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sexta-feira, junho 12, 2009

Origem: Índia
Duração: 113 minutos
Realizadora: Mira Nair
Com: Shafiq Syed, Hansa Vital, Chanda Sharma, Raghuvir Yadav, Anita Kanwar, Nana Patekar, Irrfan Khan, Raju Barnad, Chandrashekhar Naidu, Sarfuddin Quarrassi, Mohanraj Babu, Sanjana Kapoor
"Krishna"
Sinopse
Depois de “Krishna” (Shafiq Syed) pegar fogo à mota de um cliente do irmão, a sua mãe envia-o para trabalhar num circo, deixando claro que este não poderá voltar para casa enquanto não arranjar 500 rupias como forma de compensação pelo sucedido. Após algum tempo a trabalhar no circo, “Krishna” é abandonado pelo seu patrão. Desesperado, resolve comprar um bilhete de comboio para a cidade mais próxima, que é Bombaim (actual Mumbai).
"Sola Saal Aka Sweet Sixteen"

Chegado à grande cidade, “Krishna” ajudado por “Chillum” (Raghuvir Yadav) um pequeno traficante de droga, começa a trabalhar para um vendedor de chá, numa das zonas com mais prostituição em Mumbai. Após a chegada de “Sola Saal Aka Sweet Sixteen” (Chanda Sharma), uma jovem nepalesa virgem, que foi comprada para se prostituir, “Krishna” descobre um novo sentimento, o amor. Após uma gorada tentativa de resgate, “Krishna” perde o seu emprego. A vida piora quando “Krishna” para além de ter de trabalhar em vários biscates, tem de tomar conta de “Chillum”, que também foi despedido e tem graves problemas de toxicodependência. O dia-a-dia na pobreza miserável de Mumbai, rodeado de prostitutas, chulos e traficantes, torna-se cada vez mais insuportável.

"Krishna observa Sola Saal"

"Review"

Premiado em vários certames de cinema mundiais, incluindo Cannes, assim como granjeou uma nomeação para os óscares de Hollywood (a 2ª de um filme indiano, 30 anos após “Mother India”), “Salaam Bombay!” é justamente considerada uma das obras mais emblemáticas do cinema indiano. Vinte anos antes do aclamado “Slumdog Millionaire”, Mira Nair corporizaria um filme que analisava com grande detalhe, o dia-a-dia carregado de infortúnios das crianças que sobrevivem nas ruas de Mumbai. É por demais nítido que o filme de Danny Boyle bebeu alguma inspiração em “Salaam Bombay!”, e não existe razão nenhuma para que se envergonhe acerca deste facto. “Salaam Bombay!” constituiu a película de estreia de Mira Nair, e atenta a qualidade desta longa-metragem, augurava-se um bom futuro para a realizadora indiana. Poder-se-á afirmar que, regra geral, Nair não defraudou as expectativas em obras posteriores.

O filme é justamente dedicado a todas as crianças pobres que deambulam pelas eclécticas e perigosas ruas de Mumbai, como Nair faz questão de salientar no epílogo da película. E nada melhor do que recrutar alguns dos actores principais, directamente nas ruas da grande cidade, de forma a impregnar o maior realismo possível à película. Foi precisamente isto o que aconteceu, aspecto que viria igualmente a ser imitado por Danny Boyle. Nair juntou um grupo de crianças de Mumbai e partilhou com elas as suas experiências quotidianas, visitando os inúmeros bazares existentes na cidade, as suas estações de comboio e ruas quase inteiramente dedicadas à prostituição e tráfico de droga. Desta vivência pessoal da realizadora, nasceu o argumento de “Salaam Bombay!”. Os miúdos, por sua vez, foram ensinados não a representar, pois Nair queria que eles agissem o mais naturalmente possível, mas sim a sentirem à vontade perante uma câmara de filmar. Por sua vez, nenhuma cena foi rodada dentro de um estúdio. Tudo se passa nos cenários que a realizadora pretende expôr, ou seja, as próprias ruas de Mumbai. Inclusive, algumas das cenas foram filmadas com câmaras escondidas, de forma a captar as reacções normais dos habitantes. A cena da procissão funerária é um dos exemplos. O resultado foi uma obra que tanto tem algum espírito de documentário, como elementos de um drama extremamente poderoso.

