciais que levantassem o embargo a esta obra.

"Duelo dos amantes"

História e política à parte, a primeira ideia que terá de ser retida acerca de “Jodhaa Akbar”, é que se trata de um filme sumptuoso. Desde as paradisíacas paisagens ao belo guarda-roupa, passando pelos palácios de sonho, tudo nesta película parece brilhar com uma luz incandescente. Só para termos uma ideia da dimensão megalómana como as coisas são aqui levadas a cabo, Gowariker usou 80 elefantes, 100 cavalos e 55 camelos nas cenas de batalha, para além de milhares de figurantes. Na música “Azeem O Sham, Shahenshah” (que já postei o videoclip AQUI) intervieram 1000 dançarinos, todos devidamente vestidos com indumentária da época, acompanhados de adereços como espadas e escudos. Como expoente máximo de luxo, direi igualmente que a soma de todo o ouro usado pelas personagens de “Jodhaa Akbar” ascende a 400 quilos!!! Julgo que com estes dados, ninguém se atreverá a pôr em causa que estamos perante uma produção com uma magnitude imensa, não se aplicando esta premissa apenas às películas de “Bollywood”.

Apesar da intriga política/religiosa/social e o manancial bélico terem uma parte importantíssima na trama, “Jodhaa Akbar” é antes de tudo uma história de amor. E quase todos nós sabemos que no campo do deflagrar de sentimentos, o cinema de “Bollywood” não pede meças praticamente a nada ou ninguém. Estamos perante a saga de uma linda princesa que ensina um jovem monarca que para governar bem tem de conquistar não apenas reinos ou povos, mas acima de tudo o coração dos seus súbditos. E a parada é posta num nível bastante elevado, pois “Akbar, o Grande” terá forçosamente de cumprir os objectivos propostos pela sua amada, de forma a que possa almejar ao prémio máximo, ou seja, ela própria. Imagino que naquela época, se isto acontecesse na realidade, “Akbar” não iria na conversa de “Jodhaa” e resolveria as coisas como habitualmente o fazia, ou seja, à força. É óbvio que aqui tal não poderia suceder, e “Akbar” orgulhosa, mas pacientemente, acede aos desejos de “Jodhaa” e através da sua descoberta pessoal, ganha o respeito dos seus subordinados, não apenas como um temível guerreiro, mas também como um governante justo, bondoso e compreensivo.

É extremamente apelativo num romance que se preze, o surgir de dificuldades a atravessarem-se no caminho dos apaixonados e as tentativas destes em superá-las. Aqui os problemas derivam sobretudo da diferença de costumes e religião entre ambos, que muitas vezes irá criar tentativas de descredibilização de “Jodhaa” na corte de “Akbar”. A princesa, sob a promessa de anuência do imperador, tenta manter alguns dos seus hábitos que considera fazer parte da sua própria essência como pessoa. Mas tal não granjeará simpatias numa sociedade muçulmana conservadora, que não vê com bons olhos o casamento da sua figura mais emblemática com uma hindu. Existem “complots” urdidos contra “Jodhaa”, que no início até acabam por chegar a bom porto, mas como aqui o amor vence sempre, “Akbar” acaba por se aperceber das maquinações contra a sua paixão, e toma atitudes que, contra tudo e todos, acabam por salvar os seus sentimentos e como decorrência secundária, mas importante, provocam uma nova visão política do seu império. É pois, fácil de perceber, que estamos perante uma longa-metragem que vive sob o signo do “love conquers all”, e neste ponto do texto já devem ter notado que a designação deste filme é a junção dos nomes do casal de enamorados “Jodhaa” (a princesa) mais “Akbar” (o imperador), que visa personificar esta simbiose de corpos e almas.

As batalhas e as restantes cenas de acção são do melhor que já vi na sétima arte, com momentos verdadeiramente arrepiantes e realistas. Fiquei particularmente impressionado com o treino dos elefantes presentes no filme, e o seu protagonismo durante as batalhas. Como já abordei em anteriores textos neste espaço, uma batalha que conte com elefantes, é algo de inexcedível. Os tanques de guerra da antiguidade conferem uma dimensão suplementar, que uma cavalaria não consegue almejar, por mais perfeita que seja em formação e número. Neste caso em particular, podemos observar elefantes verdadeiramente enraivecidos a esmagar com as patas os corpos de soldados desamparados, ou a varrer tudo o que podem apanhar com as suas trombas. É de igualmente admirar o diálogo físico que o imperador “Akbar”, mantém com um elefante e que faz parte do treino, julgo que de ambos. A cena tem muito de belo, numa clássica confrontação entre homem e besta (esta expressão não é usada com sentido depreciativo). No restante, as cenas bélicas possuem momentos de luta verdadeiramente excitantes, onde podemos observar setas a passar a milímetros dos alvos, ou uma verdadeira orgia de sangue que ilustra os costumeiros terrores da guerra. Merece igualmente um destaque especial o interessante duelo travado entre “Akbar” e o seu rival “Sharifuddin”, que pela envolvência e própria técnica de manejo das lanças, traz à memória a luta entre Aquiles e Heitor, no filme “Tróia”, de Wolfgang Petersen.

A banda-sonora, da autoria do mestre A.R. Rahman, exibe-se ao nível do que já nos habituamos, ou seja, bom. Destaco a música fenomenal “Azeem O Sham, Shahenshah”, que inclusive faz também parte da banda-sonora da novela brasileira “O Caminho das Índias”. Possui um pendor épico que se ajusta na perfeição ao ambiente da película, e que eleva imenso a réstia de heroísmo que, em maior ou menor medida, reside em cada um de nós. Ao contrário de algumas críticas que podem ser consultadas na internet, corroboradas por prémios que os principais actores venceram em certames de cinema, entendo que os intérpretes não denotam nada de transcendente na sua actuação. É certo que a beleza do outro mundo de Aishwarya Rai é sempre uma mais-valia imprescindível, para além do facto de a conceituada actriz conseguir arrancar alguns bons momentos durante esta longa-metragem. Igualmente Hrithik Roshan demonstra ter estampa para desempenhar o papel do imperador “Akbar”, e consegue cativar a audiência, assumindo uma figura de um homem duro, mas bom e justo. Uma muralha de pedra que se desmorona perante os inegáveis encantos de Rai. No entanto, é preciso reafirmar que estamos perante prestações ditas normais dos citados actores, sem demasiada elevação. Se existe algo que ressalta à vista, e aspecto que reconheço imprescindível nesta obra, é a inegável química que existe entre Rai e Roshan.


“Jodhaa Akbar” tem como predicados positivos a exposição de uma história de amor que encanta, a fricção política que ocorre sempre que se tenta quebrar com o instituído e as cenas das batalhas verdadeiramente fenomenais. Mas acima de tudo, e saúda-se o trabalho que vários filmes de “Bollywood” têm demonstrado neste particular, “Jodhaa Akbar” passa uma mensagem assaz positiva de tolerância religiosa e étnica. Tenta-se demonstrar que é possível e desejável uma reconciliação e aceitação mútua entre hindus e muçulmanos, numa desejada união entre todo o povo indiano, independente de credos ou costumes. Contudo, “Jodhaa Akbar” desilude um pouco, pois por vezes não consegue fugir dos trilhos do previsível ou da superficialidade. Embora se entenda que o mundo de sonho, normalmente domina a cultura do espectro de “Bollywood” (embora existam exemplos em que tal não sucede), falta credibilidade em alguns momentos da obra de Gowariker. E muitas vezes são estes parâmetros que distinguem uma obra grandiosa de um bom filme. “Jodhaa Akbar” fica-se pelo último espectro.