"Baba e Rehka"

“Salaam Bombay!” não é um típico filme de “Bollywood”. Muito pelo contrário. Rompe totalmente com as convenções do género, e de certa forma chega a parodia-las. É certo que nos é mostrado a grande importância que o cinema tem para os indianos, principalmente no entretenimento que proporciona à população, fazendo-a esquecer dos problemas do dia-a-dia. Contudo, “Salaam Bombay!” foca-se na realidade, sem grandes presunções ou subterfúgios, aniquilando por completo o mundo de sonho e o escape à realidade, típico das obras de “Bollywood”. Isto provoca algum celeuma quando hoje em dia, os realizadores mais rebeldes da meca do cinema indiano, decidem enveredar por este caminho. Imagine-se há mais de 20 anos atrás! Um reflexo típico desta premissa presente em “Salaam Bombay!”, passa por não termos as costumeiras músicas e danças, tão típicas de “Bollywood”. O que nos é apresentado são as crianças a delirar com os filmes, e traulitando alegremente as músicas que ouviram, à semelhança de alguns de nós quando estão no duche.

As crianças actuam a um nível bastante elevado, talvez pelo facto de estarem a ser elas mesmas nas ruas que tão bem conhecem. A sua inexperiência não se nota minimamente, e é bem temperada com os actores mais experientes, salientando-se um fenomenal Raghuvir Yadav, que brilha imenso como “Chillum”, em especial nas crises provocadas pela falta de droga. É com grande pena minha que não vejo estas crianças prosseguirem uma bem sucedida carreira como actores, e subsequentemente terem condições de fartura para terem uma vida bem melhor. Pelo mesmo caminho, parecem ir os petizes de “Slumdog Millionaire”. Imagine-se que Shafiq Syed, o actor principal de “Salaam Bombay!”, supostamente vive como condutor de um riquexó em Bangalore (ver mais AQUI)!

“Sallam Bombay!” é uma obra incontornável para todos aqueles que queiram conhecer a Índia profunda e o seu cinema. Aliás, é uma película imperdível para qualquer um que viva para o que de melhor que a sétima arte tem. Revela ser uma lição de vida enternecedora, dada à tela por uma das maiores realizadoras provenientes da Ásia. Para além dos aspectos mais cinematográficos, onde se incluem um argumento acima da média e uma envolvência brutal, temos sempre a possibilidade de aprimorarmos a nossa cultura acerca de uma das sociedades mais fascinantes e intrigantes do mundo.

Obrigatório!


"Krishna ampara um desesperado Chillum"

The Internet Movie Database (IMDb) link

3 clips do filme

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 9

Argumento - 8

Banda-sonora - 8

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 10

Mérito artístico - 9

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,50






segunda-feira, dezembro 01, 2008

Era Uma Vez na Índia/Once Upon a Time in India/Lagaan - लगान (2001)
Origem: Índia
Duração: 215 minutos
Realizador: Ashutosh Gowariker
Com: Aamir Khan, Gracy Singh, Rachel Shelley, Paul Blackthorne, Suhasini Mulay, Kulbhushan Kharbanda, Raghuvir Yadav, Rajendra Gupta, Rajesh Vivek, Shri Vallabh Vyas, Javed Khan, Rajendranath Zutshi, Akhilendra Mishra, Daya Shankar Pandey, Yashpal Sharma, Amin Hajee, Aditya Lakhia, A. K. Hangal, John Rowe, David Gant, Jeremy Child, Ben Nealon, Amin Gazi
"Bhuvan ladeado dos seus conterrâneos"

Sinopse

Em 1893, em pleno período vitoriano, a Índia é governada com mão-de-ferro pelos britânicos, num sociedade em que os marajás, outrora príncipes e reis poderosos, são apenas meras figuras decorativas. Numa província remota, o poder britânico é personificado no capitão “Andrew Russell” (Paul Blackthorne), um homem racista e arrogante, que espezinha os indianos, considerando-os seres inferiores. Eivado de um espírito autoritário e feudal, o capitão “Russel” aplica aos camponeses o dobro da quantia que costumam pagar a título de “lagaan”, a expressão que serve para designar o imposto sobre a terra, normalmente ressarcido em produtos agrícolas.

“Bhuvan” (Aamir Khan) é um jovem agricultor rebelde da aldeia de Champaner, que não vê com bons olhos a medida tomada por “Russel”, que inevitavelmente deflagrará a fome e a miséria pelo seu povo. Descobrindo que o capitão inglês é um fanático pelo cricket, “Bhuvan” acicata o orgulho de “Russel”, ao afirmar que o jogo é bastante fácil de praticar. “Russel” faz então uma aposta com “Bhuvan” cujos termos são os seguintes: num espaço de 3 meses, uma equipa da povoação local terá de enfrentar um conjunto composto pelos oficiais britânicos. Se vencerem, toda a província estará isenta do “lagaan” durante 3 anos; se perderem, todos os agricultores terão de pagar o triplo do imposto.

"Gauri"

“Bhuvan” começa a recrutar e a treinar a equipa para o confronto com os ingleses, mas as dificuldades são imensas, pois apercebem-se que o “cricket” não é tão fácil quanto isso. Contudo, recebem uma ajuda inesperada da irmã do seu oponente, “Elizabeth Russell” (Rachel Shelley) que revoltada com a injustiça da aposta, decide tomar partido e ajudar a equipa indiana. No meio de muitas privações e volte-faces, chega o dia em que através de um mero jogo, decidir-se-á o futuro a curto prazo de um povo.


"Elizabeth Russell"

"Review"

“Era Uma Vez na Índia”, ou somente “Lagaan”, foi um filme aclamadíssimo no seu país, tendo a sua fama ultrapassado fronteiras ao ponto de ter sido nomeado para o óscar de melhor filme estrangeiro, na edição de 2002 dos prémios da academia de Hollywood. Apenas dois filmes indianos tinham conseguido tal feito, sendo os outros “Mother India” (1957) e “Salaam Bombay!” (1989). Concorrendo contra “O Fabuloso Destino de Amélie”, a conhecida obra de Jean-Pierre Jeunet e principal favorito, estatueta acabaria por ser atribuída a “No Man's Land”, do bósnio Danis Tanovic, numa vitória que muitos acusaram ter natureza estritamente política. Independentemente destas considerações, “Lagaan” ganharia inúmeros prémios em certames de cinema, e não apenas na Índia. A aclamação no mundo da sétima arte, seria acompanhado pelo sucesso comercial, pois “Lagaan” bateria todos os recordes de venda de “dvd”, no que concerne a um filme de “Bollywood”, assim como entraria rapidamente no “top 10” do “box office” do Reino Unido, a que não será alheio o facto de existir naquela nação uma grande comunidade indiana e paquistanesa.

“Lagaan” é à partida uma longa, mas mesmo bastante longa-metragem (mais de três horas e meia de duração!!!) que tem os condimentos para agradar a tudo e todos. Possui um argumento que passeia pelos campos da intriga política, da história, do desporto, do amor, da amizade, da comédia salutar, da cultura e etnografia. Alie-se umas músicas bem conseguidas, não só as ligadas às tradicionais danças, mas igualmente aquelas cuja função é constituir o pano de fundo do desenrolar das cenas do filme, e temos uma base para algo positivo. Imagine-se que até nos é facultada a oportunidade de visionar os actores britânicos a participar com os indianos nas melodias, numa mescla bem conseguida onde tanto se debitam cantos em “hindi” como em inglês. O mundialmente conhecido A.R. Rahman, esse ícone mundial da “world music” e autor da banda-sonora desta película, presenteia-nos com um registo extremamente bem conseguido e apelativo aos nossos ouvidos.