Aconselhável!


"A corte Mughal celebra a grandeza do seu imperador"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Site oficial

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 8,13




quinta-feira, junho 18, 2009

The Warlords - Irmãos de Sangue/The Warlords/Tau ming chong - 投名状 (2007)

Origem: China/Hong Kong

Duração: 127 minutos

Realizador: Peter Chan e Raymond Yip (co-realizador)

Com: Jet Li, Andy Lau, Takeshi Kaneshiro, Xu Jinglei, Guo Xiao Dong, Shi Zhao Qi, Wang Kuirong, Wang Yachao, Gu Bao Ming, Guo Xiaodong, Zhou Bo

"Pang"

Sinopse

Na China do século XIX, a rebelião dos cristãos Taiping imergiu o reino Qing no caos. O general “Pang” (Jet Li) é o único sobrevivente de uma batalha com os opositores ao imperador, fingindo-se de morto entre os corpos dos homens que comandava. A sua vergonha e covardia perseguem-no, mas “Pang” encontra coragem e redenção numa noite que passa com “Lian” (Xu Jinglei). Esta parte pela manhã, sem deixar pistas acerca do seu destino.

“Pang” parte outra vez sem direcção, até travar conhecimento com “Wu Yang” (Takeshi Kaneshiro), um jovem salteador que é liderado por “Er Hu” (Andy Lau). Os bandidos ganham a vida roubando comida aos soldados e, por vezes, assassinando-os. Demonstrando que tem capacidades de luta muito acima da média, “Pang” junta-se ao grupo de “Er Hu”, ficando chocado quando descobre que “Lian” é a mulher daquele. Quando a aldeia chefiada por “Er Hu” é saqueada pelo exército “Qing”, a ameaça de fome torna-se bastante elevada. Contudo, “Pang” sugere que os salteadores se alistem como soldados, de forma a que possam ter comida, dinheiro e porventura fama e heroísmo.


"Er-Hu"

“Er Hu” e “Wu Yang” concordam, mas atendendo a que “Pang” é novo no grupo, insistem em fazer um juramento conjunto, de forma a assegurar a sua lealdade. Em virtude deste facto, tornam-se irmãos de sangue, unidos por um pacto inquebrável, cuja violação dará direito à morte. Cedo, o grupo começa a ganhar notoriedade, devido a importantes batalhas que conseguem vencer contra os Taiping. No entanto, a amoralidade da guerra, a traição advinda da política e a paixão que tanto “Er Hu” como “Pang” nutrem por “Lian”, irão pôr em causa a amizade assumida pelos três heróis.


"Wu Yang"

"Review"

De há dois anos para cá, confesso que “The Warlords” foi dos filmes que geraram mais expectativas na minha pessoa, fundamentalmente por dois aspectos: é um épico de guerra e possui um “cast” fortíssimo, onde pontificam três dos meus actores asiáticos favoritos. Profusamente premiado em variadíssimos festivais de cinema asiático, Peter Chan para levar a cabo esta empresa baseou-se no clássico “Blood Brothers”, filme que remonta a 1973, assinado por Chang Cheh. O filme impressiona pela sua grandiosidade, e detém mesmo alguns momentos de tirar a respiração. Contudo, não se encontra isento de aspectos menos bons e que a certa altura defraudam um pouco. Diga-se de passagem, e repito, que a obra estava tabelada por cima e o anseio era elevado.

Em Hong Kong, Peter Chan é mais conhecido pelo seu especial jeito para as longas-metragens que lidam mais com o romance, embora já tenha tido incursões por outros géneros. À primeira vista, julgo que o exemplo mais emblemático passará por “Comrades: Almost a Love Story”. Apesar de “The Warlords” ser um épico, não deixa de ter bem presente uma faceta desenvolvida no tocante à história de amor. Os caminhos escolhidos enveredam muito mais pelo platonismo, do que propriamente pela parte mais física da relação, fazendo com que nos apercebamos crescentemente que “Lian” a mulher de “Er Hu”, será uma das causas principais para que a irmandade sofra um abalo. Desde já se iliba “Lian” de alguma actuação maléfica ou propositada para que tal suceda. As coisas simplesmente tomam o rumo que lhes está destinado. No que toca à amizade supostamente existida entre os três vectores do triângulo do pacto, a mesma não convence muito. “Pang” e “Er Hu” estão demasiado agarrados aos seus códigos de honra e objectivos pessoais. Quanto a “Wu Yang”, o mesmo parece um ser ingénuo, que precisa de orientação. Não se sabe muito bem é onde ele a irá buscar. Os únicos reflexos sintomáticos, embora algo desajustados face ao referido anteriormente, passa pela união dos três guerreiros numa batalha que parece estar irremediavelmente perdida, assim como a tentativa de “Er Hu” de salvar um “Pang” supostamente em perigo de vida. O que é um facto é que parece existir alguma falta de densidade, segurança e equilíbrio narrativo. Prova disto é que na parte final do filme, este dá um volte-face repentino e abrupto, saindo do campo do épico com cenas de acção memoráveis, e entrando na zona da intriga palaciana e da consumação da traição. Existe uma omissão no que concerne a uma ponte de ligação entre estas duas fases.

"Pang caminha sobre a morte"

Outro aspecto que carecia de algum melhoramento, passa pela explicação mais científica e histórica acerca da época em que ocorre a trama. Isto com certeza irá reflectir-se mais perante a audiência ocidental, da qual eu e a maior parte dos que visitam este espaço fazem parte. A rebelião Taiping, que se iniciou em 1850 e prolongou-se por 14 anos, teve muito de cultural e ideológico. Resumidamente, estamos a falar de uma revolta liderada por Hong Xiuqian, um chinês convertido ao cristianismo, e que visou criar um suposto reino que professasse aquela ideologia. Xiuqian desencadeou uma luta contra o império Qing, tendo-se auto-proclamado rei divino e irmão de Jesus Cristo. Tudo viria a ter um fim com a vitória dos exércitos do imperador em 1864. Ora na película, nada disto é explicado e apenas é induzido através de alguma simbologia como as cruzes de cristo. Existe uma claro focar nos temas da guerra, irmandade e romance, algumas vezes com bons resultados, outras assim-assim. A aposta pareceu, à primeira vista, numa maior internacionalização desta longa-metragem, visando agradar o público estrangeiro. Julgo, pelas razões que expliquei, que o desafio não foi completamente ganho pela perda de profundidade em que resultou.