“Lagaan” pretende ser a “história de uma batalha sem sangue”, como é apregoado nos cartazes que publicitaram o filme, um pouco por todo o mundo. Apesar de nos ser explicado no início da película, com um certo formalismo, que todos os eventos e personagens são ficcionais, poderíamos perfeitamente ser induzidos a pensar o contrário, e acreditarmos que estávamos perante um épico baseado em eventos reais embora algo romanceado. A sua envolvência no que toca aos aspectos mais pessoais e colectivos, em que observamos o quotidiano difícil de um povo dominado e pobre, que tem a oportunidade de se sublimar perante obstáculos aparentemente intransponíveis, assim nos leva a concluir. Não obstante, o filme por vezes exagera no pendor nacionalista, em que os ingleses com a excepção de Elizabeth, são vistos como “uns bebedores de chá” ostracizantes e em constante desrespeito pelo povo e cultura indianos. É uma forma de passar uma mensagem, que visa acentuar outra mais positiva que se reconduz à união de todos os indianos num desiderato comum. E esta premissa é claramente exposta quando vemos “Bhuvan”, o herói da trama, a acolher de braços abertos na equipa um muçulmano e um “sikh”, assim como desafia as convenções mais entranhadas a pugnar pelo recrutamento de um “intocável” com uma deficiência numa mão. O protagonista usa um argumento simples, mas bastante significativo. Como é que os indianos podem queixar-se do mau tratamento dos ingleses, se eles próprios, seja através da religião, ou de um rigoroso sistema de castas, discriminam-se uns aos outros. É com esta inteligência e perspicácia que, à semelhança de um Ghandi, “Bhuvan” engendra uma forma de luta não violenta, que passa por atingir os britânicos directamente no seu orgulho. O objectivo é vencê-los num campo que nem ousam sonhar perder, neste caso um dos seus desportos de eleição, o “cricket”. Mas poderia ser outro aspecto qualquer que estivesse em causa, desde que servisse para marcar uma posição. Pense-se na inevitável história de amor, em que nem os encantos naturais e bondade intrínseca da britânica “Elizabeth” conseguem vencer a indiana “Gauri”, na luta pelas atenções de “Bhuvan”. À europeia resta ficar só a vida toda a suspirar pelo seu enamorado indiano.

"A pouco convencional equipa de Champaner"

É relativamente fácil de concluir que “Lagaan” foi um filme que teve vários recursos financeiros e materiais à sua disposição, sendo até hoje a maior produção de sempre na história da meca do cinema indiano. O filme é visualmente poderoso, alicerçado numa fotografia de respeito onde nos é dado a conhecer vastas paisagens áridas de uma Índia desconhecida para quase todos nós. Junte-se os palácios dos marajás, as casas senhoriais inglesas, um guarda-roupa meticuloso e um interminável leque de actores e estão criadas as condições materiais para mais uma película que visa provar que a lenda é quase sempre maior do que a vida.

Os actores, embora cumpram o que lhes peçam, não se exibem todos em igual medida, muito por força da dispersão dos papéis num grande número de intervenientes. Mesmo assim, sempre se dirá que Aamir Khan demnstra o carisma que lhe é inato. Não é segredo que estamos perante um dos mais sensacionais actores de “Bollywood”, se não mesmo o mais competente actualmente. Gracy Singh faz praticamente a sua estreia numa grande produção, e embora se esforce, há que reconhecer que ainda tinha muito que calcorrear para chegar ao nível de uma Kareena Kapoor, de uma Preity Zinta ou de uma Aishwarya Rai. No que concerne à falange britânica presente na película, é necessário desde logo afirmar que o cinema de “Bollywood” ainda não é suficientemente atractivo para capitalizar grandes nomes ingleses, pelo que invariavelmente se recorre a figuras desconhecidas. Falando de Rachel Shelley e Paul Blachthorne, os que assumem mais despesas nesta longa-metragem, ambos são actores de séries ou filmes desconhecidos. Muito provavelmente, “Lagaan” constituirá o expoente máximo nas suas carreiras. O seu desempenho é aceitável, embora longe de ser brilhante. Como aspecto lateral, sempre se dirá que a actriz britânica é lindíssima, e possui uns olhos que petrificam qualquer um...

“Lagaan” é uma película de excelente qualidade que teve, entre outros méritos, o de chamar a atenção para a cinematografia de “Bollywood” no ocidente, provando de uma vez por todas que na Índia também residem obras de grande envergadura cinematográfica. Apesar de ser uma longa-metragem bastante extensa, o seu ritmo contagiante faz com que as mais de três horas e meia de filme decorram num ápice, nunca entediando o espectador. Transmite uma mensagem assaz positiva e que passa muito pela ideia de sermos nós os deuses que controlam o nosso destino. Contudo, na minha ainda curta deambulação pelas obras daquele país, confesso que já tive a oportunidade de visionar películas que, por mais inverosímel que pareça, são superiores. Pelo exposto, sempre se poderá questionar com alguma acuidade, o porquê de mais filmes provenientes da Índia não terem uma presença constante nos grandes certames de cinema do mundo. Já é tempo de ultrapassar o trauma de que tudo o que provém daquelas paragens está conotado com o signo do “rasca”. Eu, aos poucos, já o estou a fazer. E sinto-me feliz por isso, pois é sinal que os meus horizontes cinematográficos evoluíram e subsequentemente estão a tornar-se mais vastos.

A não perder!


"Bhuvan e Gauri"

Trailer - música "Chale Chalo"

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação:

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 8

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 9

Mérito artístico - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 8

Classificação final: 8,13





terça-feira, março 11, 2008

From the Heart/Dil Se...- दिल से (1998)

Origem: Índia

Duração: 152 minutos

Realizador: Mani Ratnam

Com: Shahrukh Khan, Manisha Koirala, Preity Zinta, Raghuvir Yadav, Sabyasachi Chakravarthy, Piyush Mishra, Krishnakant, Aditya Srivastava, Ken Philip, Sanjay Mishra, Mita Vasisht, Arundhati Rao, Malaika Arora, Gautam Bora, Manjit Bawa

"Varna e Meghna"

Estória

“Amarkant Amar Varna” (Shahrukh Khan) é um jornalista da estação radiofónica “All India”, que é enviado da capital Deli para o norte do país, tendo em vista elaborar uma reportagem acerca de distúrbios relacionados com as comemorações do 50º aniversário da independência da Índia.

Numa estação de comboio, “Varna” depara-se com uma rapariga chamada “Meghna” (Manisha Koirala), e apaixona-se instantaneamente. “Meghna”, apesar de parecer sentir-se atraída por “Varna”, recusa os seus avanços. No fim da sua estada na região turbulenta, “Varna” acaba por ser barbaramente agredido por supostos familiares de “Meghna”, de forma a que deixe de insistir numa relação com a rapariga.

"Chaiyya Chaiyya"

“Varna” regressa a Deli, e tempos depois torna-se noivo de “Preeti” (Preity Zinta). A vida parece correr bem, até que “Meghna” aparece em casa de “Varna” e solicita-lhe refúgio e trabalho na rádio “All India”. O jornalista cede perante os pedidos de “Meghna”, e todo o seu sentimento começa a despontar outra vez.

Mal imagina “Varna”, que “Meghna” é uma terrorista que se encontra em Deli para cometer um atentado suicida contra o primeiro-ministro da União Indiana. E apesar da rapariga amar “Varna”, de todo o coração, nada a fará desistir do seu objectivo.

"O juramento dos terroristas"

"Review"

Sem qualquer tipo de preconceito, iremos agora falar de um ilustre representante da maior (não confundir com melhor, por favor) indústria de cinema asiática e mundial: Bollywood! Para os mais distraídos, e que porventura pensavam que este espaço desprezava o cinema proveniente de Bombaim, alerto que em tempos elaborei um texto acerca de outro filme de “Bollywood”. Trata-se do épico “Asoka” (ver AQUI).