Visualmente, o filme é muito excitante. Existem cenas de batalha excepcionais, muito sangue e algum realismo brutal, embora por outra via se tenha de admitir um certo exagero em nome do aumento da espectacularidade. Pense-se em Jet Li de uma assentada a cortar os pés a cinco ou seis oponentes. No tocante às paisagens, não nos é oferecido as verdejantes florestas de bambu de “O Tigre e o Dragão”, O Segredo dos Punhais Voadores” e tantos outros. Igualmente, não existe a sumptuosidade de “A Maldição da Flor Dourada”, ou o mundo de cores de “Herói”. O que nos é oferecido são desertos e cenas desoladas pela guerra implacável, num registo que de certa forma se aproxima um pouco de “Ashes of Time”. No entanto, a beleza árida ou crua de “The Warlords” não é nada inferior aos mencionados exemplos. Simplesmente, manifesta-se de uma forma diversa, mas muito pungente. No que concerne à actuação dos actores, julgo que os maiores créditos terão de ser atribuídos a Jet Li, e não devido à parte mais física da interpretação, pois “The Warlords” não é uma típica obra de artes marciais ou “Wuxia”. Jet Li desempenha muito bem o seu papel de homem amargurado pela derrota até à ascensão na hierarquia da dinastia Qing, podendo actualmente considerar-se um actor completo. Domina bem a expressividade, que está bastante talhada para papéis mais circunspectos, e sabe expôr verbalmente as suas emoções. Li foi, sem dúvida alguma, um actor que evoluiu imenso durante os últimos anos e cuja melhoria neste aspecto começou-se a notar mais a partir de “Herói”. Andy Lau e Takeshi Kaneshiro, à partida, sentem-se mais à vontade no tocante à representação mais tradicional. Contudo, aqui pedem meças a Li. Lau não tem oportunidade para evidenciar os seus inquestionáveis méritos como actor, e não parece se sentir muito à vontade num papel importante, mas um tanto ou quanto relativizado em relação a Li. Kaneshiro, por outra via, só desponta quando passeia a sua faceta de menino bonito do cinema asiático, que faz suspirar as moças todas. Não quero com isto dizer que Kaneshiro não é um actor de nomeada. Muito pelo contrário. Simplesmente aqui não mostra o que já evidenciou em muitos outros filmes.

Apesar de ser um épico de pendor belicista, “The Warlords” tem uma clara mensagem contra a guerra, dando a entender que um conflito em grande escala, não apenas espalha miséria a título global, mas também marca o mundo pessoal de cada um. Sendo uma obra de Peter Chan, é inevitável que não se consiga desligar dos aspectos mais sentimentais. Trata-se de uma película que será bastante consensual, mesmo para aqueles que não estão familiarizados com o cinema asiático. Apesar de ter méritos inegáveis e ser passível de considerarmos um bom filme, confesso mesmo assim, que estava à espera de algo mais.

A ver!

"Wu Yang ergue a cabeça de um inimigo"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 9

Emotividade - 8

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,88





segunda-feira, maio 11, 2009

Red Cliff II/Chi bi xia: Jue zhan tian xia (2009)

Origem: China/Hong Kong

Duração: 142 minutos

Realizador: John Woo

Com: Takeshi Kaneshiro, Tony Leung Chiu Wai, Zhang Fengyi, Chang Chen, Vicky Zhao, Hu Jun, Li Ching Ling, Shido Nakamura, You Yong, Song Jia, Tong Dawei, You Yong, Ba Sen Zha Bu, Zhang Jingsheng, Zhang Shan, Shi Xiaohong, He Yin

"Zhou Yu indica o caminho para a batalha"

Alerta!

“Red Cliff II” é a segunda parte da saga de John Woo, iniciada com “Red Cliff”. Pelo exposto, só deverá ler o presente texto, caso tenha visto o primeiro filme, sob pena de “spoilers”. Contudo, para quem já visionou a película predecessora, o texto anteriormente escrito acerca da mesma poderá ser um importante complemento ao presente neste "post".

Sinopse

O primeiro-ministro do império Han “Cao Cao” (Zhang Fengyi) prepara-se para atacar as forças combinadas do sul, lideradas pelo vice-rei “Zhou Yu” (Tony Leung Chiu Wai) e “Zhuge Liang” (Takeshi Kaneshiro). A refrega acontecerá na fortaleza do “Precipício Vermelho”, no rio Yangtzé. “Cao Cao” tem razões para se sentir confiante, pois as suas forças são infinitamente superiores a nível de homens e logística. Para piorar a situação, e tendo em vista minar a moral do exército aliado, “Cao Cao” envia aos seus inimigos embarcações cheias de soldados mortos infectados com febre tifóide. Este movimento provoca uma epidemia na fortaleza sitiada, e “Liu Bei” (You Yong) decide partir com o seu exército, temendo a morte dos seu povo. A aliança finda, e o vice-rei “Zhou Yu” fica apenas com as forças de Wu estimadas em cerca de 30.000 homens, que terão de lutar contra os mais de 800.000 que “Cao Cao” tem sobre o seu comando.

"Xiao Qiao entrega-se ao inimigo"

Contudo, “Zhuge Liang” (Takeshi Kaneshiro) recusa partir, e decide lutar ao lado do exército de Wu, numa batalha à partida supostamente perdida. As movimentações de ambas as partes começam, e chega o dia do desequilibrado mas inevitável confronto, onde o futuro dos reinos do sul será decidido.

"O intrépido Gan Xing"

"Review"

Após uma primeira parte que muito prometeu, e onde John Woo parece ter voltado aos bons velhos tempos, agora no registo do épico, chega a altura de “Red Cliff II”, onde ficaremos a saber o destino dos heróis da fortaleza do “Precipício Vermelho” e o desfecho da monumental batalha que se avizinha. Supostamente, e em virtude desta premissa, será de pensar que o mais espectacular teria sido deixado para o fim. Na minha opinião, não foi isso que aconteceu, mas tal constatação não é necessariamente má. Digamos, em abono da verdade, que tudo foi bem repartido, tornando “Red Cliff II” um excelente complemento do primeiro filme, e as duas partes da saga, um épico que com certeza perdurará na memória. “Red Cliff II” começa com uma ligeira súmula dos principais acontecimentos ocorridos em “Red Cliff”, de forma a que nos situemos no enredo, e já agora é-nos oferecido um interessante jogo de “Cuju”, uma forma primitiva de futebol, que muito me fez lembrar os jogos que costumava praticar na escola quando me aventurava no ensino primário e básico.

Embora como já foi aludido, Woo se aventure por um género distinto daquele que o celebrizou, o épico proporciona ao realizador exteriorizar características bastante marcantes do seu estilo próprio. Temas como honra, a amizade e objectivos/desafios aparentemente impossíveis de cumprir são profusamente tratados nesta película, fazendo com que a emoção e o heroísmo marquem bastantes pontos. Como seria de esperar, e apesar de possuir quase duas horas e meia de duração, a acção de “Red Cliff II” é regra geral, mais intensa que no seu predecessor. É natural que assim seja, pois em “Red Cliff” era necessário dar um enquadramento geral da trama, de forma a que o espectador percebesse efectivamente o que estava em causa. Quando refiro que a acção é mais intensa em “Red Cliff II”, não me refiro tanto aos momentos individualmente considerados, mas numa perspectiva de maior continuidade.