Aquando da sua estreia, “Dil Se...” esteve longe de ser um estrondoso sucesso, revelando resultados de bilheteira muito abaixo das expectativas geradas. Contudo, esta situação haveria de mudar com a subsequente internacionalização do filme, e presença em alguns festivais, como Berlim, onde em 1999 venceu um prémio. A grande consagração e surpresa, adviria do Reino Unido, onde “Dil Se...” viria a ser o primeiro filme indiano a entrar no top 10 do “box office” inglês.

Antes de tudo, e como seria de esperar de um filme de “Bollywood”, “Dil Se” é uma estória de paixões... Ah, é verdade! Nada de suspense, e deixemo-nos de rodeios! Admitamos desde já que é uma película trágica também! Portanto, podem ir buscar os vossos lenços para secar os litros de lágrimas que irão jorrar! Hum...estava a brincar! Uma das características que faz com que “Dil Se” fuja um pouco ao estigma da maior parte dos seus conterrâneos, é que contém drama quanto baste, não entrando em exageros demasiado pirosos. No entanto, é certo que como um bom filho daquelas paragens, o filme não se livra das músicas, nem do final estrondosamente triste do costume. Portanto...

Falemos de amor. A premissa para a trama apaixonada em “Dil Se” tem muito de espiritual, diga-se de passagem. De acordo com a literatura árabe antiga, o amor tinha sete estád(i)os a saber: “Hub” (Atracção), “Uns” (Arrebatamento), “Ishq” (o Amor propriamente dito), “Aquidat” (Respeito), “Ibaddat” (Veneração), “Junoon” (Obsessão) e “Maut” (Morte). É assumido pelo próprio argumento e pela personagem interpretada por Shah Rukh Khan, que o filme pretende fazer uma recriação de todos os aspectos atrás mencionados. E de facto, se visionarmos a película com alguma atenção, sempre poderemos dividi-lo em sete partes, que corresponderão quase na perfeição às tais fases do amor. Eu pelo menos vi a película desta perspectiva, embora admita que possa ter sido condicionado de alguma forma pela sinopse. Outros defendem que as cinco primeiras fases são claramente inexistentes, e que praticamente nos ficamos pela obsessão e pela morte. Não compartilho nada desta ideia.

"Meghna e Preeti, a noiva de Varna"

Paralelamente ao óbice amoroso, subjaz o aspecto polémico desta longa-metragem e que o faz ser pouco comum (embora não único) na cinematografia de “Bollywood”: a mensagem política.
É claramente passada a ideia que o 2º país mais populoso do mundo (cerca de 1112 milhões de pessoas), não se encontra tão unido quanto isso, padecendo pelo contrário de uma forte desagregação social e étnica, onde grandes cidades como Deli, Bombaim, Calcutá ou Madrasta são consideradas o cerne do país e o resto é conversa. Este tipo de centralismo, normalmente dá azo a regionalismos exacerbados, que degeneram muitas vezes em sentimentos independentistas. Tais extremismos normalmente são expressados em comportamentos violentos. Daqui nasce o que várias vezes apelidamos de terrorismo. Para outros é uma luta justa, que visa conseguir a auto-determinação de um povo ostracizado e desprezado. A própria ideia da mulher - terrorista, retratada em “Meghna”, e do seu propósito final de querer assassinar o primeiro-ministro indiano, parece ser baseada num evento real. Falo do assassinato de Rajiv Ghandi, às mãos de uma bombista suicida, em 1991 (possuo algumas recordações deste evento, pois já contava 14 anos à altura). A mulher chamava-se Thenmuli Rajaratnam, e era um membro da organização “Tigres Tamis”.

Passemos a coisas mais alegres e falemos das inevitáveis músicas. A primeira coisa a referir é que todas sem excepção (e por incrível que pareça para alguns) possuem uma qualidade bastante elevada. Não será alheio ao facto, o compositor das melodias ser um dos maiores nomes da “world music”, ou seja, um senhor que tem por nome A. R. Rahman. Da banda-sonora destaca-se claramente “Chaiyya Chaiyya”. Apreciem-no AQUI, ou em alternativa, também poderão ouvi-la na caixa de música que se encontra no blogue. Esta melodia em particular constitui um dos maiores êxitos do cinema de “Bollywood”. A prova disso mesmo é que igualmente faz parte do genérico inicial do filme “Inside Man” de Spike Lee, assim como constitui um dos vários sons que compõem a eclética banda-sonora de “Moulin Rouge”, de Baz Luhrmann. Gosto mesmo do raio da música! Tanto que até me apetece saltar para cima de um comboio em andamento e dar pulos que nem um louco! E a propósito deste aspecto, fica aqui registado que a sequência que poderão acima visionar no “clip” mencionado não foi isenta de acidentes, como facilmente poderemos imaginar. Tratou-se, segundo li, da primeira dança de um filme de “Bollywood” a ser efectuada num comboio em andamento. Como podem facilmente perceber, poderão haver alguns problemas de equilíbrio. Shahrukh Khan, a estrela da companhia quis dar o exemplo, e não usou qualquer tipo de medida de segurança durante a rodagem da cena em questão (está na altura da piada machista: “pois, grande coisa! Se eu tivesse pela frente uma rapariga como a modelo Malaika Arora, também não me fazia rogado e até executava mortais com o comboio em andamento!”). Pelos vistos, alguns dos que resolveram seguir os passos de Khan, não se deram bem e parece que existiram alguns ferimentos a reportar, embora nenhuma vítima grave.

Merece ainda uma palavra de apreço, a excelente fotografia desta longa-metragem, com paisagens de sonho, que aproveitam ao máximo as excelentes localizações que a Índia tem para nos oferecer. São-nos apresentados igualmente alguns cenários idílicos do enclave de Caxemira e do Butão. É, acima de tudo, apresentada uma viagem de sonho, desde florestas verdejantes, até desertos cuja temperatura só empalidece perante a força dos sentimentos que por vezes é transmitida.

“Dil Se – From the Heart”, como o nome indica, é um filme feito com o coração. Todos nós sabemos que quando assim o é, à semelhança de tudo na vida, as coisas por vezes perdem algum discernimento. No entanto, não deixa de ser uma boa proposta de uma cinematografia que por vezes, injustamente, está associada ao que de menos bom se faz no cinema mundial.

"O desespero dos amantes"

Trailer,

The Internet Movie Database (IMDb) link

Outras críticas em português:

Avaliação.

Entretenimento - 8

Interpretação - 7

Argumento - 7

Banda-sonora - 9

Guarda-roupa e adereços - 8

Emotividade - 8

Mérito artísitco - 8

Gosto pessoal do "M.A.M." - 7

Classificação final: 7,75





terça-feira, abril 25, 2006

Asoka/Ashoka, the Great/Samrat Ashoka (2001)

Origem: Índia

Duração: 151 minutos

Realizador: Santosh Sivan

Com: Shahrukh Khan, Kareena Kapoor, Danny Denzongpa, Rahul Dev, Hrishitaa Bhatt, Gérson da Cunha, Subhashini Ali, Sooraj Balaji, Johnny Lever, Raghuvir Yadav, Suresh Menon, Ajith Kumar, Shilpa Mehta, Mithilesh Chaturvedi, Madhu.

"Asoka"

Considerações pessoais

Este é um dos tais filmes "das palmas e das cantigas made in India"! Antes de tudo tenho de confessar que não sou lá muito fã dos filmes de "Bollywood". Eu até gosto de películas dramáticas, mas aquilo é de fazer chorar e saltar as pedras da calçada! É o rapaz que namorava com a rapariga, e afinal ela é a irmã que se tinha separado dele na juventude; depois mais à frente já não é a irmã, mas sim a prima de uma rapariga que ele gostou bastante e por aí fora! Tudo acompanhado daquelas músicas que me fazem subir as paredes, só de ouvir as vozes estridentes, eh eh eh! Mas é preciso ver que não deixam de ser ilustres representantes do cinema que se faz no continente asiático merecendo, por esse motivo, um lugar aqui neste "blog".