"Liu Bei e Zhuge Liang"

Do meu ponto de vista, a primeira parte possui um tratamento superior no que toca ao combate individual dos intervenientes. Mesmo com um ou outro auxílio de cabos e guindastes, assistimos a momentos verdadeiramente espectaculares, que fazem lembrar do melhor que já se fez a nível do “wuxia”. Em “Red Cliff II”, embora possamos vislumbrar algum atributo técnico dos litigantes, a lógica belicista funciona mais em conjunto. É-nos apresentado momentos grandiosos, no que toca a batalhas em grande escala. Assistimos a um confronto naval onde o sangue, e os elementos fogo, terra e água misturam-se num “cocktail” explosivo e imponente. Na razão de ser principal desta película, ou seja, a batalha do “Precipício Vermelho”, Woo introduz a estratégia militar perceptível mas efectiva, o sempre bem-vindo tema do sacrifício por algo maior do que nós, e a costumeira irmandade que unem os protagonistas perante situações críticas. E sim, é verdade! Woo não prescinde do seu habitual “standoff” final. Em jeito de conclusão deste ponto, sempre direi que a acção está mais presente do que no primeiro filme, que por força da sua conjuntura a difundia de uma forma mais esparsa.

Os actores repetem o bom registo da primeira parte, e parecem quase todos terem amadurecido nos seus papéis. Tony Leung Chiu Wai e Takeshi Kaneshiro cumprem o que lhes é pedido numa saudável concorrência interna, sem desligar dos aspectos mais conducentes à irmandade na guerra. Vicki Zhao, encantadora como sempre, brilha no ecrã. Shido Nakamura, um actor que pessoalmente aprecio imenso, é o verdadeiro reflexo do combatente feroz que não vacila nas horas difíceis e que se prontifica a tudo para que a empresa seja bem sucedida. Saúda-se o maior protagonismo da actriz Ling Chi Ling em “Red Cliff II”, que adiciona mais "glamour" à película. “Xiao Qiao” afigura-se uma aparente Helena de Tróia orientalizada, quando é espalhado o rumor que afinal a razão para “Cao Cao” provocar o conflito, passa por desejar ardentemente a mulher do vice-rei “Zhou Yu”. De uma forma heróica e aparentemente votada à tragédia, “Xiao” contribui para o esforço de guerra ao se entregar voluntariamente ao primeiro-ministro, de forma a fazer com que o mesmo cometa erros que muito poderão ditar o resultado final da batalha.

Com a saga “Red Cliff”, Woo afirmou ter cumprido o sonho de uma vida, que era fazer um épico de grande dimensão acerca de um evento importante da história chinesa. O resultado final redundou numa fita de eleição, que deverá figurar nas obras importantes do cinema asiático do século XXI. Imune às críticas de alguns puristas, que afirmaram que a segunda parte da película desviou-se um tanto ou quanto de um maior rigor histórico, é-nos oferecida acção, intriga, sacrifício, amor, heroísmo, honra, tudo ingredientes que o realizador ama e que apaixonam os fãs dos seus filmes. Acima de tudo, o grande mérito de “Red Cliff” e principalmente “Red Cliff II” é serem o reflexo do que o seu criador tem de melhor. Aguardamos ansiosamente a próxima obra!

Seja pois muito bem vindo de novo ao oriente, Mr. Woo!

"Sun Shangxiang"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Trailer

Outras críticas em português/espanhol:

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 10

Emotividade - 8

Mérito artístico - 9

Gosto Pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,50





segunda-feira, dezembro 01, 2008

Era Uma Vez na Índia/Once Upon a Time in India/Lagaan - लगान (2001)
Origem: Índia
Duração: 215 minutos
Realizador: Ashutosh Gowariker
Com: Aamir Khan, Gracy Singh, Rachel Shelley, Paul Blackthorne, Suhasini Mulay, Kulbhushan Kharbanda, Raghuvir Yadav, Rajendra Gupta, Rajesh Vivek, Shri Vallabh Vyas, Javed Khan, Rajendranath Zutshi, Akhilendra Mishra, Daya Shankar Pandey, Yashpal Sharma, Amin Hajee, Aditya Lakhia, A. K. Hangal, John Rowe, David Gant, Jeremy Child, Ben Nealon, Amin Gazi
"Bhuvan ladeado dos seus conterrâneos"

Sinopse

Em 1893, em pleno período vitoriano, a Índia é governada com mão-de-ferro pelos britânicos, num sociedade em que os marajás, outrora príncipes e reis poderosos, são apenas meras figuras decorativas. Numa província remota, o poder britânico é personificado no capitão “Andrew Russell” (Paul Blackthorne), um homem racista e arrogante, que espezinha os indianos, considerando-os seres inferiores. Eivado de um espírito autoritário e feudal, o capitão “Russel” aplica aos camponeses o dobro da quantia que costumam pagar a título de “lagaan”, a expressão que serve para designar o imposto sobre a terra, normalmente ressarcido em produtos agrícolas.

“Bhuvan” (Aamir Khan) é um jovem agricultor rebelde da aldeia de Champaner, que não vê com bons olhos a medida tomada por “Russel”, que inevitavelmente deflagrará a fome e a miséria pelo seu povo. Descobrindo que o capitão inglês é um fanático pelo cricket, “Bhuvan” acicata o orgulho de “Russel”, ao afirmar que o jogo é bastante fácil de praticar. “Russel” faz então uma aposta com “Bhuvan” cujos termos são os seguintes: num espaço de 3 meses, uma equipa da povoação local terá de enfrentar um conjunto composto pelos oficiais britânicos. Se vencerem, toda a província estará isenta do “lagaan” durante 3 anos; se perderem, todos os agricultores terão de pagar o triplo do imposto.

"Gauri"

“Bhuvan” começa a recrutar e a treinar a equipa para o confronto com os ingleses, mas as dificuldades são imensas, pois apercebem-se que o “cricket” não é tão fácil quanto isso. Contudo, recebem uma ajuda inesperada da irmã do seu oponente, “Elizabeth Russell” (Rachel Shelley) que revoltada com a injustiça da aposta, decide tomar partido e ajudar a equipa indiana. No meio de muitas privações e volte-faces, chega o dia em que através de um mero jogo, decidir-se-á o futuro a curto prazo de um povo.


"Elizabeth Russell"

"Review"

“Era Uma Vez na Índia”, ou somente “Lagaan”, foi um filme aclamadíssimo no seu país, tendo a sua fama ultrapassado fronteiras ao ponto de ter sido nomeado para o óscar de melhor filme estrangeiro, na edição de 2002 dos prémios da academia de Hollywood. Apenas dois filmes indianos tinham conseguido tal feito, sendo os outros “Mother India” (1957) e “Salaam Bombay!” (1989). Concorrendo contra “O Fabuloso Destino de Amélie”, a conhecida obra de Jean-Pierre Jeunet e principal favorito, estatueta acabaria por ser atribuída a “No Man's Land”, do bósnio Danis Tanovic, numa vitória que muitos acusaram ter natureza estritamente política. Independentemente destas considerações, “Lagaan” ganharia inúmeros prémios em certames de cinema, e não apenas na Índia. A aclamação no mundo da sétima arte, seria acompanhado pelo sucesso comercial, pois “Lagaan” bateria todos os recordes de venda de “dvd”, no que concerne a um filme de “Bollywood”, assim como entraria rapidamente no “top 10” do “box office” do Reino Unido, a que não será alheio o facto de existir naquela nação uma grande comunidade indiana e paquistanesa.