No entanto, avanço desde já, e correndo o risco de ser extemporãneo, que Asoka foi uma agradável surpresa no bom sentido!

"Kaurwaki e o jovem principe Aryan"

Estória

Esta película conta a estória do rei Asoka que governou a India no período entre 270 e 237 A. C., tendo sido um dos grandes patronos do budismo e do jainismo, constituindo uma das personagens mais importantes da história daquele país.

Podemos discernir 3 períodos no filme.

No primeiro, Asoka é um principe fugitivo, devido à disputa pelo trono do reino de Magadha com o seu irmão mais velho que, inclusive, o tenta assassinar. Nessa altura Asoka assume o nome fictício de "Pawan" (que significa vento em hindu) e apaixona-se pela princesa Kaurwaki do reino rival de Kalinga, que se encontra igualmente a fugir de assassinos enviados por um ministro corrupto. Asoka torna-se igualmente no ídolo do principe Aryan, o jovem irmão de Kaurwaki, e legítimo herdeiro do trono de Kalinga.

Posteriormente, Asoka derrota o irmão mais velho, ascendendo desta forma ao poder, e estranhamente é aqui que começam os problemas. Perdendo o rumo a Kaurwaki, o novo rei vê-se dominado por uma sede de sangue e conquista, que o faz arrasar todos os reinos que tentam resistir, inclusive o de Kalinga, onde o clímax da tragédia ocorre.

Por fim, Asoka apercebe-se da sua tirania, para além do mal e da destruição que causou, e decide abandonar o trono, para converter-se num monge jainista.

"Os cómicos soldados de Magadha"

"Review"

Asoka é um filme indiano que podemos considerar verdadeiramente internacional, atendendo à distribuição mundial que beneficiou. Igualmente será passível de catalogação como um épico, em toda a verdadeira e real dimensão da palavra.

Apesar de um pouco extensa, é uma película bastante interessante de se seguir, não sendo monótona, e possuindo umas batalhas dignas de registo, com milhares de figurantes e cavalos, e onde estão igualmente presentes os elefantes como não podia deixar de ser.

Um tema incontornável nos filmes indianos são as "tais músicas". Sinceramente, e atendendo à extensão do filme, não são em exagero (apenas 4, graças a Deus!!!), e uma delas até achei bastante interessante e agradável, assim como a dança que a acompanhava ( podem ver o clip aqui).

"Asoka na carga da cavalaria do seu exército"

Outro aspecto em que este filme não foge à generalidade dos que provêm da India é o excessivo dramatismo. Está todo lá, com cenas em que pensamos "será que isto ainda se pode tornar pior?", e lá vem mais uma desgraça qualquer, morre mais alguém, etc. Mas até são agradáveis de se ver, e aprimoram ainda mais a emoção presente no desenrolar da estória, tornando-a mais cativante.

As interpretações são aceitáveis, constituindo condições essenciais, atendendo ao acima reportado, ser um especialista no derramamento de lágrimas e em fazer poses trágicas, para além de dominar razoavelmente bem a arte da dança.

Não ponho as mãos no fogo por esta película, no que toca a ser do agrado de todos, mas tenho que deixar bem vincado que assim como não gosto da generalidade dos filmes indianos, reconheço que este em certa medida conquistou-me.

Uma proposta interessante!

"Kaurwaki luta para defender o reino de Kalinga"



Avaliação:
Entretenimento - 7
Interpretação - 7
Argumento - 8
Guarda-roupa e adereços - 8
Banda-sonora - 6
Emotividade - 8
Mérito artístico - 8
Gosto pessoal do "M.A.M." - 7
Classificação final: 7,38