“Lagaan” é à partida uma longa, mas mesmo bastante longa-metragem (mais de três horas e meia de duração!!!) que tem os condimentos para agradar a tudo e todos. Possui um argumento que passeia pelos campos da intriga política, da história, do desporto, do amor, da amizade, da comédia salutar, da cultura e etnografia. Alie-se umas músicas bem conseguidas, não só as ligadas às tradicionais danças, mas igualmente aquelas cuja função é constituir o pano de fundo do desenrolar das cenas do filme, e temos uma base para algo positivo. Imagine-se que até nos é facultada a oportunidade de visionar os actores britânicos a participar com os indianos nas melodias, numa mescla bem conseguida onde tanto se debitam cantos em “hindi” como em inglês. O mundialmente conhecido A.R. Rahman, esse ícone mundial da “world music” e autor da banda-sonora desta película, presenteia-nos com um registo extremamente bem conseguido e apelativo aos nossos ouvidos.

“Lagaan” pretende ser a “história de uma batalha sem sangue”, como é apregoado nos cartazes que publicitaram o filme, um pouco por todo o mundo. Apesar de nos ser explicado no início da película, com um certo formalismo, que todos os eventos e personagens são ficcionais, poderíamos perfeitamente ser induzidos a pensar o contrário, e acreditarmos que estávamos perante um épico baseado em eventos reais embora algo romanceado. A sua envolvência no que toca aos aspectos mais pessoais e colectivos, em que observamos o quotidiano difícil de um povo dominado e pobre, que tem a oportunidade de se sublimar perante obstáculos aparentemente intransponíveis, assim nos leva a concluir. Não obstante, o filme por vezes exagera no pendor nacionalista, em que os ingleses com a excepção de Elizabeth, são vistos como “uns bebedores de chá” ostracizantes e em constante desrespeito pelo povo e cultura indianos. É uma forma de passar uma mensagem, que visa acentuar outra mais positiva que se reconduz à união de todos os indianos num desiderato comum. E esta premissa é claramente exposta quando vemos “Bhuvan”, o herói da trama, a acolher de braços abertos na equipa um muçulmano e um “sikh”, assim como desafia as convenções mais entranhadas a pugnar pelo recrutamento de um “intocável” com uma deficiência numa mão. O protagonista usa um argumento simples, mas bastante significativo. Como é que os indianos podem queixar-se do mau tratamento dos ingleses, se eles próprios, seja através da religião, ou de um rigoroso sistema de castas, discriminam-se uns aos outros. É com esta inteligência e perspicácia que, à semelhança de um Ghandi, “Bhuvan” engendra uma forma de luta não violenta, que passa por atingir os britânicos directamente no seu orgulho. O objectivo é vencê-los num campo que nem ousam sonhar perder, neste caso um dos seus desportos de eleição, o “cricket”. Mas poderia ser outro aspecto qualquer que estivesse em causa, desde que servisse para marcar uma posição. Pense-se na inevitável história de amor, em que nem os encantos naturais e bondade intrínseca da britânica “Elizabeth” conseguem vencer a indiana “Gauri”, na luta pelas atenções de “Bhuvan”. À europeia resta ficar só a vida toda a suspirar pelo seu enamorado indiano.

"A pouco convencional equipa de Champaner"

É relativamente fácil de concluir que “Lagaan” foi um filme que teve vários recursos financeiros e materiais à sua disposição, sendo até hoje a maior produção de sempre na história da meca do cinema indiano. O filme é visualmente poderoso, alicerçado numa fotografia de respeito onde nos é dado a conhecer vastas paisagens áridas de uma Índia desconhecida para quase todos nós. Junte-se os palácios dos marajás, as casas senhoriais inglesas, um guarda-roupa meticuloso e um interminável leque de actores e estão criadas as condições materiais para mais uma película que visa provar que a lenda é quase sempre maior do que a vida.

Os actores, embora cumpram o que lhes peçam, não se exibem todos em igual medida, muito por força da dispersão dos papéis num grande número de intervenientes. Mesmo assim, sempre se dirá que Aamir Khan demnstra o carisma que lhe é inato. Não é segredo que estamos perante um dos mais sensacionais actores de “Bollywood”, se não mesmo o mais competente actualmente. Gracy Singh faz praticamente a sua estreia numa grande produção, e embora se esforce, há que reconhecer que ainda tinha muito que calcorrear para chegar ao nível de uma Kareena Kapoor, de uma Preity Zinta ou de uma Aishwarya Rai. No que concerne à falange britânica presente na película, é necessário desde logo afirmar que o cinema de “Bollywood” ainda não é suficientemente atractivo para capitalizar grandes nomes ingleses, pelo que invariavelmente se recorre a figuras desconhecidas. Falando de Rachel Shelley e Paul Blachthorne, os que assumem mais despesas nesta longa-metragem, ambos são actores de séries ou filmes desconhecidos. Muito provavelmente, “Lagaan” constituirá o expoente máximo nas suas carreiras. O seu desempenho é aceitável, embora longe de ser brilhante. Como aspecto lateral, sempre se dirá que a actriz britânica é lindíssima, e possui uns olhos que petrificam qualquer um...

“Lagaan” é uma película de excelente qualidade que teve, entre outros méritos, o de chamar a atenção para a cinematografia de “Bollywood” no ocidente, provando de uma vez por todas que na Índia também residem obras de grande envergadura cinematográfica. Apesar de ser uma longa-metragem bastante extensa, o seu ritmo contagiante faz com que as mais de três horas e meia de filme decorram num ápice, nunca entediando o espectador. Transmite uma mensagem assaz positiva e que passa muito pela ideia de sermos nós os deuses que controlam o nosso destino. Contudo, na minha ainda curta deambulação pelas obras daquele país, confesso que já tive a oportunidade de visionar películas que, por mais inverosímel que pareça, são superiores. Pelo exposto, sempre se poderá questionar com alguma acuidade, o porquê de mais filmes provenientes da Índia não terem uma presença constante nos grandes certames de cinema do mundo. Já é tempo de ultrapassar o trauma de que tudo o que provém daquelas paragens está conotado com o signo do “rasca”. Eu, aos poucos, já o estou a fazer. E sinto-me feliz por isso, pois é sinal que os meus horizontes cinematográficos evoluíram e subsequentemente estão a tornar-se mais vastos.

A não perder!


"Bhuvan e Gauri"

Trailer - música "Chale Chalo"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 8

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13





quinta-feira, outubro 30, 2008

Red Cliff/Chi bi - 赤壁 (2008)
Origem: China/Hong Kong
Duração: 140 minutos
Realizador: John Woo
Com: Takeshi Kaneshiro, Tony Leung Chiu Wai, Zhang Fengyi, Chang Chen, Vicky Zhao, Hu Jun, Li Ching Ling, Shido Nakamura, You Yong, Song Jia, Tong Dawei, You Yong, Ba Sen Zha Bu, Zhang Jingsheng, Zhang Shan, Shi Xiaohong, He Yin
"O genial estratega Zhuge Liang"
Sinopse

No ano de 208, “Cao Cao” (Zhang Fengyi) o primeiro-ministro do imperador Han, convence este a declarar guerra aos senhores feudais do Sul da China “Liu Bei” (You Yong) e o duque de Wu “Sun Quan” (Chang Chen), afirmando falsamente que estes são traidores. Temendo “Cao Cao”, o monarca acede aos desejos deste e nomeia-o comandante de todos os exércitos, permitindo assim que este desencadeie o conflito.

“Liu Bei” e o seu povo conseguem escapar à justa após a batalha de Chang Ban, e refugiam-se numa fortaleza remota do reino. A sede de poder de “Cao Cao” está longe de ser saciada e este continua a progredir com o seu vasto exército. “Zhuge Liang” (Takeshi Kaneshiro), o genial estratega de “Liu Bei”, dirige-se aos domínios de “Sun Quan”, em ordem a solicitar a ajuda daquele no sentido de fazerem uma aliança militar contra os desígnios de “Cao Cao”. Com o auxílio do valente militar e principal conselheiro de “Sun Quan”, o vice-rei “Zhou Yu” (Tony Leung Chiu Wai), “Zhuge Liang” consegue a tão pretendida união de esforços.

"O vice-rei Zhou Yu"

Após uma grande vitória contra os exércitos terrestres de “Cao Cao”, as forças combinadas de “Liu Bei” e “Sun Quan”, concentram-se na fortaleza de “Zhou Yu” conhecida como “Precipício Vermelho” (“Red Cliff”) e aguardam o confronto decisivo com as imensas forças de “Cao Cao”, compostas por 800.000 homens e 3.000 embarcações de guerra.

"Review"

Após uma longa passagem por Hollywood, o mítico realizador John Woo decide voltar à terra-natal não para realizar mais um dos seus sensacionais “heroic bloodshed”, mas para se aventurar no género épico. Para o efeito, foi-se inspirar na batalha dos precipícios vermelhos, um conflito armado que ocorreu no fim da dinastia Han, mais precisamente no ano de 208, e que antecedeu o período conhecido como o dos “Três Reinos”. A sua localização exacta é alvo de intensa discussão académica, sendo certo apenas que a mesma se desencadeou algures no rio Yangtzé. John Woo, no sentido de conferir uma verdade histórica mais palpável à sua obra basear-se-ia na “Crónica dos Três Reinos”, um documento oficial escrito por um militar da época de seu nome Chen Shou. No entanto, é certo que Woo não seguiu escrupulosamente a sua fonte primária, e enveredou por uma compreensível romantização no sentido de tornar esta longa-metragem mais apelativa ao grande público. Mas isso é o que praticamente toda a gente faz, e não é nada a que não estejamos já habituados. Cumpre ainda referir que “Red Cliff” é o filme asiático mais dispendioso da história, com um orçamento que ronda os 80 milhões de dólares. Enquanto na Ásia o filme terá duas partes que em conjunto totalizarão mais de 4 horas, para o Ocidente será feito um único filme com duas horas e meia de duração. Como sou avesso a cortes na sala de edição, seguirei a linha escolhida para a Ásia, e dissertarei um pouco acerca da primeira parte, ansiando para que em 2009 tenha a oportunidade de partilhar o meu ponto de vista convosco acerca do epílogo desta película, consubstanciada na segunda parte.

"O primeiro-ministro do imperador Han, o ambicioso Cao Cao"

Os épicos asiáticos tendem a ser verdadeiramente grandiosos, não apenas em meios, mas igualmente em emoção, mensagem, sentimento e tudo aquilo que nós fãs do género prezamos com tanto coração. São estas características que normalmente os distinguem dos seus congéneres ocidentais, que muitas vezes são capazes de os superar na questão logística, mas que normalmente perdem aos pontos no que toca à envolvência transmitida ao espectador. Quem costuma visitar este espaço sabe que gosto de todos os géneros de cinema sem distinção, mas quando toca a puxar pelo pendor heróico “da coisa”, têm aqui um homem para o que der e vier. É por este mesmo motivo que os anos de 2007 e 2008, consubstanciaram-se numa possível época de ouro para mim, com a realização de um elevado número de longas-metragens que em potência poderiam preencher-me as medidas. Falo de “Warlords”, “The Forbidden Kingdom”, “Three Kingdoms: Ressurrection of the Dragon”, este “Red Cliff” e “An Empress and the Warriors”. É certo que muitas vezes a expectativa dá lugar à desilusão, e o último filme mencionado ficou bastante longe de ser algo memorável. Felizmente, o mesmo não se pode afirmar em relação a este que agora se analisa.

Os meios usados são, à falta de expressão melhor, verdadeiramente impressionantes e preenchem as medidas aos espectadores. Estamos a falar de centenas de figurantes, referindo só a título de curiosidade que o exército vermelho chinês cedeu 1000 soldados para intervirem no filme. A apresentação dos exércitos, assim como da frota de navios de guerra deslumbra ao máximo, mesmo que nos apercebamos que houve algum inevitável recurso a imagens geradas por computador. Junte-se a estas características um guarda-roupa, decoração, arquitectura e manancial bélico marcado pelo detalhe, acompanhado de paisagens e fotografia esplendorosa e...já está! Temos uma receita de sucesso, e meio caminho andado para que o filme seja um êxito garantido, com o necessário sucesso de bilheteira. Não esquecer ainda a competente banda-sonora do excelente compositor japonês Taro Iwashiro, cujo trabalho em “Shinobi: Heart Unde Blade” simplesmente adorei! Embora aqui não atinja um nível semelhante, consegue nos hipnotizar o suficiente para nos embrenharmos ainda mais na película.

"O exército de Liu Bei prepara-se para a batalha, com o poderoso general Guan Yu na dianteira"

Por sua vez, os combates estão bem conseguidos, tanto de um ponto de vista colectivo como individual. “Red Cliff” aqui não deixa mesmo os seus créditos por mãos alheias e consegue elevar mais ainda os seus índices de pujança visual, ou não estivéssemos a falar de John Woo, auxiliado pela coreografia engendrada por Corey Yuen. É muito agradável à vista observar os planos da batalha em que as forças aliadas adoptam uma estranha mas bastante efectiva formação de anéis de tartaruga, que enreda as forças de Cao Cao numa bem urdida armadilha. Mas o que ainda mais me agradou foram as performances individuais que se destacam no meio da contenda geral. Para a alegria de muitos e também a desilusão de outros tantos, Woo decidiu fugir ao combate clássico, e colocar alguns elementos mais próprios do wuxia, com auxílio de guindastes se tal fosse necessário, fazendo com que uma aura mística e lendária rodeie os guerreiros. Contudo, não se ouse pensar que a crueza encontra-se ausente! Quando é necessário atacar forte e duro, com bastante sangue à mistura, temos igualmente uma mão cheia de cenas para satisfação pessoal. Sob o signo da espectacularidade, em que Woo sempre quase viveu, consegue-se concretizar uma saudável mescla de ambos os estilos de combate que só vem elevar o filme, na minha humilde opinião.

Não foi isenta de atribulações a reunião do elenco para “Red Cliff”, e atendendo à expectativa que tinha acerca da película, foi uma situação que acompanhei um pouco, recolhendo informação pelos sítios da especialidade, à medida que a coscuvilhice se ia desenrolando. Originariamente, o conhecedíssimo actor Chow Yun Fat (um velho conhecido de John Woo) tinha sido recrutado para o papel do vice-rei Zhou Yu, uma das personagens mais emblemáticas da trama. Posteriormente, Yun Fat viria a recusar a participação, alegando para o efeito que tinha recebido o guião uma semana antes da rodagem começar e por esse motivo não ter possibilidades de se preparar convenientemente. Terence Chang, o produtor da película desmentiu veementemente este facto afirmando que a seguradora do actor tinha se oposto a 73 (?!) cláusulas do contrato do actor. Por sua vez, outro monstro do cinema asiático Ken Watanabe teria sido seleccionado para o papel do vilão do filme Cao Cao. Supostamente, e aqui entram os costumeiros nacionalismos, não foi bem visto o facto de uma personagem importante da história chinesa ser interpretado por um estrangeiro. O consagrado Zhang Fengyi viria a ganhar o papel. Por fim, o meu actor favorito Tony Leung Chiu Wai. No início estava-lhe destinada a representação de Zhuge Liang, do meu ponto de vista a figura mais importante desta obra. O actor viria a declinar, invocando a razão de estar esgotado devido às filmagens de “Lust, Caution”. Numa reviravolta que poucos perceberam, Tony Leung viria a retornar ao “cast”, desta vez para assumir o papel que estava destinado a Chow Yun Fat, ou seja o do vice-rei Zhou Yu. Zhuge Liang viria a ser entregue a Takeshi Kaneshiro, um actor que dispensa qualquer tipo de apresentação. O certo é que o “casting” final redundou numa verdadeira constelação de estrelas de grandes cinematografias asiáticas, a saber, da China, Hong Kong e Japão. E embora o resultado da representação pudesse ter sido melhor, atendendo à qualidade intrínseca dos intervenientes, nota-se que o binómio entretenimento/espectacularidade levou a melhor sobre qualquer tipo de possível interpretação transcendental. A realidade é que todos, sem excepção, cumprem o que lhes é pedido, e o resultado é muito bom.

É curioso, e ao mesmo tempo de relevar, que as personagens são apresentadas num estilo que em muito homenageia os grandes clássicos de wuxia e até do denominado “kung fu old school”, cuja trama principal versava sobre a luta de um grupo heróico de guerreiros contra uma qualquer força opressora dominante. Temos o estratega nato e a personificação da inteligência erudita em “Zhuge Liang”, a valentia honrada em “Zhou Yu”, a coragem escondida em “Sun Quan”, a irreverência na princesa “Sun Shangxiang” (interpretada pela sempre bela Vicki Zhao), todos apoiados por um manancial de guerreiros, cada um com as suas qualidades pessoais e de combate muito próprias e distintas. A sim à primeira vista, lembrei-me de “The Water Margin” (a série, pois nunca tive o prazer de ver o filme de Chang Cheh), protagonizada pelo actor japonês Atsuo Nakamura, e que há uns anos passou na “SIC Radical” (para os leitores que não vivem em Portugal, ou que não têm acesso aos canais portugueses, informo que é um canal de televisão).

Resta ainda referir que o costumeiro e inevitável fetiche das pombas de John Woo, encontra-se bem presente em “Red Cliff”. Os simpáticos bichos marcam a sua presença em algumas fases do filme, tais como na homenagem ao mensageiro de Wu que é morto por “Cao Cao”, numa clara manobra de intimidação contra os aliados ou na parte em que propõem o casamento da princesa “Sun Shangxiang” a “Liu Bei” de forma a cimentar mais a aliança. As pombas acabam por assumir uma papel mais interventivo na longa-metragem, não se assumindo apenas como um adorno decorativo ou simbólico, mas igualmente servindo como um meio de comunicação à distância entre os guerreiros.

Confesso que a primeira parte de “Red Cliff” deixou-me com água na boca, e correspondeu bastante às minhas expectativas. Estamos perante um filme que se se enquadra na melhor tradição dos épicos asiáticos, e que ainda consegue introduzir alguns elementos do wuxia que acentuaram mais a sua espectacularidade. Aguardemos então por 2009, na esperança que o melhor ainda foi deixado para a segunda parte, ou seja, a própria batalha decisiva do precipício vermelho, que promete ser um dos maiores confrontos épicos da história do cinema!

Muito bom!


"As forças aliadas atraem o exército Han para uma armadilha, usando a táctica dos anéis de tartaruga"

Trailer

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português/espanhol:

  1. Viscera Blog
  2. Batto presenta...
  3. Noite Americana

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 8

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 10

Emotividade - 8

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,50






quarta-feira, setembro 10, 2008

O Último Samurai/The Last Samurai (2003)

Origem: Estados Unidos da América (E.U.A.)

Duração: 148 minutos

Realizador: Edward Zwick

Com: Tom Cruise, Ken Watanabe, Koyuki, Hiroyuki Sanada, Billy Connolly, Tony Goldwyn, Masato Harada, Shichinosuke Nakamura, Shin Koyamada, Aoi Minato, Timothy Spall, John Koyama, Togo Igawa, Shun Sugata, Sosuke Ikematsu, Seizo Fukumoto, Scott Wilson

Consideração prévia

O presente texto é elaborado ao abrigo da secção do “My Asian Movies” denominada “Cunho da Ásia”.

"O capitão norte-americano Nathan Algren"

Sinopse

Em 1876, “Nathan Algren” (Tom Cruise) é um ex-capitão do exército norte-americano alcoólico, que vive num trauma permanente devido aos massacres cometidos pela sua companhia (a 7ª cavalaria do General Custer) contra os índios da tribo dos Sioux. A oportunidade para ganhar uns largos dólares extra surge quando “Omura” (Masato Harada), o primeiro ministro japonês, convida-o e ao seu anterior comandante, o coronel “Bagley” (Tony Goldwyn), para viajarem até ao Japão e treinar o seu recém-formado exército.

Sem nada a perder, “Algren” zarpa até ao país do sol nascente e cedo vê-se envolvido numa guerra civil, onde se confrontam a perspectiva moderna de um novo Japão e a facção mais conservadora corporizada nos samurais, liderados pelo lendário “Katsumoto” (Ken Watanabe). Numa escaramuça, “Algren” é capturado e obrigado a viver entre os rebeldes chefiados pelo chefe samurai.

"Katsumoto, o líder dos samurais"

Durante o seu cativeiro, “Algren” acaba por perceber as verdadeiras razões da rebelião de “Katsumoto”, que passam por lutar pela preservação das tradições e modo de vida dos japoneses, assim como contra a corrupção imergente. Apaixonado por “Taka” (Koyuki) e tornando-se amigo próximo de “Katsumoto”, “Algren” escolhe a opção que verdadeiramente redimirá a sua vida.


"A bela Taka"

"Review"

Nomeado para 4 óscares e vencedor de outros 15 prémios em variados certames internacionais de cinema, “O Último Samurai” é uma produção norte-americana que teve uma aceitação bastante favorável um pouco por todo o mundo, tendo mesmo granjeado um sucesso superior a nível de bilheteira no Japão, do que propriamente nos E.U.A. O filme foi apreciado no país do sol nascente, com a crítica quase unanimemente a emitir parecer favorável. Edward Zwick foi elogiado por ter efectuado um trabalho de fundo no que toca à história japonesa assim como ter recrutado actores locais emblemáticos. Por outra via, as opiniões negativas nipónicas advieram do facto de ter sido exposto um retrato muito idealista e favorável dos samurais, mostrando-os como guerreiros sem mácula e acima de qualquer suspeita a nível ético. Foi deixado claro que a perspectiva dos japoneses acerca dos combatentes lendários era que os mesmos frequentemente foram atreitos à corrupção e muitos não eram tão honrados quanto isso.

Para além de muito resumidamente ser importante dar uma perspectiva dos japoneses acerca de um filme ocidental que foca um período importantíssimo da sua história, torna-se essencial para melhor percepção da película, falarmos um pouco do que serviu de inspiração a “O Último Samurai”. Tendo por base uma guião escrito originariamente por John Logan, esta longa-metragem foca-se num dos marcos mais importantes da história do Japão que foi a Restauração Meiji (1866-1869) e o período que lhe sucedeu conhecido por Era Meiji, que se prolongaria até 1912. Tratou-se de uma fase em que o Japão até então um país altamente feudalizado, em que quem detinha verdadeiramente o poder eram os nobres e senhores da guerra, avançou numa modernização acelerada. O resultado final foi o país do sol nascente ter-se tornado em pouco mais de 40 anos, numa das maiores potências mundiais.

Centrando-me agora no filme, embora não descurando ainda a parte mais histórica, “O Último Samurai” inspirou-se, embora de uma forma bastante ficcionada e que lhe retira quase toda a verdade científica, na rebelião de Satsuma, liderada por Saigo Takamori. Este era um nobre bastante poderoso no Japão que descontente com a abolição dos privilégios da classe dos samurais e com o crescimento da corrupção dos políticos, decidiu encabeçar uma luta armada contra o governo Meiji. Apesar de alguns sucessos iniciais, “Saigo” viria a ser definitivamente derrotado na batalha de Shiroyama onde com apenas 300-400 samurais fez frente ao exército imperial de 300.000 homens (!!!). É contado que os últimos samurais que se encontravam na sua posição fortificada, desembainharam as suas espadas e carregaram sobre o exército inimigo até serem todos mortos. Nesta altura, julgo que todos os que já viram o filme, perceberam quem “Katsumoto” visa representar (obviamente Saigo Takamori), assim como ficaram elucidados acerca da base da derradeira batalha exposta nesta longa-metragem (embora aqui não exista uma tão grande desproporção de forças). Por outra via, a personagem de “Nathan Algren”, o capitão norte-americano que escolhe o partido dos samurais, é inspirada no francês Jules Brunet. Este não tem nenhuma relação directa com o chefe samurai Saigo Takamori. Trata-se de um oficial europeu, que fez parte de uma delegação estrangeira contratada para treinar o exército do Xógun Tokugawa Yoshinobu, acabando por combater ao lado destes contra as forças leais ao imperador Meiji.

"O exército dos samurais liderado por Katsumoto"

“O Último Samurai”, na voz do narrador/personagem “Simon Graham”, interpretado pelo actor Timothy Spall, praticamente se inicia num tom profético e ilustrativo do “background” da película, traduzida em várias frases, das quais destaco: “Era em que o moderno e o antigo se batem pela alma do Japão”. Esta grande produção de Hollywood, que os mais conservadores olharam à altura com alguma desconfiança, acabou por redundar num episódio bastante feliz do cinema norte-americano. A cinematografia é simplesmente um sonho, fazendo com que esta obra seja visualmente magnífica e ao nível das grandes produções históricas do cinema asiático. A banda-sonora composta pelo mundialmente conhecido Hans Zimmer, eivada de elementos orquestrais temperados com os mais orientalizados, oferecem um pendor exótico e bastante adequado à longa-metragem, que sobretudo ajuda-nos a sonhar e a sentir. Como curiosidade, refira-se que esta foi a 100ª banda-sonora feita por Zimmer.

Os actores fazem o que lhes é pedido, e usando uma terminologia mais futebolística, exibem-se a bom nível. Tom Cruise, apesar de não conseguir desligar-se da sua faceta de “menino bonito”, tem momentos bons no filme que fazem com que a nota seja positiva. Principalmente na fase inicial, do “Algren” alcoólico, anti-herói e desiludido com a vida. Ken Watanabe brilha no primeiro papel em que é forçado a exprimir-se em língua inglesa. O seu ar estóico, valente, ponderado mas determinado quando é necessário agir, agradam imenso e tocam o espectador. É de dar ainda relevo à imponente presença do grande actor japonês Hiroyuki Sanada, no papel do rígido samurai “Ujio”. Quanto a Koyuki, bem...é impossível ter uma opinião imparcial. A actriz poderia interpretar o papel que lhe foi atribuído de forma miserável (não é o caso) que o seu ar sonhador e de alguma forma triste, sempre fariam o necessário para ficarmos embevecidos e sem palavras...

Sempre considerei Edward Zwick especialmente talhado para os épicos, e “O Último Samurai” revela esta faceta do realizador. Mas como em tudo na vida, obviamente que existem aspectos menos positivos e que se reconduzem essencialmente a factores menos credíveis da trama. Quanto a mim, existem dois bastante evidentes. O primeiro será o relacionamento de “Algren” com “Katsumoto”, “Nobutada” (o filho do líder dos samurais), “Taka” e os seus rebentos. Atendendo ao evento que desencadeou a captura do capitão norte-americano, não se afigura razoável que todos estes elementos aceitem "Algren" de uma forma tão célere e que acabem mesmo por amá-lo perdidamente... O segundo factor menos verosímil será mais físico. Falo do manejo da katana por parte de “Algren”. Mesmo aqueles que não estão familiarizados com a arte de combater com esta arma (eu sou um deles), não podem razoavelmente acreditar que “Algren” em tão pouco tempo torne-se num verdadeiro mestre, inclusive fazendo frente ao samurai “Ujio” (Hiroyuki Sanada), que é dos melhores combatentes entre os da sua estirpe. São estas marcas perfeitamente tangíveis com o cinema de “Hollywood” (e não só), que impedem “O Último Samurai” de ser uma verdadeira obra de vulto da sétima arte. No restante, fica ainda registo para o tratamento demasiado endeusado dos samurais, que são portadores de todas as qualidades de rectidão e moral, e nenhum grande defeito de maior que se lhes aponte. Com excepção, talvez, da intransigência o que nem sempre será de considerar uma característica menos abonatória. Tudo depende das situações em concreto.

“O Último Samurai” é uma grande homenagem ocidental à cultura japonesa, corporizada num épico de eleição. É certo que não consegue fugir a alguns estigmas e clichés próprios dos “blockbusters” de Hollywood. No entanto, o seu tratamento histórico cuidado dentro da natural romantização cinematográfica, o seu pendor estóico sem mácula, o seu “cast” extremamente feliz, a trama por vezes mediana mas a transbordar de personagens emblemáticas que ficarão para sempre na nossa memória, e mais meia-dúzia de aspectos de “encher o olho”, fazem com que o resultado seja francamente positivo. Ah, e ninguém me venha dizer que dentro de nós não existirá um desejo escondido em ser um “Katsumoto” trágico, mas heróico e firme às suas convicções! Por mim, e com mais algumas toneladas de coragem, fez-me sonhar ser um “Nathan Algren” a tomar uma posição de redenção aliada a uma cultura que admiro e adorava conhecer profundamente “in loco”. Antigamente, bastava-me com um “John Blackthorne/Anjin-san”, o navegador de “Shogun”, interpretado por Richard Chamberlain. Aqui dei mais uma passo em frente (ou atrás segundo alguns).

Como apreciador de cinema, mas acima de tudo como ser humano, sou extremamente permeável a histórias de amizade, amor, honra e redenção! “O Último Samurai” tem tudo isto e muito mais, portanto só me resta concluir da seguinte forma:

Muito bom!!!

"A carga de Algren"

The Internet Movie Database (IMDb) link, Trailer

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 9

Interpretação - 8

Argumento - 7

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 10

Emotividade - 9

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,50